Arquivo Fotográfico do Diário do Alentejo

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Nos 80 anos do Diário do Alentejo:Um conto juvenil ( "A Moda" - 23 Dezembro 1973)


Na minha infância e juventude, dois dos meus locais preferidos (entre outros), na aldeia onde nasci e onde vivia, eram a Biblioteca Itinerante nº 18, da Gulbenkian, que ali se deslocava uma vez por mês e a Casa do Povo, que ficava mesmo em frente à escola primária que frequentei durante três anos (o primeiro foi na escola da estação).

À biblioteca ia buscar os livros que o senhor Alberto (Veríssimo) me incentivava a levar (e eram alguns, todos os meses). À Casa do Povo ia ler as publicações que aí chegavam e, de entre todas, duas preferia: a revista semanal Flama e o Diário do Alentejo. Este último tem acompanhado toda a minha vida. Logo que pude, tornei-me seu assinante, o que acontece até hoje.
O Diário do Alentejo sempre se distinguiu da restante imprensa da chamada “província”. Antes do 25 de Abril fazia parte de um reduzido leque de jornais (como o Notícias da Amadora, o Jornal do Fundão ou o Comércio do Funchal), que ousava enfrentar a censura e a ditadura. Além disso, os seus conteúdos escapavam ao banal registo de casamentos, formaturas e outros eventos locais e, tal como ainda hoje, distinguia-se também por ser um projeto profissional, feito por profissionais.
Foi, por isso, muito por “culpa” do DA que ganhei o gosto (que ainda mantenho) pela leitura (e pela escrita).
Espicaçado por uma professora de Português, colaborei, durante dois anos no suplemento juvenil do jornal Época (que também chegava a Santa Vitória). Experiência que terminou no dia em que soube que esse jornal pertencia ao partido único, a Acção Nacional Popular, sucessor da União Nacional, de Salazar.
Estávamos em 1973, tinha quinze anos e começara a frequentar o 6º ano do Liceu de Beja. Um dia, em Outubro ou Novembro, entrei timidamente na redação do Diário do Alentejo, instalada na Praça da República, no mesmo prédio da livraria e da gráfica que o imprimia.
Lá estavam o José Moedas e o Manuel Sousa Tavares, de quem admirava os seus escritos. E o diretor, Melo Garrido, a quem me dirigi, falando-lhe do meu gosto pelos jornais, da intenção de ser jornalista e de como gostaria de ver publicado no Diário do Alentejo algo da minha autoria.
