Arquivo Fotográfico do Diário do Alentejo

sexta-feira, 17 de julho de 2020

Estátuas (1) : Que es esto?

Foto : http://bejayarrabaldes.blogspot.com/
Foto : https://www.vhils.com/map/beja-portugal/






A pergunta foi feita há cerca de um ano, no largo da Pousada, por um casal de turistas espanhóis. Referiam-se ao Monumento ao Preso Político, de Jorge Vieira, que se encontra nesse local. Expliquei-lhes um pouco da história da escultura, bem como do seu autor. Pessoas interessadas, ficaram com pena de não poder aceder ao museu, na altura encerrado, prometendo voltar um dia.
Situações idênticas já tinham ocorrido outras vezes. Ao atravessar o Jardim Público, um casal de franceses com uma filha pequena pediu-me para lhes tirar uma foto junto à estátua do Lidador, aproveitando para me questionar quem era esse “guerrier”, tendo eu narrado um pouco da lenda de Gonçalo Mendes da Maia. Noutra altura foi um casal de brasileiros, paulistas, que não percebia o porquê de uma estátua e praça com o nome de Raposo Tavares (nome de uma importante rodovia que se inicia em São Paulo), para além da Avenida do Brasil. Para aumentar a “confusão” indiquei-lhes a rua com o nome da sua cidade e falei-lhes ainda do senador do seu estado (José Hermínio de Moraes) que presidiu à comissão que em 1966 ofereceu a estátua a Beja e que também tem uma rua com o seu nome ali bem perto. Pessoas cultas e informadas, não sabiam que Raposo Tavares era natural do distrito (e não da cidade) de Beja, mas tinham uma opinião bem formada e consistente sobre o papel desse e de outros bandeirantes na história do Brasil (para bem e para o mal).
Estas três pequenas histórias vêm a propósito de uma situação que há muito tempo existe e que poderia ser resolvida (ou atenuada) com algum investimento municipal. Trata-se da identificação da arte pública existente em Beja, das mais diversas épocas e géneros, como as atrás referidas, ou outras: esculturas de João Cutileiro no jardim do tribunal e de Noémia Cruz no Largo de São João, painéis de azulejos do Jardim Público (recentemente restaurado) e no Núcleo Museológico do Sembrano (de Rogério Ribeiro), obras de Vhils e de Bordalo II. Ou ainda identificar as obras de arte que se situam nas rotundas das entradas da cidade, a exemplo do que existe em outras localidades, como em Tavira. E assim, muitos dos visitantes ficariam a saber que numa dessas rotundas existe uma escultura do citado (e consagrado) Jorge Vieira.
Esta informação completaria a que há pouco tempo foi implantada, com a colocação de 23 totens em locais públicos da cidade, mesmo que não seguisse os mesmos estilo, design e materiais. Hoje, para um visitante, nacional ou estrangeiro, praticante do chamado “turismo cultural”, bastaria uma referência à obra e ao autor, em painéis adequados, com a indicação do site (eventualmente da própria autarquia), onde se poderia pesquisar informação mais detalhada, para poder completar os elementos biográficos e artísticos constantes nesses painéis.
Deste modo, os turistas brasileiros de que atrás falei poderiam, quando regressassem ao seu país, pesquisar a razão da existência em Beja de uma estátua de Raposo Tavares, nascido em São Miguel do Pinheiro e falecido em São Paulo, cidade onde viviam.
Foto : https://www.allaboutportugal.pt/en/



  
17 julho (1ª parte)


