Arquivo Fotográfico do Diário do Alentejo

sexta-feira, 3 de maio de 2019

Abril : Revolução

Foto : Acácio de Almeida
Filme Raiva, de Sérgio Tréfaut, 2018
 “ Eu trocava um ano da minha vida por uma hora desse dia “. Esta foi a frase com que Raphael, um jovem de 30 anos comentou uma das muitas fotografias que Alfredo Cunha tirou no dia 25 de Abril de 1974 e que foi publicando na sua página do Facebook nas últimas semanas.
Nessa frase se expressa a magia que, ainda hoje, esse “dia inicial inteiro e limpo”, como lhe chamou Sophia, desperta em todos os que amam a Liberdade e a Democracia. Sim, porque foram estas duas as grandes, as maiores conquistas que os militares que, nessa madrugada que todos esperávamos, saíram dos seus quartéis para derrubar a ditadura que oprimia os portugueses, nos trouxeram.
Mas o 25 de Abril não foi apenas o golpe militar, preparado por jovens oficiais, alguns dos quais não tinham ainda os 30 anos de Raphael, que afastou do poder o sucessor de Salazar. Nas semanas e meses que se seguiram, Portugal viveu uma Revolução, com todas as caraterísticas (e consequências) que daí advêm. Como costumo dizer aos meus alunos, na época atual vivemos em “evolução”, com a História a “caminhar a 10 à hora”; em 1974 e 1975 essa mesma História fazia-se a uma velocidade dez vezes maior quando, muitas vezes, se agia primeiro e se pensava depois. Esses, eram os tempos da Revolução.
Quatro décadas e meia depois é curioso ouvir ou ler alguns dos protagonistas da época dizer ou escrever “se tivesse acontecido assim…” ou “devia ter sido assim…”, como se a História fosse feita de “ses” ou pudesse ser refeita ou reescrita de acordo com o que pensamos ser “politicamente correto” nos dias de hoje.
Por outro lado, aspetos importantes dessa Revolução não podem (nem devem) ser justificados com discursos simplistas ou ideológicos, enquadrando-os no chamado (e odiado por muitos) PREC, expressão já de si simplista (e pejorativa na maior parte das vezes), apontando-o como a causa de muitos dos “males” provocados pelo 25 de Abril.
Dois exemplos apenas, de mudanças provocadas pela Revolução e que deixaram traumas na sociedade, a tal ponto que, por vezes, falar delas ou discuti-las é ainda tabu : a descolonização e a reforma agrária. Quase meio século depois, não bastam as análises simplistas e/ou ideológicas, é preciso ir às suas causas mais profundas, que encontramos, precisamente, na História. Ainda esta semana, a propósito dos cinquenta anos da crise académica de 1969, Alberto Martins dizia : “ Só quem compreende o passado pode sonhar e construir o futuro “ (Público, 23 de abril).
No primeiro dos casos, foi dolorosa, sem dúvida, a viagem de regresso de milhares de pessoas, deixando para trás toda uma vida, memórias e afetos, como foram dramáticas as guerras civis que se seguiram nos novos países independentes. Só que, para se explicar esse momento dramático da nossa História (bem como a guerra colonial que o antecedeu), é preciso recuar algumas dezenas de anos, quando o ditador Salazar preferiu o isolamento internacional, recusando o que os países europeus fizeram nos anos 50 e 60 do século passado, a descolonização de África; ou ainda, ir um pouco mais atrás, aos anos de 1884/85, quando as potências europeias, na Conferência de Berlim, retalharam o continente africano, criando fronteiras artificiais e dividindo e separando etnias e tribos, causando algumas guerras que ainda hoje ocorrem em África.
África depois da Conferência de Berlim

Em relação à reforma agrária, descobrimos as suas causas na literatura (Seara de Vento, de Manuel da Fonseca) ou no cinema (Raiva, de Sérgio Tréfaut) : a pobreza da maioria do povo alentejano, que contrastava com a riqueza dos grandes proprietários agrícolas, apoiantes do regime (que os protegia com as suas forças repressivas, PIDE e GNR) e que contavam, ainda, com a cumplicidade de parte significativa da Igreja Católica.

