Arquivo Fotográfico do Diário do Alentejo

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Andarilhar.


Esta é uma crónica diferente.
Uma crónica que começa com uma reflexão sobre o seu próprio título.
Um título que é apenas um verbo, um simples verbo da nossa língua.
Andarilhar, eis o verbo que não parece verbo, tão inconsequente parece a sua conjugação : eu andarilho, tu andarilhas, ele(a) andarilha…
Melhor dizendo, um verbo que mais parece aqueles que o Mia Couto “inventa” e que nós, só por vergonha, não usamos na língua que é a nossa, que é a dele, a que Pessoa chamou um dia de nossa pátria.
Cervejar, estrelinhar, praiar, que lindos verbos moçambicanos, os que definem uma cerveja fresca, um céu estrelado no verão, ou uma praia de areias finas e águas transparentes.
No dicionário, andarilhar pode ser “andar de um lado para o outro”, mas também “vaguear”. Ou ainda, diremos nós, participar, viver, sentir, as “Palavras Andarilhas”.
Lindo, este título, para um encontro de afectos e de partilhas, que transforma Beja na “Cidade dos Contos”.
Não em mais uma “capital”, palavra já gasta de tão usada e abusada ( a última conhecida é a do “frango do campo” ), mas na cidade que acolhe andarilhos do país e do mundo, contadores, educadores ou apenas extasiados ouvintes de todas as idades.
Um encontro que nos deixa orgulhosos, como naquele dia em que, na Fundação de Serralves, num seminário sobre temas culturais, alguém que soube que éramos de Beja, deixou públicos elogios às Andarilhas, à biblioteca que as acolhe, às pessoas que as realizam e à cidade que as acarinha.
Porque as Andarilhas nasceram no único local onde tal magia podia ter acontecido, numa “biblioteca sem sono”, e porque a memória dos homens é curta e muitas vezes injusta, não podemos nunca esquecer os seus três principais artífices:  Cristina Taquelim, a alma mater das dez edições já realizadas e da que vai ter lugar este ano; Figueira Mestre, o sonhador e desassossegado arquitecto da casa mãe, inovadora e revolucionária; Carreira Marques, o autarca poeta que via a Cultura, não como adorno ou como emblema para a lapela, mas como algo importante para a formação dos cidadãos do concelho que dirigia.
Mas, tal como Brecht escreveu nas “Perguntas do operário que lê”, quem constrói esta Tebas dos nossos tempos, esta cidade do Serafim, do Fontinha, do Quiko, da Marina, do Maurício, do Bakk, do Portillo, do Torrado, e de tantos outros, são também os muitos outros operários das palavras, desde logo os incansáveis trabalhadores da biblioteca e dos outros sectores da câmara municipal, aos voluntários que dão o seu tempo a esta causa cultural.
Como aqueles, artistas e público, que no passado dia 13 de julho se encontraram no Pax Julia, para dar um fraterno Abraço às Andarilhas, mostrando, com esse acto o quanto são necessárias à autoestima dos bejenses. Porque o seu prestígio não se confina apenas às fronteiras deste nosso pequeno rectângulo, estendendo-se a várias partes do mundo ( talvez não seja por acaso que a edição deste ano é apoiada pela organização do Ano do Brasil em Portugal ), numa prova da sua qualidade.
E é por tudo isto que, no final deste mês, num novo espaço central – o Jardim Público – mais uma vez todos os caminhos vão dar a Beja. Vamos, pois, andarilhar e, quem sabe, estrelinhar numa noite quente, embalados pelos contos que, como os seus mentores dizem, acontecem “…  Porque acreditamos no contributo da palavra, da literatura, da arte em geral para a formação do Homem Novo….”.
3 Agosto







Memória 1

Memória 2



domingo, 29 de julho de 2012

A família Victoria – raízes alentejanas no sul do Brasil.