Melo Garrido disse-me, então, para lhe enviar um texto, para ele analisar e decidir sobre a sua publicação. Assim fiz e, no dia 23 de Dezembro desse ano, era publicado um conto com o título “A Moda”.
Como forma de homenagear os 80 anos do Diário do Alentejo e todos os profissionais que por ele têm passado, é esse conto que agora volto a publicar. Quase quarenta depois, à exceção da guerra colonial, que nele estava presente, mantém uma atualidade que a todos nos deve inquietar e interrogar.
A Moda
Depois de um copo e de uma palmada nas costas, começou a moda. Era o melhor alto da aldeia. Do Alentejo. Até já cantara na rádio. Com o grupo da Casa do Povo.
Nesse dia, houve feriado na aldeia. Todos quiseram ouvir cantar os da moda. Entre estes, Tóino, o melhor alto de Portugal.
O Tóino era um tipo com sorte…
Sorte malvada, dizia ele. Até já lhe morrera um moço na tropa e agora já lá estava outro.
Há anos, ouvindo falar nos que estavam além fronteira, viu-se na mesma situação que eles: um bom carro, um bom par de notas no banco e uma boa vida. Isto, diziam eles, os emigrantes, quando escreviam às mulheres. Os filhos brincavam na lama… Mas que importa isso?
“Tou-me lixando para isto” – disse o Tóino, um dia. Um homem é um homem. Iria para a França. Veriam, então, quem era ele.
Pediu emprestados os oitos contos para o gajo que os passaria. A ele e a mais três da aldeia. Partiram numa noite chuvosa.
“Não chores, mulher” – disse ele à partida – “Verás quem é rico daqui a uns meses”. Beijou os filhos e montou-se no automóvel.
Andou com água pelo pescoço. Viu as pontas das carabinas dos guardas. Mas chegou. São (?) e salvo (?)
De repente viu-se sozinho em Paris. O passador, logo que chegou à capital francesa, deixou-os à mercê da sorte.
Chorou. Como nunca antes o fizera. Nem no enterro do filho que morrera na tropa. Andou aos pontapés. Passou fome. Roubou.
Voltou meses depois. Sem “massa”. Dizendo “merci”, debaixo do qual escondia a miséria. Passou a embriagar-se todas as noites. Depois dava pancada na mulher, som o choro dos filhos.
Não queria trabalhar. Os ricos que o fizessem. Nele, já ninguém punha as mãos em cima.
Esteve na cadeia por roubo. Saiu um mês depois. Roto. Sujo.
Agora, canta a moda na taberna. Reles. Miserável.
Mas isso que interessa?
Não é ele o melhor alto do mundo?
1 Junho