Mas, para além destas duas obras, baseadas, de resto em factos reais ocorridos bem perto de Beja, num estudo académico de Antropologia Social, publicado originalmente pela Universidade de Oxford em 1971 e que, por razões óbvias, só em 1977 foi editado em Portugal (com o título “Ricos e Pobres no Alentejo”), José Cutileiro dá-nos uma pormenorizada visão da freguesia alentejana por si estudada (com o pseudónimo de Vila Velha), nomeadamente na primeira parte, Posse da Terra – Estratificação Social. Como escrevia a revista The Political Quarterly em 1976, “ José Cutileiro (…) estudou uma sociedade dominada ainda pelo analfabetismo, pela superstição e pela miséria, cujas reivindicações políticas eram implacavelmente reprimidas “. E citando o autor, “… quem quer que esteja familiarizado com os trabalhadores sabe que estes reprovam vivamente a actual distribuição da terra (…) São unânimes em sustentar que, pelo menos os grandes latifundiários deveriam ser sistematicamente expropriados da maior parte das suas terras “.

É pois, com este espírito, despido de complexos e de preconceitos, que deve ser analisada a complexa época vivida no nosso País, logo a pós a data libertadora do 25 de Abril. E, voltando à frase do jovem Raphael, partilho um sentimento pessoal : com vitórias e derrotas, sonhos e desilusões, considero um privilégio ter vivido e participado na Revolução que queria terminar com a sociedade onde, como Soeiro Pereira Gomes retratou, eram muitos “…os filhos dos homens que nunca foram meninos “.
3 maio 2019


sexta-feira, 29 de março de 2019

Um Museu que preserve e dignifique a memória e a obra de Jorge Vieira.


“ Liberdade essa [devida aos capitães de Abril] que permitiu ter-se erguido em Beja, o monumento ao 25 de Abril, que é uma referência aos prisioneiros políticos de todo o mundo… “

Estas palavras mostram o afeto que Jorge Vieira nutria por Beja, a cidade que acolheu e erigiu, em 25 de Abril de 1994, essa sua obra, premiada num concurso realizado em Londres, no ano de 1953, quando ele era um jovem artista de 30 anos, e que esteve mais de quatro décadas apenas em forma de maquete (exposta, aquando do concurso, na Tate Gallery).

E foi precisamente que, graças a esse gesto da autarquia, em particular à “…intervenção de José Manuel Carreira Marques (…) viria a desencadear o processo que findou na doação, ao Município de Beja, de um grupo de esculturas e desenhos…” (excertos de um texto do artista para o Catálogo de Desenhos editado por altura da exposição realizada em novembro e dezembro de 1999).

Passado pouco mais de um ano da inauguração do monumento referido, abria no dia 25 de maio de 1995, num edifício adquirido para o efeito, a Casa das Artes/Museu Jorge Vieira, que iria acolher essa coleção doada a Beja.

Para além de acolher a exposição permanente das obras do artista, este novo equipamento cultural municipal desenvolveu um importante trabalho no campo da promoção e divulgação das artes plásticas, fruto, não só da sua direção artística (Noémia Cruz e Rui Pereira), mas do apoio e incentivo do poder autárquico. Por falta de espaço, refiro apenas as exposições temporárias, quer de consagrados – Rogério Ribeiro, Sá Nogueira, Daciano da Costa, Rui Chafes, - quer de artistas locais e regionais – António Paizana, Heitor Figueiredo, Susana Monteiro, Tiago Mestre (num caso e noutro, entre muitos outros).

Só que, ao longo dos anos, vários problemas de natureza estrutural do edifício (não obstante as obras realizadas e a mudança da coleção para o piso superior) criaram problemas que se foram agravando, (nomeadamente no último mandato autárquico), que levaram (e bem) que o atual executivo municipal tivesse encerrado o museu, poucos meses depois de ter tomado posse. Mais de um ano depois, impõe-se, pois, uma reflexão acerca do futuro do Museu Jorge Vieira.
Em minha opinião, esse futuro passa pela sua instalação no edifício recuperado pela autarquia no centro histórico (Rua do Sembrano), apoiado por fundos comunitários, numa operação designada por “Casa Criativa” e que visava a                    "Reabilitação do edifício do antigo clube Bejense e sua reutilização para novos usos”. Só que, estranhamente (ou não), em julho de 2017, é aí instalado o Centro UNESCO, criado um ano antes. Não obstante a atividade desta entidade, creio que, não só o espaço está claramente subaproveitado, como as suas caraterísticas estão mais vocacionadas para receber o Museu Jorge Vieira, dando-lhe a dignidade e a visibilidade que merece.