Nos países com uma história mais recente, fruto da colonização de povos oriundos de várias partes do mundo ( como é o caso, por exemplo, dos Estados Unidos e do Brasil ), existe, por parte dos seus habitantes, uma grande vontade em conhecer as suas raízes. Este fenómeno é menos comum nos países como Portugal, com uma história mais longa, e em cujo território se estabeleceram povos tão diversos como os romanos, os visigodos ou os muçulmanos.
A não ser alguns descendentes de famílias nobres, dificilmente qualquer português conseguirá ir muito longe na sua genealogia, isto se conseguir encontrar os registos paroquiais dos seus antepassados mais remotos.
Há algum tempo, numa pesquisa efectuada na internet, tive conhecimento da existência de um blogue intitulado “Família Victoria” ( http://familiavictoria.blogspot.pt/ ), da autoria de um cidadão brasileiro, Arthur Victoria da Silva, natural e residente no Rio Grande do Sul, o estado mais meridional do Brasil.
Neste blogue, como o nome indica, procura-se reconstituir a família Victoria, desde a sua origem, até à actualidade, reconstituição essa acompanhada por vários episódios marcantes ao longo dos quase 230 anos da sua existência.
De facto, segundo informações recolhidas por Arthur Victoria, a família teve origem no casamento, em 1783, na localidade do Estreito, nesse estado, de Francisco José de Santa Victoria com Ana Joaquina de Jesus.
A noiva era descendente de açorianos, o que não é de estranhar, visto serem originários dessas ilhas atlânticas muitos dos povoadores dessa parte do Brasil, sobretudo na segunda metade do século XVIII. Há quem até considere os açorianos como o povo mais importante na colonização do Rio Grande do Sul, e talvez não seja por acaso que um dos mais importantes prémios culturais desse estado, atribuído pela prefeitura da capital, Porto Alegre, tenha precisamente o nome de “Açorianos”.
Quanto ao noivo, de acordo com o que Arthur Victoria escreveu no seu blogue “… deve ter sido militar que lutou contra os espanhóis [guerras pelo controle de territórios nas actuais fronteiras do Brasil e do Uruguai] e resolveu estabelecer-se no Estreito”. O mais curioso, no entanto, é a sua origem. Citando de novo o blogue, “Francisco José de Santa Victoria, conforme registros de nascimentos de seus herdeiros, era nascido na Freguesia de Santa Victoria, em Beja, Portugal”, vindo daí o apelido que iria dar origem à família.
Família que, diga-se em abono da verdade, foi bastante numerosa, começando neste casal, que teve 10 filhos que, por sua vez, vieram igualmente a reproduzir-se também em quantidades apreciáveis. Ainda que hoje haja descendentes dessa família espalhados em várias partes do Brasil, a grande maioria radicou-se em localidades gaúchas, nomeadamente em Capão do Leão, município com cerca de vinte e cinco mil habitantes, “emancipado” há apenas trinta anos da cidade vizinha de Pelotas. Um dos membros da família – Getúlio Victoria – exerceu por duas vezes as funções de prefeito desse município, em 1985 e em 1993.
Para completar o puzzle, faltava apenas a confirmação da data (que se presume ser 1756) e o local do nascimento do alentejano que deu origem a esta família, o que me foi solicitado por Arthur Victoria.
Só que, infelizmente, nem no Arquivo Distrital de Beja, nem no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, se encontram os livros dos registos paroquiais de 1731 a 1771. Existe um hiato, não se podendo comprovar os registos de nascimentos, casamentos e óbitos da freguesia de Santa Vitória nesse período.
Ficou, assim, por provar, a verdadeira origem de Francisco José, o que não invalida a hipótese da existência de raízes alentejanas na família Victoria, fundada no século XVIII, no estado brasileiro do Rio Grande do Sul e que, periodicamente, se reúne para confraternizar.
27 Julho





Encontro dos Victoria, em 15 de Abril de 2010 / fotos de Idylio Roberto :




sexta-feira, 6 de julho de 2012

Triste espectáculo.


