Passam, na próxima segunda-feira, dia 29, nove anos sobre uma grande concentração de cidadãos nas escadarias do largo dos Duques, dois meses depois de terem recebido o então Presidente Marcelo Rebelo de Sousa à entrada do parque de feiras, onde iria visitar a Ovibeja. Em ambas, as mesmas reivindicações, expressas nos cartazes e na música de Zeca Serrano, gravada em vídeo nessa memorável concentração: “Beja merece um comboio, um avião/ Uma estrada, pois então”.
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| Beja, 29 de Junho de 2017. Foto: João Espinho |
A luta pelo “comboio” iniciara-se em janeiro de 2011, quando a CP anunciou o que já se pressentia há algum tempo: que Beja não iria voltar a ter ligações ferroviárias diretas, como acontecera entre 2004 e 2010, mas, sim, uma ligação com um novo transbordo, desta vez na estação de Casa Branca. Assim, desde 24 de julho de 2011, quando reabriu a linha, após a eletrificação do troço Bombel (Vendas Novas)-Évora, até hoje, todos os passageiros de e para as estações de Beja, Cuba, Alvito, Vila Nova da Baronia e Alcáçovas têm sofrido as mais duras provações em algumas viagens surreais.
Contra essa situação os bejenses (e não só) têm lutado, das mais variadas formas: ações de rua, reuniões com deputados, membros do Governo e outras entidades (incluindo uma deslocação ao Parlamento Europeu, em novembro de 2019), artigos e entrevistas na comunicação social regional e nacional, entre outras.
Em 16 de fevereiro de 2011 uma delegação do movimento de cidadãos entregou a Jaime Gama, então presidente da Assembleia da República, uma petição assinada por 15 071 cidadãos que tinha três exigências: “(…) que sejam restabelecidas as ligações diretas intercidades de Beja a Lisboa, assim como a eletrificação da linha de caminhos de ferro até Casa Branca e a continuidade da ligação com o Algarve, através do ramal da Funcheira”. Este terceiro ponto baseava-se em rumores que corriam e que se concretizaram no final desse ano, com a ligação Beja-Funcheira suprimida pela CP a partir de 1 de janeiro de 2012.
Nenhuma das três exigências foi, até ao momento, conseguida, em minha opinião, por dois motivos principais: pela falta de vontade política dos vários governos nacionais e pela débil e desligada ação de eleitos locais e regionais, nomeadamente, autarcas e deputados.
Muito já foi dito e escrito sobre este passado. Eu próprio, quer nas páginas do “Diário do Alentejo”, nas publicações no meu blogue (notasaesquerda.blogspot. com/) ou nas redes sociais, em especial no Facebook, mas também em intervenções (enquanto “público”) na Assembleia Municipal de Beja, tenho exercido a minha atividade de cidadania, com denúncias, mas também com propostas e apelos aos eleitos locais.
Deixemos o passado e falemos, então, do futuro.
No dia 17 de dezembro do ano passado chegou, finalmente (com quase 15 anos de atraso), o primeiro dos 12 comboios bimodo encomendados à empresa suíça Stdler. Eram os comboios que tínhamos proposto nas reuniões realizadas em março e julho de 2011 com os secretários de Estado dos governos de José Sócrates e de Passos Coelho, respetivamente: a diesel até Casa Branca e elétricos de Casa Branca a Lisboa, de modo a manter as ligações diretas. Essas propostas foram, então, recusadas, com o argumento de que a CP não dispunha de composições desse tipo.
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| Composição bimodo. Foto: CP. |
O anúncio por Luís Montenegro, por ocasião do Conselho de Ministros realizado aquando da última Ovibeja, de que no primeiro trimestre de 2027 chegariam a Beja três desses comboios bimodo, trouxe, no entanto, um novo motivo de preocupação, expresso num trabalho do “Diário do Alentejo” (“DA”) do passado dia 8 de maio: “Questionado quanto à possibilidade de as novas automotoras, pelo facto de serem bimodo, poderem assegurar a viagem direta entre Beja e Lisboa, o parlamentar [deputado Gonçalo Valente e Henrique, do PSD] frisa que, segundo informações de que dispõe, as composições destinam-se somente a fazer o troço Casa Branca-Beja, mantendo-se, assim, a necessidade de fazer transbordo em Casa Branca”.
Essa afirmação é contrariada, no mesmo artigo do “DA”, por declarações da ministra Maria da Graça Carvalho: “Com as novas automotoras bimodo (com a combinação elétrico e diesel) passará a ser tecnicamente possível circular com a mesma automotora entre Lisboa e Beja”.