Casa do Povo - onde conheci e comecei a gostar do Diário do Alentejo
( um jornal que é Património Cultural da Região )

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Bernardo e Beatriz.


Ao longo dos quase quinze anos em que trabalhei na área da Cultura da Câmara Municipal de Beja, e em particular nos últimos cinco e meio, na programação do Pax Julia, uma das coisas que mais me agradava era o contacto que tinha com os artistas (da música, do teatro, da dança) que aqui se deslocavam para apresentar os seus trabalhos.
Esse conhecimento, rico do ponto de vista pessoal e profissional, serviu também para comprovar algo que, não existindo apenas do sector das Artes, se aplica neste, de uma forma bem visível : com algumas excepções, é claro, os melhores distinguem-se dos outros, não só pelas suas qualidades artísticas, mas, sobretudo, pelas suas qualidades humanas. Em vez da distância, cultivam a simpatia e a proximidade, no lugar da arrogância, a simplicidade de quem sabe que é o talento que conquista o público e não essas posturas de pseudo vedetas.
Conheci, assim, o Bernardo (Sasseti) e a Beatriz (Batarda), artistas dos melhores nas suas áreas (música e teatro/cinema) e que, nas horas que partilhavam connosco no Teatro (nos ensaios e nos momentos de descompressão após os espectáculos), demonstravam as suas intrínsecas qualidades humanas.
A Beatriz esteve por duas vezes no Pax Julia. Na primeira, interpretou um monólogo – “De homem para homem” –, a 17 de Junho de 2009,  no 4º aniversário da reabertura desse espaço. Um texto forte, uma interpretação arrebatadora, de uma grande entrega, que deixou a todos, actriz e público, sem fôlego. Em Julho de 2010, não estando presente fisicamente, deixava essa sua marca, como encenadora da peça “Olá e Adeusinho”.
O Bernardo visitou-nos três vezes. A primeira em Maio de 2008, a solo, num espectáculo integrado no InJazz, festival descentralizado por várias localidades. A segunda, em Fevereiro de 2011, com o Trio a quem dava o nome, composto ainda por outros dois excelentes músicos, o Carlos Barreto e o Alexandre Frazão. Estes dois espectáculos tiveram em comum duas outras das paixões do Bernardo, a fotografia e o cinema, já que ambos incluíram fotos suas, incluídas em apresentação multimédia e em curtas metragens.
A terceira apresentação deu-se ainda não há uma ano, em Junho de 2011. Tal como na segunda, já eu não trabalhava no Pax Julia, ainda que tivesse programado ambas (a terceira foi mesmo o último espectáculo que programei).
Nesta última, o Bernardo compôs e interpretou as músicas que acompanharam as coreografias dos mais importantes nomes da dança nacional, como Olga Roriz, Rui Horta ou Paulo Ribeiro. Tratou-se de uma produção da Companhia Nacional de Bailado, com o título “Uma coisa em forma de assim”, onde foi possível assistir de novo ao seu grande virtuosismo, através de músicas criadas para estilos bem diferentes, para um, dois ou vários bailarinos. Ficou na memória de todos a que assistiram, o “diálogo” entre o pianista e dois bailarinos que, invadindo o seu espaço, fizeram do piano o seu palco, numa magnífica fusão de corpos e sons.
 Foi apenas quando esteve em Beja o Bernardo Sasseti Trio que soube que era casado com a Beatriz, já que esta e as duas filhas de ambos o acompanharam na sua deslocação à nossa cidade.
E foi também no final desse espectáculo, quando conversávamos sobre vários temas, desde a reacção dos espectadores, aos momentos menos bons que a Cultura já nessa altura atravessava, que o Bernardo disse algo que me (nos) deixou atónitos e satisfeitos: que gostava muito de actuar no Pax Julia, onde era sempre bem acolhido, pelos profissionais e pelo público, tendo este uma postura de atenção, respeito e afecto que lhe agradava, e que, graças a isso e às excelentes condições acústicas do espaço, talvez um dia viesse aqui gravar um disco a solo.
Não sei se, com tantos projectos em que estava sempre envolvido, o Bernardo se iria lembrar dessas palavras e se o tal disco não passaria apenas de mais um momento de entusiasmo tão próprio dele. Sei é que, numa sexta feira, à hora do almoço, a notícia chegou pela tv. Notícia cruel, bruta, estúpida: o Bernardo não gravaria mais, nem esse nem outros discos, não viria uma quarta vez ao Pax, não encantaria os bejenses com os acordes que saíam, qual passe de magia, das suas mãos únicas, a Beatriz e as filhas não o acompanhariam mais, alegrando os seus momentos, antes e após os espectáculos. O Bernardo partira.
Em memória do Bernardo.
Em solidariedade com a Beatriz.
18 Maio