No programa de História do 7º Ano de Escolaridade, os alunos estudam a democracia em Atenas, no século V aC. Democracia imperfeita, é certo (assente numa sociedade esclavagista e com as mulheres com um papel secundário – que Chico Buarque tão bem retratou na canção “Mulheres de Atenas”), mas que leva os jovens estudantes a descobrir, não só o seu significado (poder do povo), mas também o da palavra política – governo da polis/cidade estado).
E é na transposição desses conceitos para a história contemporânea do nosso país que, invariavelmente, este último conceito surge associado, nas palavras dos alunos, a um conjunto de práticas nada abonatórias para os políticos – aqueles que se dedicam a essa tão nobre quanto desacreditada função. E vêm à baila frases como “são todos iguais”, “só querem é encher-se”, “criam tachos para familiares e amigos”, etc.
Não é fácil desmontar tais preconceitos, reproduzidos pela opinião pública, alimentados por uma certa comunicação social e, pior do que isso, fomentada por práticas de políticos que, escudados pelo exercício de cargos públicos, dão esses maus exemplos que, injustamente, acabam por atingir aqueles que têm uma conduta séria e irrepreensível, enquanto eleitos pelo povo que representam.
Associada a essas práticas menos sérias (e até, em alguns casos, ilegais), existe ainda a ideia de uma certa impunidade, quer pela inexistência de uma débil opinião pública, que se mostra incapaz de uma censura que leve ao afastamento de quem as executa, quer pela sensação de que a própria justiça se mostra impotente para condenar as ilegalidades cometidas.
É claro que o surgimento de casos e nomes na comunicação social, não significa, necessariamente, crime e castigo, mas não podemos ignorar que situações como BPN, Freeport, submarinos, Face Oculta, associados a políticos como Dias Loureiro, Sócrates, Duarte Lima, Armando Vara, Isaltino Morais, entre outros, deixam no ar a suspeita de uma certa promiscuidade entre negócios e política, alicerçada no facto de alguns desses nomes, sendo originários de famílias modestas, em poucos anos atingiram patamares de riqueza incompatíveis com os vencimentos auferidos nos cargos políticos exercidos.
Perante essas situações, a resposta dos órgãos judiciais tem revelado uma incapacidade confrangedora, o que leva as pessoas a concluírem que há dois pesos e duas medidas, quando se trata de aplicar a justiça. Pior do que isso, fica a sensação de que os que exercem esses órgãos, nomeadamente os mais elevados – Procurador Geral da República e Presidente do Supremo Tribunal de Justiça  - tomaram partido, deixando de lado a imparcialidade exigida. Já para não falar das famosas prescrições, que acabam por ilibar “na secretaria” aqueles que já tinham sido condenados por crimes comprovados.
Não bastavam estas desconfianças, eis que surgem também notícias sobre ligações perigosas entre os serviços secretos (que deveriam estar acima de quaisquer suspeitas), política, negócios e sociedades secretas, que não abonam nada a favor da credibilidade dessas entidades.
Perante este rosário de situações nada democráticas, casos como o das habilitações académicas aparentemente forjadas – ontem Sócrates, hoje Relvas, amanhã logo se verá – surgem quase como “normais”, justificadas por uma certa ideia muito divulgada de que os “espertos” são os que triunfam, elevando ao topo a teoria do mérito do “chico-espertismo”, tão do agrado de certas mentes ultra liberais.
Enquanto isso, alguns persistem em atirar-nos areia para os olhos, pensando que engoliremos sem reagir todas as suas mistificações. Só assim se percebem as afirmações de Carlos Zorrinho, ao elogiar o “sentido de responsabilidade” do deputado Ricardo Rodrigues, que se demitiu da direcção do grupo parlamentar do PS, na sequência da condenação pelo furto dos gravadores dos jornalistas da revista Sábado.
Como se esse “sentido de responsabilidade” não fosse inerente a quem é eleito, quer para deputado, para presidente de junta de freguesia ou para presidente da república e fosse preciso esperar por uma decisão judicial para se tomar uma posição que, perante tão degradante episódio, há muito deveria ter sido tomada.
São todos estes (maus) exemplos que levam os jovens alunos de 12/13 anos a achar a política como um espectáculo, abrilhantado em períodos eleitorais por festas, com a participação especial de emigrantes africanos e orientais, para encher plateias e com a participação de actores cuja principal função é debitar promessas, por vezes com novidades como a referência a “pilares”, não de betão mas de esferovite, que caem mal o vento sopra um pouco mais forte.
Felizmente que a política não é apenas feita deste (triste) espectáculo e que muitos homens e mulheres continuam a servir a democracia recuperada com o 25 de Abril, em defesa dos seus ideais e dos seus princípios, independentemente das cores partidárias que vestem, em nome do povo que os elegeu.
Afinal, não foi isso que nos ensinou Péricles há 2500 anos?
6 Julho