Para aumentar a confusão, na mesma altura em que anunciou a vinda das três automotoras, o primeiro-ministro fez uma outra declaração, no mínimo redundante (e que mostra uma certa ignorância sobre qual as funções dos comboios bimodo): “(…) são composições que estão preparadas para poder operar enquanto não há eletrificação [da linha do Alentejo] e depois de haver a concretização da eletrificação”. Para trabalhar a diesel antes da linha eletrificada e a eletricidade após a eletrificação da linha? Não será um disparate (e um desperdício) usar este tipo de comboios de uma forma tão limitada?
Perante estas contradições que têm levantado dúvidas legítimas, importa manter toda a atenção, de modo a que, mais uma vez, os bejenses não vejam os seus desejos (e direitos) defraudados e continuem os indesejados transbordos em Casa Branca, mesmo após a chegada dessas três composições. Entretanto, outra decisão do Governo veio levantar novas interrogações. No passado dia 20 de maio foi publicada em “Diário da República” a Resolução do Conselho de Ministros n.º 85/2026, que “Autoriza a Infraestruturas de Portugal, S. A., a realizar despesa e a proceder à repartição dos encargos plurianuais para a concretização global do empreendimento ‘Linha do Alentejo:
Modernização Casa Branca-Beja’”, no valor total de 410 mil euros mais IVA, repartidos por sete anos, entre 2027 e 2033.
O que, à partida, seria uma boa notícia, cumprindo (mais uma vez com atraso) a segunda das reivindicações da atrás referida petição, coloca novas questões.
Desde logo, como referiu o investigador da Universidade do Algarve Manuel Tão (que esteve presente num colóquio/debate organizado pelo movimento dos cidadãos, na biblioteca de Beja, no dia 10 de fevereiro de 2011), na última edição do “Diário do Alentejo”, o tempo previsto para a obra é excessivo: “Sete anos para intervencionar 62 quilómetros, desde Casa Branca a Beja, num terreno que não tem qualquer tipo de dificuldade orográfica, numa obra que não tem túneis, não tem grandes viadutos? Parece-me que há aí, nitidamente, uma falta de vontade política de resolver o problema”. O mesmo especialista defende, aliás, como sempre o fez, que “(…) a linha do Alentejo já devia estar toda requalificada, desde Casa Branca até Ourique”.
Para além do tempo excessivo, são ameaças os constantes atrasos nas obras em curso, integradas no programa Ferrovia 2020, ele próprio bastante atrasado. Segundo a Autoridade de Mobilidade e dos Transportes, em dezembro de 2024, “o Plano Ferrovia 2020, que se iniciou em 2015 e que tinha previsão de conclusão no 4.º trimestre de 2021, com a conclusão das obras na linha de Cascais e no itinerário Aveiro-Mangualde, que, entretanto, foi retirado, apresentava a previsão de ficar completamente concluído no 3.º trimestre de 2028, ou seja, com um atraso, no mínimo, de cerca de 7 anos”.
Exemplo de obras de eletrificação atrasadas são as da linha do Algarve (conclusão prevista para outubro de 2023, mas ainda a não funcionar), do Oeste (conclusão prevista para 2022, mas agora apontada para 2028) e do Douro (iniciada apenas em 2025, com sete anos de atraso).
Finalmente, outra questão que se coloca: se e quando se iniciarem as obras de modernização e eletrificação da linha Beja-Casa Branca será que vão ser interrompidas as ligações ferroviárias, substituídas por autocarros? A acontecer isso e, caso se confirme o regresso das ligações diretas no próximo ano, com as automotoras bimodo, é mais uma machadada nas expetativas de todos aqueles que esperam há mais de 15 anos por um direito que lhes tem sido negado: poder viajar de Beja até Lisboa sem transbordos indesejados e desconfortáveis, como aconteceu durante 140 anos, de 1864 e 2004 (neste caso, no Barreiro).
Em minha opinião, deveria ser realizado um debate aberto sobre estes temas, com a presença de representantes dos órgãos políticos locais e regionais, entidades empresariais e sindicais, ensino superior, associações cívicas, comunicação social, entre outras e, claro, um representante do Governo (ministro Miguel Pinto Luz?), para que todas as dúvidas sejam desfeitas. É que, estando quase no final do primeiro semestre, 2027 está logo aí e, por isso, convém haver certezas sobre o futuro do comboio em Beja e na região.
Quem deveria convocar este debate? Em minha opinião, a Assembleia Municipal de Beja. Fica, pois, aqui e agora, lançado o desafio.
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| 26 Junho 2026 |



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