Bernardo : http://www.youtube.com/watch?v=TG8eYgmUfp0
Beatriz : http://www.youtube.com/watch?v=q7swB5I0VRA

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Opções políticas.

O apagão analógico verificado no dia 26 de Abril permitiu, com a ligação à TDT, tirar algumas conclusões e retomar o visionamento dos canais espanhóis, dada a nossa proximidade geográfica a esse país.
A conclusão mais evidente é a apagada e vil tristeza da oferta nacional (os quatro canais de sinal aberto), comparada com a multiplicidade de canais dos nossos vizinhos (dez canais nacionais, um de notícias, vários temáticos – música, natureza, infantil – e, sobretudo, os regionais (Canal Sur e Canal Extremadura). Isto, no que respeita à televisão, já que depois existe uma variedade de canais de rádio também apreciável.
A segunda conclusão que se retira, é o importante serviço público prestado pelos canais regionais, que são fruto, em grande medida da autonomia política que aqui ao lado se verifica. Do Canal Sur (que tem no ar três canais), não falemos, dada a dimensão da grande Andaluzia, com os seus mais de oito milhões de habitantes e a sua importante rede urbana, que a colocam como uma das mais importantes regiões de Espanha.
Falemos, sim, do Canal Extremadura, porta-voz para o mundo de uma pequena, pobre e ultraperiférica região há uns anos e que, graças precisamente à autonomia, obtida em 1983, deixou esse estatuto, para se transformar num território de progresso, respeitado dentro e fora das fronteiras de Espanha.
Para além do entretenimento próprio da televisão, esse canal aproxima e une os extremenhos, com os seus programas sobre a região, que vão das touradas ao desporto (transmitem-se jogos dos clubes regionais, das 3ª e 2ª divisões), passando pelo património natural e cultural e pelas notícias (da política, da sociedade, dos mais pequenos burgos às suas cidades).
E foi num desse programas de notícias que, no passado domingo, fiquei impressionado com a beleza exterior e a brancura e luminosidade interiores do Parlamento dessa região, sedeado em Mérida, no antigo Hospital de São João de Deus (o hospital dos pobres), construído no século XVIII e recuperado para acolher essa instituição política.
Falava-se da inauguração da exposição de um importante escultor emeritense e das obras de arte que ocupam os espaços desse edifício, tornando-o num verdadeiro museu de arte. É prática corrente a realização de exposições no Parlamento da Extremadura, bem como a aquisição e/ou doação de obras dos artistas convidados.
Depois de ver e ouvir essa reportagem, não deixei de pensar no estado de abandono e desleixo em que se encontram alguns dos edifícios mais significativos da nossa cidade, comparando-os com a dignidade desse e de outros aqui bem perto: há uns anos, numas férias de verão, desloquei-me propositadamente a Málaga, para ver o Museu Picasso que, não tendo a dimensão nem o espólio dos seus congéneres de Paris ou de Barcelona, se situa num edifício do século XVI, alvo de uma recuperação exemplar, já premiada internacionalmente.
Falo no edifício do Governo Civil, com as suas deficientes condições, quer para os utentes dos vários serviços que aí se concentram, quer para os trabalhadores desses serviços; falo do Museu Regional e do lamentável estado a que vai chegando, fruto de posturas e decisões que têm condenado à degradação esse magnífico edifício e o seu recheio; falo, finalmente (e numa escala menor, é claro), da imagem de abandono do exterior da Biblioteca Municipal, onde o branco das suas paredes há muito se transformou em cinzento, nada compatível com o excelente trabalho que os seus funcionários aí continuam a desenvolver.
São situações diferentes, mas que contrastam com os exemplos de que falei e com muitos outros. Fruto, como dizia Carreira Marques, numa entrevista na semana passada, sobre o estado do Museu, de opções políticas, que colocam em causa um entendimento entre os municípios, com cerca de trinta anos, que atribui ao Município de Beja o pagamento de 60% dos seus custos de funcionamento (reduzido, em 2012, para 48%).
Outras fossem as opções e os milhares de euros gastos em 2011 em eventos efémeros de alguns dias (Beja Wine Night ou Beja Brava, por exemplo) poderiam ser canalizados para a Assembleia Distrital, não se atingindo, nesse ano, a dívida de 95 mil euros e não deixando chegar esse importante equipamento cultural regional e nacional ao estado a que chegou.
Afinal, a Lei dos Compromissos é bem recente e não pode servir de desculpa para tudo. 

 11 Maio  



Beja - Museu Regional
Mérida - Parlamento da Extremadura

sábado, 5 de maio de 2012

Histórias de Abril (5) Aquela triste (e não leda) madrugada.