É só mudar o escudo e a legenda e temos uma boa imagem a ilustrar o texto

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Defender a Região – unidade e coerência nas posições.


No passado dia 21 de Maio, nove entidades da nossa região (Associação de Municípios, Instituto Politécnico, Turismo do Alentejo, as associações de empresários, comerciantes e agricultores, entre outros), reuniram-se com um objectivo bem definido : defender o Aeroporto de Beja, como complemento ao de Lisboa, a chamada “solução Portela + 1”, de que se tem falado ultimamente. Essa defesa foi, nomeadamente, expressa num documento entregue ao primeiro-ministro.
Uma boa notícia, sem dúvida, quando essas entidades, representadas por pessoas com posições e interesses diferentes, se unem em torno de uma causa comum, a defesa de um equipamento que tão atacado e denegrido tem sido.
Este exemplo é, no entanto, uma excepção à regra que, infelizmente, tem vigorado quando se trata de lutar pelos direitos das populações do nosso território. É que são muitos os exemplos que exigiam a unidade e não a divisão, deixando de lado o acessório e privilegiando o essencial.
Basta olhar à nossa volta e deparamo-nos com uma espécie de “síndroma dos 50 (ou 60, ou 70)”: faltarão cerca de 50 km para nos ligarmos à A2, cerca de 60 de linha férrea electrificada, até Casa Branca, cerca de 70, para concluir a ligação ao Algarve, via IC 27, ou ainda os 60 da “esquecida” EN 260, até à fronteira de Ficalho. Estamos a falar, é claro, de ligações rodo/ferroviárias a partir de Beja, mas outros muitos outros exemplos existem, no distrito e na região, nessa e noutras áreas, que exigem essa unidade, sem complexos nem preconceitos, sobretudo os de natureza político-partidária.
Tal como o fizeram os seus colegas de Coimbra, Lousã e Miranda do Corvo, que se juntaram ao movimento cívico que reivindica o metro do Mondego, para substituir o desactivado ramal da Lousã, também seria muito bom vermos os autarcas de Beja, Cuba, Alvito, Viana do Alentejo, Vendas Novas, unidos, ao lado dos cidadãos que lutam pelas ligações directas a Lisboa, por comboio; ou os de Beja, Mértola, Alcoutim, Castro Marim e Vila Real, lutando por um IC 27, amputado há muitos anos e que tarda em avançar para além dos 40 km já construídos; ou ainda os de Beja, Ferreira, Grândola, Alcácer, Santiago e Sines, juntos pela A26, que tão tarde arrancou e que vai parando e avançando aos soluços.
É claro que estes são apenas alguns exemplos, que não são exclusivo dos actuais executivos municipais, mas que reflectem aquilo que atrás foi escrito: quando se trata de defender os interesses das populações, as cores partidárias devem ficar de lado, para que se fale a uma só voz, perante os poderes instalados na centralista e macrocéfala Lisboa (sejam eles de que partido forem).
Finalmente, tão importante como a acção intermunicipal, deve ser a actuação dos políticos locais e regionais (autarcas e deputados), perante esses poderes lisboetas. E aí, infelizmente, temos assistido a maus exemplos, protagonizados por eleitos que mudam de posição, consoante o seu partido está ou não no poder. Falamos, é claro, dos partidos do chamado “arco do poder”, PS e PSD e, nada melhor para ilustrar estas mudanças, do que a luta pela electrificação da linha férrea e pelo Intercidades Beja-Lisboa, e as posições tomadas ao longo dos meses por esses políticos.
Daria, certamente, para uma ou duas crónicas de jornal, mas, para exemplo, refiro apenas a errática (e oportunista) postura do actual presidente da câmara de Beja, bem documentada em vários suportes mediáticos – rádios, tvs, jornais, internet, etc.
Começou por aceitar e defender a proposta da CP, que previa a solução do transbordo em Casa Branca, induzindo em erro, mais tarde, a população de Beja, ao escrever no boletim municipal que iria haver cinco intercidades diários. Quando surgiu o movimento dos cidadãos (mais tarde, o Beja Merece), a sua primeira posição foi desvalorizá-lo (no dia 19 de Janeiro de 2011, em entrevista ao Jornal da Tarde da RTP), tratando esse assunto como algo de um qualquer “movimento”, em vez de lhe exprimir o seu apoio.
Esse “apoio”  (ou colagem) só chegou uma semana depois, quando os cidadãos de Beja se manifestaram pela primeira vez no largo da estação (o famoso “assalto à estação ferroviária”). Com cerca de 500 pessoas presentes, claro que o presidente da câmara não podia “perder o comboio” e deixar de aparecer na primeira linha da luta.
Finalmente, para terminar esta novela trágico-cómica, não faltou o recado paternalista, deixado numa entrevista a um jornal local (14 Outubro 2011), em jeito de reprimenda a um grupo de irresponsáveis que estavam a afastar os investidores, com a sua luta “contra o fim dos comboios” (coisa que só pela sua cabeça deve ter passado).
Para concluir, apetece apenas dizer: “apoios” desses, não obrigado.
8 Junho