sexta-feira, 3 de abril de 2020

Cultura

As Troianas

Eurípedes.
Em 1998 a Escola da Noite, companhia de Coimbra, apresentou na Casa da Cultura a peça As Troianas, um clássico do teatro grego do século V a.C. Nela, Eurípedes narra o destino trágico das mulheres de Tróia, após a derrota na guerra com os gregos. Uma peça muito dura, pesada, quer para o público que assistiu (e que encheu o auditório interior), quer para os atores que lhe deram corpo. De tal forma, que a própria companhia escrevia na folha de sala: “É tal a extensão do drama de Eurípides, uma das tragédias mais lancinantes do teatro grego, que o nosso trabalho durante os ensaios se tornou, por vezes, quase insuportável“.
Pois bem, mesmo com este “desabafo”, no final da peça, atores e restantes membros da companhia estavam radiantes com a forma como a mesma tinha corrido: um público silencioso, atento, concentrado, que no final brindou os intervenientes com uma prolongada salva de palmas. Qual a razão para esta satisfação da companhia? Estavam numa digressão patrocinada pela Secretaria de Estado da Cultura e, em vários locais, tinha havido um perturbador corrupio de entradas e saídas nas salas, prejudicando o trabalho dos atores e a atenção do público realmente interessado.
Em Beja isso não aconteceu, por dois motivos (para além do interesse de quem se deslocou para assistir) : porque se respeitou a indicação de fechar a porta logo que a peça teve início e porque o BEJARTE assentava na política da entrada paga (algo raro nessa altura, em iniciativas autárquicas) o que, de certa maneira, garantia que quem pagava o seu bilhete (na altura 500 escudos) era com a finalidade de assistir a algo que desejava.
Essa peça integrava-se num programa criado um ano antes pela Câmara Municipal, designado BEJARTE e que tinha dois objetivos essenciais, preparar os trabalhadores da autarquia para a futura reabertura do Pax Julia e criar e formar públicos nas várias áreas (música, teatro e dança), através da apresentação regular de espetáculos em locais tão diversos como a Casa da Cultura, o auditório do Instituto Politécnico, a Pousada de São Francisco ou o Museu Regional. Vários foram os artistas e companhias que se apresentaram entre 1997 e 2005: Cristina Branco, Companhia Paulo Ribeiro (dança) ou Companhia de Teatro de Braga, só para citar alguns. O último espetáculo deste programa teve como protagonista Aldina Duarte, na Casa da Cultura, no dia 17 de Março de 2005, três meses antes do Pax Julia reabrir.
Músicas de Sol e Lua
Sol e Lua.
No dia 17 de junho de 2005, no meio de algumas peripécias de última hora (que, quem sabe, prenunciavam o excelente trabalho viria a ter lugar nos anos futuros), o PAX JULIA Teatro Municipal iniciou a terceira fase da sua já longa vida. Sérgio Godinho, Vitorino, Rão Kyao, Janita Salomé e Filipa Pais, acompanhados por alguns músicos, interpretavam, a solo, duo, trio ou em quinteto, alguns dos mais importantes temas da música popular portuguesa. Sendo todos eles virtuosos artistas, difícil foi destacar algumas das várias interpretações, mas uma das que mais cativou o público que enchia a sala foi o “Brilhozinho nos Olhos”, cantado a solo por Sérgio Godinho. O mesmo que, em contrapartida, na última canção, interpretada pelos cinco, que homenageava José Afonso, teve alguns lapsos, enganando-se na letra da mesma.
No final do espetáculo, num hábito que mantive ao longo dos anos em que dirigi o Pax Julia, fui ter com os artistas aos bastidores e encontrei um ambiente que misturava um certo constrangimento do grupo com uma irritação bem audível, do Vitorino para com o Sérgio, pelo que acontecera momentos antes. Embora tentasse pôr um pouco de água na fervura, não me foi difícil perceber a razão dos lapsos ocorridos, que estava bem à vista.
Volver
Almodovar.
Uma das vertentes da programação do Pax Julia nesta “terceira vida” foi (e continua a ser) o cinema, não na sua vertente comercial (ainda que esta seja muito limitada em Beja), mas procurando apresentar filmes de qualidade, muitos deles fora dos circuitos habituais, logo dificilmente aqui apresentados. Assim, foram programados, por exemplo, ciclos temáticos ou de autor (à terça-feira), complementados com filmes mais comerciais à sexta (quando possível).
Dezembro de 2006 foi dedicado a Pedro Almodovar, com a apresentação dos seus três últimos filmes, Fala com Ela (2002), Má Educação (2004) e Volver (2006). Foi quando estava a preparar este ciclo que tive uma ideia (que, à partida, estaria condenada ao fracasso): convidar o realizador para se deslocar a Beja aquando desta iniciativa. Uma carta algo romantizada, sobre Beja e o Pax Julia, lá seguiu para El Deseo, a produtora dos filmes de Almodovar, sem qualquer expetativa de a mesma ter sequer resposta.
Eis senão quando, passados alguns dias, é recebida uma simpática missiva, assinada por Agustin, irmão de Pedro e produtor dos seus filmes, na qual agradecia o convite, que deixou o realizador sensibilizado, mas que não poderia aceitar, dado que nessa altura estaria no estrangeiro devido a compromissos anteriormente assumidos.
Uma coisa em forma de assim
Bernardo e os coreógrafos
Bernardo.
De entre os muitos artistas que conheci no Pax Julia, um dos que mais me marcou foi Bernardo Sasseti. Aqui atuou três vezes : em maio de 2008, a solo, no âmbito do InJazz, um festival descentralizado por várias localidades; em fevereiro de 2011 com o trio que tinha o seu nome, onde era acompanhado por outros dois excelentes músicos, o Carlos Barreto e o Alexandre Frazão; finalmente, em junho de 2011, interpretando as músicas que compusera para o espetáculo “Uma coisa em forma de assim”, da Companhia Nacional de Bailado (por sinal, o último que programei para o Pax Julia).
No final do espetáculo, embora já não trabalhasse aqui, fui ter com ele e estivemos a conversar no palco durante algum tempo. Foi aí que o Bernardo disse algo que me deixou atónito e satisfeito (e aos técnicos do teatro que assistiam à conversa): que gostava muito de atuar no Pax Julia, onde era sempre bem acolhido, pelos profissionais e pelo público, tendo este uma postura de atenção, respeito e afeto que lhe agradava, e que, graças a isso e às excelentes condições acústicas do espaço, talvez um dia viesse aqui gravar um disco a solo.
Não sei se, com tantos projetos em que estava sempre envolvido, o Bernardo se iria lembrar dessas palavras e se o tal disco não passaria apenas de mais um momento de entusiasmo tão próprio dele. Mas, quase um ano depois desta nossa conversa, chegaria pela tv a notícia, cruel e estúpida da sua morte. O Bernardo não gravaria mais, nem esse nem outros discos, não viria uma quarta vez ao Pax, não encantaria os bejenses com os acordes que saíam, qual passe de magia, das suas mãos únicas.
     