Santa Vitória, Novembro de 1975. Tinha sido um ano e meio frenético, depois de quarenta e oito de quietude opressora. Nesse curto período de tempo de um país tão antigo, a história fez-se a uma velocidade estonteante, que contrastou com a letargia em que o salazarismo propositadamente mergulhara os portugueses.
Dezanove meses durou o PREC, período vivido por muitos com paixão e esperança e referido por outros de uma forma acintosa. Esperança que chegou ao outro lado do oceano e que levou o Chico a cantar “Eu queria estar na festa, pá”. Mas, lá como cá, ditadura era ditadura e a canção foi censurada.
A revolução que dos cravos foi chamada, teve também, ao longo desses meses, cenas de violência, que fizeram mártires, como o padre Max, cujo lema de vida era “servir o povo e nunca se servir dele”. E foi palco, principalmente, de outros episódios, como o “28 de Setembro” ou o “11 de Março”, que ficaram na memória como tentativas de interromper a revolução em curso.
E, se o primeiro não passou de uma golpe palaciano, em nome de uma tal “maioria silenciosa”, que terminou com a substituição de Spínola por Costa Gomes, como presidente da república, o segundo já foi mais violento, dado que incluiu o bombardeamento aéreo de um quartel (o RALIS) e a morte de um soldado e ferimentos em outros. Foi a derradeira tentativa dos chamados “spinolistas”, que resultou numa viragem à esquerda, com a formação do Conselho da Revolução e a nacionalização de bancos e seguros.
Entre Março e Novembro acentuam-se, entretanto, as divergências entre os próprios “vencedores” deste último golpe, divisões profundas que se abrem, que criam feridas jamais cicatrizadas, entre partidos políticos e, sobretudo, entre militares que estavam do mesmo lado no 25 de Abril e que agora estão dos dois lados da barricada.
Vivem-se momentos históricos, como, por exemplo, a manifestação do dia 16 de Novembro, que encheu o Terreiro do Paço, onde, soldados e povo, lado a lado, gritam a sua fidelidade à revolução socialista, que seria irreversível em Portugal. Essa mesma revolução que trazia ao nosso país revolucionários de toda a Europa, para verem com os seus próprios olhos, como era possível, neste cantinho à beira mar plantado, semear e colher todos os seus sonhos mais lindos, de uma sociedade mais justa e igualitária.
Em Setembro e em Março, como em todo o país, também nas nossas aldeias foram feitas barricadas, para evitar a passagem dos contra revolucionários, parando e revistando carros, num misto de vigilância, mas também de festa, onde se confraternizava à volta de uma bebida e de um petisco. Onde se misturava a alegria e o sentimento de dever cumprido, a lutar por uma causa justa.
Nesse dia de Novembro, as coisas não correram da mesma maneira. Porque uma imagem da televisão teve um simbolismo e transmitiu uma mensagem que iria marcar todos os que se juntaram na Casa do Povo de Santa Vitória para, mais uma vez, defender a sua revolução. No écran, onde um dos “nossos”, Duran Clemente, capitão de Abril, estava a falar, surge, em seu lugar, uma comédia do Danny Kaye. Nesse momento, de angústia e de revolta, ninguém sabia que a emissão passara de Lisboa para o Porto.
Nessa noite e madrugada, a dúvida instalou-se: que se passara, quem iniciara as hostilidades, a esquerda ou a direita? Como estava a evoluir a situação, quem iria sair vencedor? Perguntas que nunca obtiveram resposta, ficando em todos um sentimento de orfandade e de abandono à sua sorte. Todos os que ali estavam, para defender a sua revolução, recolhiam a suas casas sem saber o dia seguinte, longe da euforia de Setembro e de Março. O próprio Chico cantava agora “Foi bonita a festa, pá”.
Afinal, como muitos chegaram a vaticinar, essa noite não foi o “fim da História”, que um tal Fukuyama anos mais tarde (erradamente) anunciou. É claro que, a partir dessa data, com a “normalização” democrática, abrandou significativamente a velocidade que marcou esses dezanove meses, mas foi possível levar à prática muito por que se lutava então : democratizar o acesso à Educação e à Saúde, melhorar as condições de vida e de trabalho, promover a Cultura dos cidadãos, etc.
Nesse dia de Novembro, perderam-se, certamente, muitas ilusões, mas ficaram os ideais, que perduram para além dos contratempos da História. Porque, como diz o “alentejano” José Mattoso, “…os ideais propõem-nos um horizonte que nunca conseguiremos alcançar: o ideal da pureza, da beleza, da abnegação – nunca lá chegaremos suficientemente…” (Público, 29 de Abril)
(Esta última “História de Abril” é dedicada à memória de Miguel Portas)

4 de Maio



Duran Clemente : a última imagem






sexta-feira, 27 de abril de 2012

Histórias de Abril (4) A cadeira que protege o general.