Um dos cinco "intercidades"  a que JPV se referiu

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Nos 80 anos do Diário do Alentejo:Um conto juvenil ( "A Moda" - 23 Dezembro 1973)


Na minha infância e juventude, dois dos meus locais preferidos (entre outros), na aldeia onde nasci e onde vivia, eram a Biblioteca Itinerante nº 18, da Gulbenkian, que ali se deslocava uma vez por mês e a Casa do Povo, que ficava mesmo em frente à escola primária que frequentei durante três anos (o primeiro foi na escola da estação).

À biblioteca ia buscar os livros que o senhor Alberto (Veríssimo) me incentivava a levar (e eram alguns, todos os meses). À Casa do Povo ia ler as publicações que aí chegavam e, de entre todas, duas preferia: a revista semanal Flama e o Diário do Alentejo. Este último tem acompanhado toda a minha vida. Logo que pude, tornei-me seu assinante, o que acontece até hoje.
O Diário do Alentejo sempre se distinguiu da restante imprensa da chamada “província”. Antes do 25 de Abril fazia parte de um reduzido leque de jornais (como o Notícias da Amadora, o Jornal do Fundão ou o Comércio do Funchal), que ousava enfrentar a censura e a ditadura. Além disso, os seus conteúdos escapavam ao banal registo de casamentos, formaturas e outros eventos locais e, tal como ainda hoje, distinguia-se também por ser um projeto profissional, feito por profissionais.
Foi, por isso, muito por “culpa” do DA que ganhei o gosto (que ainda mantenho) pela leitura (e pela escrita).
Espicaçado por uma professora de Português, colaborei, durante dois anos no suplemento juvenil do jornal Época (que também chegava a Santa Vitória). Experiência que terminou no dia em que soube que esse jornal pertencia ao partido único, a Acção Nacional Popular, sucessor da União Nacional, de Salazar.
Estávamos em 1973, tinha quinze anos e começara a frequentar o 6º ano do Liceu de Beja. Um dia, em Outubro ou Novembro, entrei timidamente na redação do Diário do Alentejo, instalada na Praça da República, no mesmo prédio da livraria e da gráfica que o imprimia.
Lá estavam o José Moedas e o Manuel Sousa Tavares, de quem admirava os seus escritos. E o diretor, Melo Garrido, a quem me dirigi, falando-lhe do meu gosto pelos jornais, da intenção de ser jornalista e de como gostaria de ver publicado no Diário do Alentejo algo da minha autoria.