Todas as Vidas num Palco - Uma placa para a História
Estas foram apenas quatro das histórias que marcaram quase quinze anos de trabalho na área da Cultura na CM Beja e, em particular, dos cinco anos e meio no Pax Julia. Em tempos conturbados como os que estamos a viver, achei que o seu relato seria a melhor homenagem que poderia fazer aos excelentes e dedicados profissionais com quem trabalhei e aos muitos artistas (locais e nacionais) que resistiram ao longo dos anos e que estão hoje em dia numa fase delicada, do ponto de vista profissional e pessoal.


3 abril 2020

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

Teruel

Automotora Beja-Casa Branca

Comboio Madrid-Galiza (Alvia Série 730/Híbrido)
Seja porque são os nossos únicos “vizinhos”, pelas afinidades linguísticas, por uma História que, ao longo de séculos, se cruzou com a nossa, pelo flamengo, por Garcia Lorca ou Patxi Andion, ou pelo acesso aos inúmeros canais de tv, nacionais e regionais, interessamo-nos por aquilo que se passa aqui ao lado, pelas aventuras e desventuras dos “nuestros hermanos”.
Entre outros temas, os últimos meses foram marcados, a nível político, pelas dificuldades em formar governo, que levaram, mais uma vez, a eleições, no dia 10 de novembro (ou 10N, como são batizadas pelos media).
Em dois aspetos principais se diferenciam das que se realizam no nosso país: porque é um sistema bicameral – o Congresso e o Senado – e pelo largo espetro de partidos nacionalistas/independentistas, fruto da própria natureza no estado espanhol e das suas idiossincrasias.
No entanto, ao analisar o 10N, um facto me chamou a atenção: os resultados obtidos por um movimento de cidadãos (autorizados em Espanha, ao contrário de Portugal) designado por Teruel Existe.
A curiosidade (e a novidade) levou-me a pesquisar um pouco mais sobre o tema. Em Teruel, município com cerca de 36 mil habitantes, capital da província com o mesmo nome (133 mil hab.), uma das três que formam a comunidade autónoma de Aragão (1300 mil hab.), nasceu em 1999 “… un movimiento ciudadano que ha aglutinado a todos los sectores, desde la CNT hasta asociaciones vinculadas al Opus Dei …”, que visava lutar contra “… la situación de abandono histórico …" (El País, 20 dez 1999) a que os teruelenses se sentiam votados. Lutavam, entre outros motivos, por “ Un transporte ferroviario de calidad, seguro y rápido; unas comunicaciones por carretera propias del s. XXI; una asistencia eficaz a la emergencia y al transporte sanitario; planes que mantengan el empleo en la provincia y que impidan su despoblación progresiva por falta de futuro “.
Foram vinte anos de uma intensa mobilização cidadã, relatados página web do movimento ( https://teruelexiste.info/teruel-existe/ )e que culminaram na decisão de concorrer às eleições gerais de novembro do ano passado, para levar essas reivindicações ao poder político nacional.
E a resposta dos eleitores da província não podia ter sido mais clara: um dos três deputados (primeiro lugar com 26,7% dos votos) e dois dos quatro senadores; no município o resultado para o Congresso foi ainda mais expressivo: 42,57% dos 20 mil votantes (74% dos eleitores inscritos). Uma resposta clara dos cidadãos, não obstante os obstáculos colocados, como afirmava o seu porta-voz: “Os partidos tradicionais reagiram com animosidade, ‘mesmo com ataques pessoais’ (Expresso, 15 de dezembro).
Não é objetivo deste texto fazer comparações entre esse movimento e o que nasceu em Beja, em 2011, nomeadamente pela inexistência de quaisquer pretensões político-eleitorais deste último. Há, no entanto, semelhanças evidentes, como a luta por melhores acessibilidades rodoviárias e ferroviárias e, como já escrevi aqui (12.7.2019), a desconfiança e até a hostilidade, por parte de partidos e agentes políticos locais e regionais, manifestadas ao longo dos anos.
Estas posições são, acima de tudo, injustas, perante a disponibilidade de um conjunto de cidadãos para reverter decisões que penalizam quem vive na sua terra e na sua região. Não fora a mobilização verificada logo em janeiro de 2011 e o fim das ligações ferroviárias diretas a Lisboa teria sido um facto consumado e esquecido e, pior que isso, estaria em risco a própria existência da ferrovia em Beja, face à degradação contínua dos serviços da CP.
Por isso, só por puro sectarismo político-partidário é que define essa mobilização como “alarido”, “gritaria” ou “contestação fácil e populista”, ignorando quem profere tais afirmações as inúmeras reuniões, ao longo das últimas cinco legislaturas, com deputados e comissões parlamentares, administração da CP e governantes, além das petições e dos documentos entregues ao Presidente da Assembleia da República, Presidente da República e Primeiro-Ministro.
Esta era (é) uma luta de todos que deveria unir e não dividir. Apelos neste sentido foram feitos em artigos de jornais locais, quer dirigidos aos autarcas locais cujos concelhos são atravessados pela ligação Beja-Casa Branca, pelo IC27 ou pela (futura) A26 (8.6.2012), quer aos três deputados eleitos em outubro de 2015 (9 de outubro). Esses apelos caíram em saco roto e a desejada unidade entre agentes políticos, movimento de cidadãos e outras entidades locais e regionais não se tem verificado, o que leva ao constante adiamento das medidas tão necessárias à vida dos que vivem na região.
Uma nota final, que não deixa de ser irónica, perante o que se tem passado e que é demonstrativo da falta da vontade política dos vários governos para resolver o principal problema que deu origem ao movimento dos cidadãos, em janeiro de 2011: o fim do Intercidades Beja-Lisboa, sem transbordos, como acontecia desde 2004.
Numa reunião realizada com o Secretário de Estado Correia da Fonseca, no dia 25 de março de 2011, os membros do grupo de cidadãos presentes propuseram a manutenção da ligação direta, pelo menos duas vezes por dia em cada sentido, se possível em comboios mistos (diesel até Casa Branca e elétrico até Lisboa). A resposta a esta última proposta foi negativa pois, segundo o governante, a CP não dispunha deste tipo de comboios (híbridos ou bimodos). Numa altura em que se já se alugavam composições à RENFE, poder-se-ia ter equacionado essa hipótese para tal tipo de comboios, que há vários anos executam, por exemplo, a ligação entre Madrid e a Galiza, mas isso não aconteceu e, em seu lugar, vieram as desconfortáveis automotoras.
Ainda na edição do DA de 7 de fevereiro passado, o especialista Francisco Furtado, se referia aos comboios híbridos, não só para a ligação Beja-Lisboa, como até para uma futura ligação Beja-Évora-Elvas-Badajoz. Pois bem, foi preciso chegar a 2019, para a CP lançar um concurso para esse tipo de comboios (até porque a eletrificação da linha continua a ser uma miragem) que, na melhor das hipóteses começarão a chegar em 2023 (TSF, 7.1.2019).
Oito anos depois, por linhas tortas, o governo reconheceu a justeza da proposta, feita pelo tal grupo de bejenses, cuja ação, alguns dos que nada têm feito nesse sentido não têm pejo em classificar de “maledicências” ou de “síndrome de desgraçadinho”, apenas porque, conjunturalmente, quem governa neste momento é o partido em que militam. É caso para dizer, para terminar que, assim, não vamos lá. É preciso despir as camisolas partidárias e abraçar de vez, sem quaisquer complexos, uma luta que é (ou devia ser) de todos. Beja e a região merecem.
21 fevereiro



sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

Cooperação.



Na Assembleia Municipal realizada no passado dia 25 de novembro coloquei, no período reservado ao público, duas questões ao Presidente da Câmara: uma sobre a passagem da gestão do Museu Regional para a Direção Regional da Cultura do Alentejo e outra sobre a situação da villa romana de Pisões. Fi-lo, face à ausência de notícias sobre ambos e, nomeadamente em relação ao museu, porque o Decreto-Lei n.º 78/2019, de 5 de junho, que o passou para a dependência da DRCA estabelecia que “Os autos de transferência [com a CIMBAL] devem ser celebrados no prazo de 60 dias após a data de entrada em vigor [desse diploma]“, ou seja até 5 de agosto. Ora, quase quatro meses depois, tal ainda não se tinha verificado.

Isto mesmo foi confirmado por Paulo Arsénio, que adiantou que tal se devia à falta de acordo entre as duas entidades sobre um aspeto em particular, o que atrasava a elaboração do documento. Sobre Pisões, referiu que se aguardava a resposta a uma candidatura a fundos comunitários, apresentada em conjunto pela Universidade de Évora e pela Câmara Municipal de Beja, com vista à recuperação e dinamização desse espaço.

Sem querer voltar à polémica que se instalou aquando da passagem da gestão do museu e de Pisões para as duas entidades, volto ao assunto, para apresentar uma proposta para a gestão partilhada de dois dos mais importantes elementos da História e do Património de Beja e do seu Concelho. Faço-o, tão somente, por uma questão de cidadania, que implica, entre outros aspetos, a partilha de ideias e de opiniões, quando as mesmas podem contribuir para o progresso e para o desenvolvimento das comunidades onde vivemos (ainda que, na maior parte das vezes, sejam olimpicamente ignoradas por quem apregoa a participação popular como uma das marcas dos seus mandatos políticos).