Beja, Junho de 1976. Aquele podia ter sido um domingo igual a tantos outros, para os quatro amigos que tinham vindo à cidade ver o futebol : no fim do jogo do Desportivo, no Flávio Santos, passariam pela Girafa, onde beberiam umas imperiais, antes de regressarem à sua aldeia.
Só que, nesse dia, estava marcado um comício de Ramalho Eanes, candidato a ser o primeiro Presidente da República eleito após a conquista da democracia, dois anos antes. Numa época em que a política era vivida com muita paixão, a curiosidade levaria os quatro amigos de Santa Vitória a regressar à sua terra umas horas mais tarde. Pelo sim, pelo não, deixaram o carro junto ao liceu, a uma distância considerável do local do comício, não fosse a coisa dar (como deu) para o torto.
Ao passarem pelas Portas de Mértola, encontram um conhecido, militante do PCP, que lhes diz que, por indicação do partido, e para que não houvesse problemas com os seus militantes, estes tinham sido “aconselhados” a ir para o centro de trabalho na Rua Ancha. Desse modo, estaria também defendido de eventuais ataques que poderiam acontecer numa tarde que se previa atribulada.
O local do comício era, logo à partida, propício a confrontos, já que o palco se encontrava no Largo dos Duques, onde se concentravam os apoiantes de Eanes, enquanto que num local superior, junto ao Largo do Museu se encontravam os contestatários. Estes eram, na sua maioria, apoiantes da candidatura de Otelo, enquanto que, entre os apoiantes de Eanes  se encontravam militantes e simpatizantes do CDS ao MRPP e à AOC, passando pelo PS e PSD (numa panóplia de ideologias bem estranha).
Os confrontos começaram por ser apenas verbais, até que, de um lado e de outro começam a voar pedras, que ameaçavam a integridade física dos presentes e até realização do comício. O próprio Eanes, numa calma verdadeiramente olímpica, segura na cadeira onde estava sentado e, para se proteger, coloca-a sobre a cabeça, numa posição muito pouco ortodoxa.
Entre palavras de ordem, insultos e pedradas, eis que, de repente, se ouve aquilo que parece ser um tiro, vindo não se sabe bem de onde e muito menos disparado por quem. Só que, na sequência desse som, surgem (talvez do Largo de Santa Maria), dezenas de polícias, equipados com capacetes, escudos e bastões que desatam a subir a rua, dispersando, quer os opositores do comício, quer os simples mirones. Todos se espalham por tudo quanto é sítio, procurando fugir a umas dolorosas bastonadas: Rua dos Infantes, Rua do Touro, Rua Conde da Boavista, Largo de São João.
No meio desta confusão encontravam-se os quatro amigos que, não estando em nenhum dos campos em confronto, já que apenas estavam lá para assistir aos acontecimentos, também se viram obrigados a correr à frente da polícia. Quis o destino que, ao passarem em frente às portas do Cine-Teatro Pax Júlia (onde estava a decorrer a sessão da tarde do cinema), um deles ter sido reconhecido pelo porteiro (na altura, contínuo no Liceu de Beja) que se encontrava no interior. Num gesto que deve ter misturado a solidariedade e a pena, abriu as portas, por onde se precipitaram os quatro, mais alguns dos que fugiam à polícia. Salvos pela Cultura, podemos, sem quaisquer dúvidas, salientar.
Só após um longo período de tempo (entretanto acabara a matiné), é que conseguiram sair do Pax Julia e voltar para a sua aldeia. Desta história, felizmente sem vítimas mortais (como acontecera em Abril desse ano, em Beja, e também nessa mesma campanha eleitoral, em Évora), ficam também os processos judiciais abertos a 14 dos contestatários, os quais viriam a ser absolvidos apenas em 1981.
E um general de poucas falas e menos sorrisos, que os portugueses conheceram apenas no dia 25 de Novembro de 1975 e que viriam a eleger como seu Presidente por duas vezes, exercendo a máxima magistratura política entre 1976 e 1986.
27 de Abril



Eleições 1976

Eleições 1976 

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Histórias de Abril (3) Oficial e cavaleiro.