Melo Garrido disse-me, então, para lhe enviar um texto, para ele analisar e decidir sobre a sua publicação. Assim fiz e, no dia 23 de Dezembro desse ano, era publicado um conto com o título “A Moda”.
Como forma de homenagear os 80 anos do Diário do Alentejo e todos os profissionais que por ele têm passado, é esse conto que agora volto a publicar. Quase quarenta depois, à exceção da guerra colonial, que nele estava presente, mantém uma atualidade que a todos nos deve inquietar e interrogar.
A Moda
Depois de um copo e de uma palmada nas costas, começou a moda. Era o melhor alto da aldeia. Do Alentejo. Até já cantara na rádio. Com o grupo da Casa do Povo.
Nesse dia, houve feriado na aldeia. Todos quiseram ouvir cantar os da moda. Entre estes, Tóino, o melhor alto de Portugal.
O Tóino era um tipo com sorte…
Sorte malvada, dizia ele. Até já lhe morrera um moço na tropa e agora já lá estava outro.
Há anos, ouvindo falar nos que estavam além fronteira, viu-se na mesma situação que eles: um bom carro, um bom par de notas no banco e uma boa vida. Isto, diziam eles, os emigrantes, quando escreviam às mulheres. Os filhos brincavam na lama… Mas que importa isso?
“Tou-me lixando para isto” – disse o Tóino, um dia. Um homem é um homem. Iria para a França. Veriam, então, quem era ele.
Pediu emprestados os oitos contos para o gajo que os passaria. A ele e a mais três da aldeia. Partiram numa noite chuvosa.
“Não chores, mulher” – disse ele à partida – “Verás quem é rico daqui a uns meses”. Beijou os filhos e montou-se no automóvel.
Andou com água pelo pescoço. Viu as pontas das carabinas dos guardas. Mas chegou. São (?) e salvo (?)
De repente viu-se sozinho em Paris. O passador, logo que chegou à capital francesa, deixou-os à mercê da sorte.
Chorou. Como nunca antes o fizera. Nem no enterro do filho que morrera na tropa. Andou aos pontapés. Passou fome. Roubou.
Voltou meses depois. Sem “massa”. Dizendo “merci”, debaixo do qual escondia a miséria. Passou a embriagar-se todas as noites. Depois dava pancada na mulher, som o choro dos filhos.
Não queria trabalhar. Os ricos que o fizessem. Nele, já ninguém punha as mãos em cima.
Esteve na cadeia por roubo. Saiu um mês depois. Roto. Sujo.
Agora, canta a moda na taberna. Reles. Miserável.
Mas isso que interessa?
Não é ele o melhor alto do mundo?
1 Junho




Casa do Povo - onde conheci e comecei a gostar do Diário do Alentejo
( um jornal que é Património Cultural da Região )

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Bernardo e Beatriz.