Começo por recuperar um artigo de Santiago Macias, neste mesmo jornal, no dia 5 de abril do ano passado, sobre Pisões: http://avenidadasaluquia34.blogspot.com/2019/04/quinta-coluna-n-2-pisoes.html .
Das cinco ideias/propostas que apresenta, destaco a terceira : “Como potenciar o sítio? (…) A solução mais lógica é a da ligação de Pisões ao Museu Regional. Que, estranhamente, sempre esteve à margem do que em Pisões se foi passando. A duplicação de custos (dois equipamentos, duas equipas de funcionários) parece-me, no mínimo, utópica”.
Concordo, no essencial, com esta proposta. Há ainda outros aspetos que a justificam e que SM não referiu. Em minha opinião, essa ligação poderia/deveria passar por um modelo que, agregando as três entidades – Direção Regional, Universidade e Câmara Municipal – desse origem a uma única entidade responsável pela gestão conjunta do museu (incluído naturalmente o seu Núcleo Visigótico), de Pisões e, eventualmente, do Núcleo Museológico da Rua do Sembrano. Deixo de fora o Centro de Arqueologia e Artes e o sítio arqueológico anexo, que aguardam, por parte da autarquia, uma decisão sobre o seu futuro e modelo de funcionamento.
Essa nova entidade deveria ter uma administração tripartida, coadjuvada por um conselho consultivo alargado e, tal como prevê o citado decreto-lei, um diretor recrutado “…através de concurso público (…) a quem são delegadas competências para uma gestão responsável, que prime pela transparência e pelo cumprimento do quadro legal vigente e que se adeque às características do equipamento em causa, permitindo agilizar a operacionalização do seu plano de atividades do setor”.
É claro que esta proposta não será fácil de implementar, por duas razões de fundo : pelo conservadorismo que perpassa por toda a nossa Administração Pública, que dificulta/impede inovadoras e mais ágeis formas de gestão da “coisa pública” e pelo chamado “establishment administrativo”, designação há dias usada por Luís Raposo num artigo no Público (edição online de 3 de janeiro), precisamente intitulado “O desafio dos museus em 2020”, onde coloca uma série de questões acerca dos problemas que afetam os museus nacionais e o novo modelo de autonomia de gestão definido pelo decreto-lei de junho de 2019, que “…poderá contribuir de alguma forma para atenuar o mal indicado [a rarefacção dramática das equipas dos museus], ainda que se avolumem “…as dúvidas quanto à lisura da sua aplicação e até quanto à sua efectiva utilidade.”
Para concluir, refiro que, se houver interesse em estudar algo de semelhante, basta percorrer cerca de 250 quilómetros e contatar o “Consorcio de la Ciudad Monumental, Histórico-Artística y Arqueológica de Mérida”, uma entidade de direito público, formada pela Junta da Extremadura, Ministério da Educação, Diputación Provincial de Badajoz, Assembleia da Extremadura e Ayuntamiento de Mérida , que “… tem como objeto a cooperação económica, técnica e administrativa entre essas entidades, para a gestão, organização e intensificação das atuações relativas à conservação, restauração, acrescentamento e revalorização da riqueza arqueológica e monumental de Mérida”: https://www.consorciomerida.org/ .
Descontando o número e a monumentalidade do legado da Augusta Emerita (Património da Humanidade desde 1993), muito superior ao da nossa Pax Julia, bem como as caraterísticas específicas de ordem político-administrativa (existência de um poder regional – assembleia, junta e diputatión), uma solução parecida poderia igualmente potenciar o desenvolvimento/modernização das duas “jóias da coroa” do nosso património. Assim se queira aplicar algo cada vez mais necessário : a cooperação.
Concluo, voltando ao artigo de Santiago Macias porque, quer para as propostas nele contidas, quer para a que apresento, há algo que é decisivo e que ele resume nesta frase: “ O problema está em Beja e é em Beja que a solução tem de estar. Falta, enfim, como em tantas coisas nesta vida, “quem se chegue à frente”. Sem um protagonista não haverá solução, ou não fossemos nós uma sociedade de homens providenciais… Também se pode, claro está, continuar a dizer que a culpa “é de Évora”. É sempre mais fácil. E, localmente, rende mais “.
10.01.2020

sexta-feira, 15 de novembro de 2019

Quarenta e cinco.