Santa Vitória, Outubro de 1975. No quintal da Casa do Povo é instalado um palco provisório, onde se instalam os convidados daquele momento histórico : a formação da primeira UCP – Unidade Colectiva de Produção –que adoptara um sugestivo nome, Vanguarda do Alentejo.
A história começara um ano atrás, no Monte do Outeiro, quando o seu proprietário, além de não aceitar os trabalhadores que tinham sido colocados pela comissão formada por representantes do sindicato, dos agricultores (ALA) e do governo, despedira a maioria dos que aí laboravam, alguns já de idade avançada e com muitos anos de trabalho (e de fidelidade) nessa herdade.
Essa colocação de trabalhadores que acontecia um pouco por todo o Alentejo, visava, por um lado, diminuir o elevado desemprego que se verificava e, por outro, rentabilizar as herdades que tinham vastas parcelas subaproveitadas. O que era o caso do Monte do Outeiro, onde uma parte das suas centenas de hectares estava por cultivar, servindo, principalmente para caçadas onde era figura assídua o então Presidente da República, Américo Tomás. E onde os habitantes locais não podiam sequer entrar, perseguindo alguma perdiz, pois que se arriscavam a ser penalizados pela justiça.
A Vanguarda do Alentejo, que nesse dia 17 de Outubro era constituída, para além do Outeiro, por diversas outras herdades da freguesia, que tinham entretanto sido ocupadas pelos trabalhadores, com o apoio dos militares e do governo de então. Por isso, lá estava a representar o poder político, o Major Brissos de Carvalho, governador civil, bem como outras entidades civis e militares. Entre elas, um representante da GNR, oficial garboso e orgulhoso da farda que vestia, ao serviço do jovem estado democrático.
Passada aquela cerimónia, de aparente unidade entre os presentes, começam a surgir divergências entre os trabalhadores, fruto de dois conceitos diferentes do que deveria ser a Reforma Agrária : de um lado, os defensores da UCP, que preconizavam a existência de uma única estrutura produtiva, onde estivessem integradas todas as terras ocupadas (apoiados pelo PCP) e, do outro, os que defendiam a existência de cooperativas autónomas, formadas a partir de cada uma das herdades que compunham as UCP (apoiados pelo PS).
Assiste-se, então, à tentativa de separação de algumas dessas herdades – Carriços, Corte Ripais, Chaminé, entre outras, num processo conflituoso e traumático entre os próprios trabalhadores e que divide a comunidade local.
Setembro de 1976 – Monte da Chaminé do Passarinho. Algumas centenas de trabalhadores da Vanguarda do Alentejo, suas famílias e outros habitantes locais, estão concentrados, para evitar a desanexação da propriedade e a formação de uma cooperativa independente. Viviam-se os primeiros tempos do primeiro governo constitucional, após os diversos governos provisórios. O primeiro-ministro é Mário Soares, vencedor das primeiras eleições legislativas e o ministro da agricultura é Lopes Cardoso, que aprova essa desanexação.
Para cumprir as ordens governamentais e desalojar os contestatários, uma força da GNR, num aparato bélico impressionante : guardas a cavalo e em jipes, carros blindados e até ambulâncias. Na estrada nacional, os veículos que aí passavam não podem parar ou sequer diminuir a velocidade.
A comandar essa força estava o mesmo oficial que assistira à formação da UCP, um ano antes. Desta vez, assumindo o papel de cavaleiro orgulhoso da sua farda, levanta a voz para os manifestantes, dando-lhes cinco minutos para dispersar, sob a ameaça de “levar tudo à sua frente”.
Gritos, choros, revolta, medo, resistência, de tudo um pouco se assiste. Valem a clarividência e o bom senso dos dirigentes da UCP que, vencidos mas não convencidos, apelam à retirada. Para que não houvesse vítimas, para que não surgissem novas Catarinas no Alentejo.
Três anos depois, em Setembro de 1979, em Santiago do Escoural, Caravela e Casquinha, 65 e 17 anos, serão as vítimas que então se evitam, os mártires dessa época de sonhos e de utopias.
20 Abril




(Foto do Blogue Alvitrando)



                             

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Histórias de Abril (2) A professora rebelde.