Ao longo dos quase quinze anos em que trabalhei na área da Cultura da Câmara Municipal de Beja, e em particular nos últimos cinco e meio, na programação do Pax Julia, uma das coisas que mais me agradava era o contacto que tinha com os artistas (da música, do teatro, da dança) que aqui se deslocavam para apresentar os seus trabalhos.
Esse conhecimento, rico do ponto de vista pessoal e profissional, serviu também para comprovar algo que, não existindo apenas do sector das Artes, se aplica neste, de uma forma bem visível : com algumas excepções, é claro, os melhores distinguem-se dos outros, não só pelas suas qualidades artísticas, mas, sobretudo, pelas suas qualidades humanas. Em vez da distância, cultivam a simpatia e a proximidade, no lugar da arrogância, a simplicidade de quem sabe que é o talento que conquista o público e não essas posturas de pseudo vedetas.
Conheci, assim, o Bernardo (Sasseti) e a Beatriz (Batarda), artistas dos melhores nas suas áreas (música e teatro/cinema) e que, nas horas que partilhavam connosco no Teatro (nos ensaios e nos momentos de descompressão após os espectáculos), demonstravam as suas intrínsecas qualidades humanas.
A Beatriz esteve por duas vezes no Pax Julia. Na primeira, interpretou um monólogo – “De homem para homem” –, a 17 de Junho de 2009,  no 4º aniversário da reabertura desse espaço. Um texto forte, uma interpretação arrebatadora, de uma grande entrega, que deixou a todos, actriz e público, sem fôlego. Em Julho de 2010, não estando presente fisicamente, deixava essa sua marca, como encenadora da peça “Olá e Adeusinho”.
O Bernardo visitou-nos três vezes. A primeira em Maio de 2008, a solo, num espectáculo integrado no InJazz, festival descentralizado por várias localidades. A segunda, em Fevereiro de 2011, com o Trio a quem dava o nome, composto ainda por outros dois excelentes músicos, o Carlos Barreto e o Alexandre Frazão. Estes dois espectáculos tiveram em comum duas outras das paixões do Bernardo, a fotografia e o cinema, já que ambos incluíram fotos suas, incluídas em apresentação multimédia e em curtas metragens.
A terceira apresentação deu-se ainda não há uma ano, em Junho de 2011. Tal como na segunda, já eu não trabalhava no Pax Julia, ainda que tivesse programado ambas (a terceira foi mesmo o último espectáculo que programei).
Nesta última, o Bernardo compôs e interpretou as músicas que acompanharam as coreografias dos mais importantes nomes da dança nacional, como Olga Roriz, Rui Horta ou Paulo Ribeiro. Tratou-se de uma produção da Companhia Nacional de Bailado, com o título “Uma coisa em forma de assim”, onde foi possível assistir de novo ao seu grande virtuosismo, através de músicas criadas para estilos bem diferentes, para um, dois ou vários bailarinos. Ficou na memória de todos a que assistiram, o “diálogo” entre o pianista e dois bailarinos que, invadindo o seu espaço, fizeram do piano o seu palco, numa magnífica fusão de corpos e sons.
 Foi apenas quando esteve em Beja o Bernardo Sasseti Trio que soube que era casado com a Beatriz, já que esta e as duas filhas de ambos o acompanharam na sua deslocação à nossa cidade.
E foi também no final desse espectáculo, quando conversávamos sobre vários temas, desde a reacção dos espectadores, aos momentos menos bons que a Cultura já nessa altura atravessava, que o Bernardo disse algo que me (nos) deixou atónitos e satisfeitos: que gostava muito de actuar no Pax Julia, onde era sempre bem acolhido, pelos profissionais e pelo público, tendo este uma postura de atenção, respeito e afecto que lhe agradava, e que, graças a isso e às excelentes condições acústicas do espaço, talvez um dia viesse aqui gravar um disco a solo.
Não sei se, com tantos projectos em que estava sempre envolvido, o Bernardo se iria lembrar dessas palavras e se o tal disco não passaria apenas de mais um momento de entusiasmo tão próprio dele. Sei é que, numa sexta feira, à hora do almoço, a notícia chegou pela tv. Notícia cruel, bruta, estúpida: o Bernardo não gravaria mais, nem esse nem outros discos, não viria uma quarta vez ao Pax, não encantaria os bejenses com os acordes que saíam, qual passe de magia, das suas mãos únicas, a Beatriz e as filhas não o acompanhariam mais, alegrando os seus momentos, antes e após os espectáculos. O Bernardo partira.
Em memória do Bernardo.
Em solidariedade com a Beatriz.
18 Maio






Bernardo : http://www.youtube.com/watch?v=TG8eYgmUfp0
Beatriz : http://www.youtube.com/watch?v=q7swB5I0VRA

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Opções políticas.