Democracia significa alternativa. Alternativa em relação às ideologias e práticas políticas, às propostas, aos partidos, às pessoas. Significa, igualmente, alternância. No poder, seja ele nacional ou local (por enquanto não há regional). Através de eleições, onde todos podem participar – eleger e ser eleitos – e onde a liberdade de expressão e a participação são (ou devem ser) , entre outras, tónicas dominantes.
Significa, por isso, mudança. De quatro em quatro anos, de cinco em cinco, conforme os casos (e os cargos). Alteração de protagonistas, que trazem consigo novas ideias e projetos, sufragados pelos cidadãos e que, obviamente, enunciam mudanças para melhor (ainda que, o bom senso aconselhe que, em relação ao que estava bem, se opte pela continuidade).
Não admira, pois, que surjam comparações com o que os antecessores políticos fizeram (acompanhadas, por vezes, de críticas, o que é normal), nos quatro ou mais anos anteriores, nas mais diversas áreas de atuação.
O que, não sendo novo, é cada vez mais replicado (e amplificado pelas redes sociais), é o alargamento dessas comparações e críticas a períodos tão longos como trinta ou quarenta anos. Temos assistido a isso nos últimos tempos, não só pelo cidadão “comum”, mais ou menos neófito nas lides políticas, mas por responsáveis políticos locais que, para anunciar esta ou aquela obra, não resistem a acrescentar os anos que a mesma esteve por fazer.
Esta prática, não sendo ilegítima, acarreta, no entanto, vários aspetos sobre os quais se devia refletir. Desde logo, porque a mesma pode ser usada daqui por alguns anos, se e quando houver mudança de protagonistas; depois, porque, numa altura em que a política e os políticos são alvo de campanhas de teor populista, é necessária uma pedagogia democrática, oposta a certas afirmações que, ao invés, podem acicatar sectarismos e intolerâncias sobre o adversário (tornado inimigo); finalmente, porque não é correto e, pior que isso, é injusto, comparar a situação atual do país, do município ou da freguesia, com a de há trinta ou quarenta anos, esquecendo o trabalho de tantos e tantos eleitos que deram o melhor de si nos mais diversos cargos políticos.
Quando se enuncia, por exemplo, a pintura de um pavilhão desportivo ou a intervenção numa piscina e se referem os anos que as mesmas estiveram por fazer, esquecem-se intervenções de fundo em outro pavilhão ou na mesma piscina, que contribuíram para a melhoria da prática das atividades aí praticadas. E o mesmo se aplica a outras situações, numa prática contraproducente, já que atira para debaixo do tapete a raiz de atrasos e deficiências em variados setores (estamos a falar a nível autárquico) : a falta de meios, humanos, técnicos e financeiros, para fazer face a um cada vez maior número de competências (assunto sobre o qual escreverei um dia destes), equipamentos e infraestruturas que têm recaído (e continuam a recair) sobre as autarquias locais.
Por outro lado, se os mais jovens (nascidos no pós 25 de abril) não se recordam, talvez faça parte dessa pedagogia democrática relembrar como era o nosso país em 1974, como eram as nossas aldeias, o que faltava nas nossas vilas e cidades. Falar, por exemplo, da falta de água ao domicílio, dos esgotos ou da luz elétrica. Ou de coisas tão “banais” hoje em dia, como um campo de futebol com balneários e iluminação (nas freguesias do concelho de Beja contavam-se pelos dedos as que tinham esse equipamento desportivo, ainda que sem os “luxos” referidos). Falar das redes de equipamentos culturais – bibliotecas, museus, teatros – e sociais que trouxeram qualidade de vida às populações. Ou, a propósito, falar até do Diário do Alentejo, salvo da sua extinção pela ação dos autarcas, que viabilizaram a sua continuidade até aos dias de hoje, tal como fizeram com o Museu Regional.
Apregoar o trabalho feito, sim. Mostrar as diferenças, sim. Mas sem esquecer que, quando se fazem comparações com o “antes” e o “depois” há, de facto, uma “linha vermelha”, que separa o atraso e o progresso (ainda que haja ainda muito por fazer). Essa linha não tem trinta nem quarenta anos, mas sim quarenta e cinco. Os que separam o Portugal da ditadura, do obscurantismo e do “orgulhosamente sós”, do Portugal democrático, da liberdade de expressão, da cultura sem censura, do direito à diferença, da afirmação internacional.
Chamusca, anos 50 do séc. XX
Amadora, 1974 (foto de Alfredo Cunha)
Duas notas finais. A primeira, para citar uma evocação do Diário do Alentejo do passado dia 23 de agosto (na rubrica Há 50 anos): na Nota do Dia de 17/18 de agosto de 1969, a propósito de uma queixa dos habitantes de Corte do Pinto sobre a falta de energia elétrica nessa localidade, era referido que “na capitação do consumo de energia elétrica o distrito de Beja deve ser um dos últimos num confronto nacional [sendo Portugal o “penúltimo país da Europa]” e que, em Almodôvar e Mértola apenas as vilas, sedes dos respetivos concelhos, possuíam tal benefício. Ia mais longe o autor desse texto: “a manterem-se situações como esta, de tão perniciosos como nítidos reflexos, não será possível suster o êxodo rural, cujas desastrosas consequências foram finalmente reconhecidas, pelo que se procura agora eliminá-las“.
A segunda nota, para relembrar a emoção de todos os que assistiram (entre os quais o autor destas linhas), em 1976, à chegada da luz elétrica à Mina da Juliana, que provocou algumas lágrimas de felicidade e alegria aos habitantes dessa localidade (e não só), “condenada”, primeiro pelo encerramento da mina, depois pela invasão das águas da barragem, mas que resistiu até ao dia em que, graças à Democracia que chegara dois anos antes, pôde concretizar esse desejo, adiado tantos anos.