Memórias dos dias de sonhos e esperança 

                                              Sala 13

Liceu de Beja, Abril de 1974. Mais um simples dia de aulas, ou talvez não? As notícias na rádio, a agitação entre as pessoas, rapidamente confirmam que esse não será um dia qualquer.  Como ninguém, Sophia,
poeta maior, o cantaria: “O dia inicial inteiro e limpo / Onde emergimos da noite e do silêncio”.
Ironicamente, estava marcado para esse dia um teste da “disciplina oficial” : OPAN (Organização Política e Administrativa da Nação). De nada serviu a insistência com a professora M. , para que não realizasse o teste, sobre um regime que estava a cair na rua, com um dos seus principais chefes cercado num quartel  de Lisboa, pelo povo e pelas tropas de um tal capitão Salgueiro Maia.
Jovem ainda, receosa por eventuais represálias, cumpridora dos seus deveres, a professora lá conseguiu convencer a turma a fazer o teste, ainda que de uma forma bastante menos formal que o habitual. Como se costuma dizer, apenas para “cumprir calendário”.
No dia seguinte, todos estavam à espera da aula da professora H.  Igualmente jovem, recém chegada da faculdade, era uma autêntica lufada de ar fresco, numa escola conservadora  que, à imagem e semelhança das suas congéneres,  procurava incutir nos estudantes as virtudes de um Estado que se dizia Novo, mas que estava tão caduco como as folhas que ciclicamente caem no Outono.
A professora H. ensinava Sócrates, Aristóteles e Platão, o idealismo, o positivismo e o existencialismo. Mas não  esquecia o marxismo e a luta de classes, nem deixava de incentivar os seus alunos a ler “As mãos sujas”, de Sartre, ou “Os Justos”, de Camus. Tal como, mais tarde, levaria um grupo a Lisboa, a ver teatro, na cave de uma cervejaria famosa, onde actuava uma companhia com um nome bem elucidativo : Comuna.
Certo dia, um grupo dos seus alunos, que, timidamente e com os cuidados naturais para a época, começava a ler uns livros proibidos (que sabiam existir, escondidos, na livraria Carlos Marques, junto à redacção e às oficinas do Diário do Alentejo), a discutir temas como a independência da Guiné-Bissau, quis fazer-lhe uma “provocação”, colocando à sua vista, um livro que o irmão de desses alunos, estudante universitário em Lisboa, lhes emprestara : “A História me absolverá”, de Fidel Castro. No final da aula, a professora H. chamou à parte esses alunos e explicou-lhes a imprudência que era andarem com esse livro assim à vista, e que havia uns senhores, espalhados por todo o lado, cuja missão era descobrir quem lia livros desse tipo.
Pois bem, nesse dia segundo da Liberdade, a aula com a professora H. era na sala 13, de cujas janelas se avistava o campo de futebol e, junto a este, a Avenida Vasco da Gama. Cedo começou a haver um grande alvoroço junto a uma vivenda dessa avenida, onde se concentrava uma multidão cada vez maior, contida a custo por jovens militares.
Só nessa altura, ao ouvirem os gritos de “morte à pide” é que esses alunos “do contra” souberam que era ali que “trabalhavam” os tais senhores de que a sua professora lhes falara. O impulso para se juntarem à multidão foi enorme, exigir o castigo desses esbirros, que vigiavam, prendiam, torturavam a matavam os opositores da ditadura.
É então que ouvem, surpresos, da professora H. , algo que os deixa incrédulos : aqueles que ali estavam e que subiam presos para as viaturas militares, não eram os principais culpados do que acontecera em Portugal. Esses já cá não estavam, tinham ido para a Madeira.  Por isso (e para que não acontecesse nada de mal), não havia razão para irem para a rua gritar contra a PIDE (na altura a DGS).
Após alguns momentos de diálogo e de argumentos (e súplicas), a professora H. lá deixou o grupo dos seus alunos juntar-se aos bejenses que gritavam a sua repulsa à repressão e a sua adesão à democracia.
Um mês depois souberam que os tais responsáveis tinham ido da Madeira para o Brasil. Um ano depois, a 30 de Junho, dá-se  a “fuga” de 88 antigos agentes da PIDE, transformada pelas palavras de Ary dos Santos e pela música de Fernando Tordo no “Fado de Alcoentre”.
13 de Abril