O apagão analógico verificado no dia 26 de Abril permitiu, com a ligação à TDT, tirar algumas conclusões e retomar o visionamento dos canais espanhóis, dada a nossa proximidade geográfica a esse país.
A conclusão mais evidente é a apagada e vil tristeza da oferta nacional (os quatro canais de sinal aberto), comparada com a multiplicidade de canais dos nossos vizinhos (dez canais nacionais, um de notícias, vários temáticos – música, natureza, infantil – e, sobretudo, os regionais (Canal Sur e Canal Extremadura). Isto, no que respeita à televisão, já que depois existe uma variedade de canais de rádio também apreciável.
A segunda conclusão que se retira, é o importante serviço público prestado pelos canais regionais, que são fruto, em grande medida da autonomia política que aqui ao lado se verifica. Do Canal Sur (que tem no ar três canais), não falemos, dada a dimensão da grande Andaluzia, com os seus mais de oito milhões de habitantes e a sua importante rede urbana, que a colocam como uma das mais importantes regiões de Espanha.
Falemos, sim, do Canal Extremadura, porta-voz para o mundo de uma pequena, pobre e ultraperiférica região há uns anos e que, graças precisamente à autonomia, obtida em 1983, deixou esse estatuto, para se transformar num território de progresso, respeitado dentro e fora das fronteiras de Espanha.
Para além do entretenimento próprio da televisão, esse canal aproxima e une os extremenhos, com os seus programas sobre a região, que vão das touradas ao desporto (transmitem-se jogos dos clubes regionais, das 3ª e 2ª divisões), passando pelo património natural e cultural e pelas notícias (da política, da sociedade, dos mais pequenos burgos às suas cidades).
E foi num desse programas de notícias que, no passado domingo, fiquei impressionado com a beleza exterior e a brancura e luminosidade interiores do Parlamento dessa região, sedeado em Mérida, no antigo Hospital de São João de Deus (o hospital dos pobres), construído no século XVIII e recuperado para acolher essa instituição política.
Falava-se da inauguração da exposição de um importante escultor emeritense e das obras de arte que ocupam os espaços desse edifício, tornando-o num verdadeiro museu de arte. É prática corrente a realização de exposições no Parlamento da Extremadura, bem como a aquisição e/ou doação de obras dos artistas convidados.
Depois de ver e ouvir essa reportagem, não deixei de pensar no estado de abandono e desleixo em que se encontram alguns dos edifícios mais significativos da nossa cidade, comparando-os com a dignidade desse e de outros aqui bem perto: há uns anos, numas férias de verão, desloquei-me propositadamente a Málaga, para ver o Museu Picasso que, não tendo a dimensão nem o espólio dos seus congéneres de Paris ou de Barcelona, se situa num edifício do século XVI, alvo de uma recuperação exemplar, já premiada internacionalmente.
Falo no edifício do Governo Civil, com as suas deficientes condições, quer para os utentes dos vários serviços que aí se concentram, quer para os trabalhadores desses serviços; falo do Museu Regional e do lamentável estado a que vai chegando, fruto de posturas e decisões que têm condenado à degradação esse magnífico edifício e o seu recheio; falo, finalmente (e numa escala menor, é claro), da imagem de abandono do exterior da Biblioteca Municipal, onde o branco das suas paredes há muito se transformou em cinzento, nada compatível com o excelente trabalho que os seus funcionários aí continuam a desenvolver.
São situações diferentes, mas que contrastam com os exemplos de que falei e com muitos outros. Fruto, como dizia Carreira Marques, numa entrevista na semana passada, sobre o estado do Museu, de opções políticas, que colocam em causa um entendimento entre os municípios, com cerca de trinta anos, que atribui ao Município de Beja o pagamento de 60% dos seus custos de funcionamento (reduzido, em 2012, para 48%).
Outras fossem as opções e os milhares de euros gastos em 2011 em eventos efémeros de alguns dias (Beja Wine Night ou Beja Brava, por exemplo) poderiam ser canalizados para a Assembleia Distrital, não se atingindo, nesse ano, a dívida de 95 mil euros e não deixando chegar esse importante equipamento cultural regional e nacional ao estado a que chegou.
Afinal, a Lei dos Compromissos é bem recente e não pode servir de desculpa para tudo. 

 11 Maio  



Beja - Museu Regional
Mérida - Parlamento da Extremadura