15 novembro 2019

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Camilo


É bem conhecida a frase “Uma mentira mil vezes repetida torna-se verdade”, atribuída a Goebbels, o ministro da propaganda de Hitler. Com o advento e a proliferação das redes sociais, mais ainda se tornou omnipresente, sobretudo através do que se convencionou chamar “fake news”, realidade preocupante dos nossos dias.
Por isso, não é de admirar que, numa aula do 12º Ano, ao abordar-se o tema “Portugal – do autoritarismo à democracia”, em que se fala da resistência à ditadura (luta clandestina, exílios, greves, “eleições”, MUD, entre outros aspetos e), e se referem alguns episódios marcantes, como o atentado contra Salazar, em 1937, levado a cabo pelos anarquistas ou, mais tarde, já na década de 60, os desvios do paquete Santa Maria e do voo da TAP Casablanca-Lisboa e os assaltos ao quartel de Beja e ao Banco de Portugal, na Figueira da Foz, e se nomeie o nome de Camilo Mortágua, como um dos participantes nestas quatro últimas ações, um(a) aluno(a) aluda ao que leu/ouviu dizer: “esse assaltante de bancos”?


Afinal, esse foi o argumento utilizado pela imprensa pró-regime, classificando estas ações como terroristas (tal como apelidava a luta dos movimentos que lutavam pela independência das colónias) e os seus autores como criminosos comuns, quando, no fundo, se tratavam de iniciativas cujo principal objetivo era político, visando o derrube da ditadura liderada por Salazar e que já durava há mais de trinta anos.
 
 Triste é que esse argumento, próprio de páginas de uma certa (extrema)”direita política” seja por vezes replicado de uma forma célere, sem o mínimo conhecimento do que se está a escrever (inclusive por alguns “democratas”). É esse o caso do(a) aluno(a) referido(a), ainda que, neste caso, o papel pedagógico do docente o(a) possa e deva esclarecer.
Esse esclarecimento tem passado, por exemplo, por uma visita ao Museu do Aljube, onde se podem ver as principais caraterísticas da ditadura: a pobreza/miséria de grande parte da população, o analfabetismo, a emigração, a repressão política, a censura, o ensino dominado pela ideologia, a cultura controlada, a guerra colonial criminosa, o isolamento internacional. Ou seja, um real “centro interpretativo” do salazarismo, dificilmente substituível por uma outra qualquer interpretação contida num eventual “Museu de Salazar” de que hoje tanto se fala. A não ser que se queira transformar Santa Comba Dão na Gori portuguesa, cidade georgiana, onde nasceu Estaline e existe um museu a ele dedicado (objeto de um interessante artigo na revista do Expresso de 24 de agosto) que é um local de romaria para os saudosistas do ditador soviético.
Pois foi contra Salazar, o amigo e discípulo de Hitler e de Mussolini, que apoiou Franco contra a República, que criou o Tarrafal, onde morreu Bento Gonçalves, que dirigiu a polícia política que assassinou Dias Coelho e Humberto Delgado, foi contra esse ditador que Camilo Mortágua lutou, levando à prática o que há pouco mais de um mês, a insuspeita Angela Merkel dizia : “… há momentos em que a desobediência é obrigatória...”, apelando “… à luta contra os avanços da extrema-direita, por ocasião do 75º aniversário da conspiração mais famosa parra assassinar o líder nazi Adolf Hitler…” (Público, 20 de julho).
Duas notas finais. A primeira, para dizer que conheci o Camilo apenas há quatro anos, aquando da campanha eleitoral de Sampaio da Nóvoa (da qual, ele e o Francisco Fanhais, foram os primeiros impulsionadores no distrito de Beja). Não obstante ser o menos novo dos apoiantes, era o parecia ter mais “sangue na guelra”: se estava combinado distribuir cem folhetos, ele propunha duzentos, se íamos a três localidades, ele avançava com seis. Ou seja, o mesmo espírito revolucionário de cinquenta anos atrás, lutando por uma causa em que acreditava.
A segunda e última nota visa outro aspeto que aparece não poucas vezes nas citadas redes sociais: a associação da prática antifascista de Camilo Mortágua (avaliando-a de modo depreciativo) à atividade política das suas filhas, o que não deixa de ser uma atitude, no mínimo desonesta. O que, de facto, os que o fazem não conseguem aceitar é ver a Mariana e a Joana prosseguirem, não uma “carreira política” baseada em amiguismos e outros esquemas mas, a exemplo do pai, a defesa dos ideais e das causas em que acreditam, através da luta política. E, numa altura, em que se apela a que mais jovens e mais mulheres participem na vida política, não deixa de ser um paradoxo que essas duas jovens mulheres sejam criticadas apenas por serem filhas do antifascista e revolucionário Camilo.
13 setembro 2019



sexta-feira, 12 de julho de 2019

Participação.

Foi há pouco mais de um mês que se realizaram as eleições para o Parlamento Europeu. Percentagem de votantes: 51% (global); 31% (Portugal); 55% (Suécia, onde, nas legislativas de 2018, se registou uma participação de 87%). Sobre estes números, diversas podem ser as explicações (de natureza económica, social ou religiosa) mas aquela que mais justifica tal diferença é, sem dúvida, a política. De facto, 48 anos de ditadura no nosso país, fazem a diferença e contribuem para que, no Índice de Democracia 2018 (da revista The Economist), numa escala até 10, Portugal tenha as pontuações de 6,11 e 6,88 e a Suécia tenha 8,33 e 10, nos parâmetros Participação Política e Cultura Política, respetivamente.
Deixando de lado explicações mais simplistas e populistas (ampliadas nas redes sociais), a dicotomia “eles/nós” (explorada por João Miguel Tavares no 10 de junho), interessa relembrar apenas dois dos fatores que levam a este aparente divórcio dos portugueses pela vida política.
Desde logo, os fenómenos de corrupção e de enriquecimento ilícito (não exclusivos de políticos), acrescidos por uma sensação de impunidade, contrários ao nobre desígnio de “servir o povo e não servir-se do povo”, enunciado pelo padre Max (assassinado pela extrema-direita em abril de 1976). Depois, os vários episódios de nomeações familiares (extensivas a vários partidos), a que se junta outro fenómeno (este menos divulgado e conhecido), as nomeações para gabinetes governamentais de jovens recém-licenciados (normalmente oriundos das “jotas”), como “especialistas”, ainda que sem conhecimentos ou experiência profissional, mas com “generosos” vencimentos.
A estes fatores, juntam-se outros, de natureza regional e/ou local que levam igualmente aos apelos de abstenção, voto nulo ou branco. Por razões muitas vezes incompreensíveis para o “cidadão comum”, arrastam-se situações de incapacidade dos poderes públicos perante problemas, que revelam o esquecimento ou até o ostracismo a que é votado o interior do país.
Como explicar, por exemplo, que a ligação ferroviária direta a Lisboa, após mais de século e meio desejada (e apenas concretizada entre 2004 e 2010) tenha sido suprimida e substituída por outra, caraterizada por avarias, atrasos, desconforto e (de novo) por um transbordo? Ou que a ligação de Beja à A2 tenha sido iniciada, interrompida e que, depois de retomada (parcialmente) esteja ainda sem uso, não obstante já estarem concluídos há longos meses treze quilómetros dos menos de cinquenta desse troço da A26?
Para além de outros temas, como as indefinições sobre o aeroporto ou as carências e debilidades na saúde, registe-se que os dois temas atrás citados já atravessaram três legislaturas e três governos. Falando apenas no último, como classificar a atitude de um primeiro-ministro que, durante o seu mandato, praticamente ignorou Beja nas suas deslocações oficiais? Ou do ministro da tutela que apenas veio a uma reunião com autarcas poucos dias antes de deixar as suas funções, para se dedicar à campanha das eleições que o levariam ao Parlamento Europeu?
Por outro lado, quando os cidadãos se mobilizaram para defender essas causas coletivas, formando movimentos e levando a cabo várias iniciativas, essa participação foi alvo de todo o tipo de reações, vindas sobretudo das forças políticas : alheamento, desconfiança, hostilidade, oportunismo, de tudo um pouco se assistiu, quando deveria ter havido um apoio incondicional e desinteressado desde a primeira hora.
Há outros aspetos que não incentivam os cidadãos à participação na discussão de temas essenciais para o futuro da sua terra. Como, por exemplo, realizar uma sessão de esclarecimento/debate (promovida por uma comissão nomeada pela Assembleia da República) sobre a Regionalização, às catorze horas de uma segunda-feira? Quem estava a trabalhar a essa hora dificilmente poderia comparecer (ainda que estivesse interessado).
Por outro lado, a nível local, ainda que em altura de eleições se apele à participação cívica, se promovam encontros para “ouvir” os cidadãos sobre diversos temas, ou se prometa um orçamento participativo (para escolher entre o polidesportivo ou o centro de convívio), assuntos muito próximos dos munícipes são pouco (e de forma deficiente) esclarecidos, levando às mais diversas especulações, em particular nas redes sociais (mas não só), dado o casulo em que muitos dos decisores eleitos se encerram (a que se junta alguma autarcia política).
Citemos apenas alguns que deveriam ter sido alvo de um claro e cabal esclarecimento: a demolição do depósito de água, a passagem da gestão de Pisões para a Universidade de Évora e do Museu Regional para o Ministério da Cultura, o futuro do Centro de Artes e do fórum romano (ainda sem decisão). Em todos estes assuntos, faltou informação e, na maior parte deles, os munícipes só tiveram conhecimento do que foi decidido depois de notícias na comunicação social, como factos consumados.
     
                      Foto : João Espinho

 
Voltando ao início, se quase meio século de ditadura impediu (e até reprimiu) os cidadãos de terem voz ativa na vida da sua aldeia, cidade, concelho ou até do país, daqui a cinco anos comemorar-se-á meio século de democracia. Para que esta seja mais do que o ato formal de depositar o voto nas urnas, importa refletir sobre a forma de incentivar e promover o que de mais importante têm os regimes democráticos: a participação do cidadão, o “animal cívico” descrito por Aristóteles no século IV a.C.
12 julho 2019