Resolvida questão da acessibilidade a pessoas com mobilidade reduzida, o edifício possui espaços para acolher a coleção de escultura e de desenho, para a realização de exposições temporárias, para o acolhimento de criadores (não só desta área) para residências artísticas, para a promoção de oficinas e ateliers e, eventualmente, para a criação de um espaço para a exposição de obras de artistas locais (ideia expressa por Jorge Castanho numa entrevista ao Diário do Alentejo há alguns meses).

Desconheço quais as intenções do executivo municipal sobre este assunto e não sei qual o ponto da situação do edifício da Praça da República (que já foi “de arqueologia e artes” e que perdeu depois esta última valência), mas julgo que seria tempo de inverter a decisão de 2017, para que, com um bom projeto museográfico, a memória e a obra de Jorge Vieira fossem recuperadas (como merecem) e dadas de novo a conhecer aos bejenses e a todos os visitantes da cidade.
Duas notas finais, de toda a justiça. A primeira para relembrar o excelente trabalho de Jorge Castanho, anterior ao Museu Jorge Vieira, que colocou Beja na primeira linha da arte contemporânea, enquanto Diretor da Galeria dos Escudeiros, ao organizar um conjunto de iniciativas que trouxeram à cidade o trabalho de alguns dos mais conceituados artistas nacionais (entre elas, a Retrospetiva da Arte Portuguesa no Anos 50, organizada numa parceria entre a CMB e a Gulbenkian, em outubro e novembro de 1992, onde estava patente a maquete do monumento de Jorge Vieira, referido no início deste artigo).

A segunda, para sublinhar o bom trabalho que André Tomé tem vindo a realizar no Centro UNESCO e que merece, claramente, continuar. Onde? Num espaço que, depois de recuperado devidamente, tem as condições necessárias para o tipo de atividades desenvolvidas no âmbito do Património Imaterial, sem perder a qualidade que as tem marcado: o edifício municipal da Rua do Touro onde foi instalado, em 1995, o rico espólio de um dos grandes artistas nacionais contemporâneos, Jorge Vieira.
29 março 2019


sexta-feira, 1 de março de 2019

Serviços mínimos.



Daqui a pouco mais de dois meses passam nove anos da suspensão das ligações ferroviárias diretas entre Beja e Lisboa. Que, de resto, tinham apenas seis anos de existência: entre 1864 e 2004, essa viagem era feita com um transbordo no Barreiro, onde se apanhava o barco até ao Terreiro do Paço.
Só com a abertura da Ponte 25 de Abril à ferrovia é que esse sacrifício acabou e deu lugar a viagens mais rápidas e cómodas, “privilégio” que foi sol de pouca dura. Com o início das obras de eletrificação do troço Bombel-Évora, em maio de 2010 (que duraram mais de um ano), terminaram as ligações diretas Beja-Lisboa, substituídas por uma (por vezes penosa) viagem até Casa Branca, seguida de transbordo para o comboio vindo de Évora.
Foi na sequência do anúncio deste retrocesso, feito no início de 2011, que se iniciou um movimento cívico de protesto que, num mês, realizou duas concentrações públicas, recolheu mais de quinze mil assinaturas (as primeiras centenas na manhã fria e chuvosa do dia das eleições presidenciais desse ano), entregues no dia 16 de fevereiro ao então presidente da Assembleia da República, Jaime Gama, reuniu com os grupos parlamentares, secretário de estado, presidente do CA da CP, entre outras iniciativas.
Que queriam, com todas estas ações (repetidas várias vezes, nesses e em outros formatos, ao longo dos anos), os cidadãos? Tão somente que não fosse eliminada a ligação direta por comboio de Beja a Lisboa (que servia igualmente Cuba, Alvito e Viana do Alentejo, bem como os concelhos limítrofes). Eram esses os “serviços mínimos” exigidos em dezenas de reuniões, comunicados, ações de rua e que foram transmitidos, aos secretários de estado Correia da Fonseca e Sérgio Monteiro, em março e julho de 2011. O resultado, esse, todos nós sabemos.
Depois, à revolta que esta injusta decisão provocou (a que se juntou o fim da ligação à Funcheira), outras situações ocorreram, como a interrupção da construção da A26 e de parte do IP2 (esta, mais tarde concluída), a “novela” da abertura do troço de 13 quilómetros de ligação à A2 (adiada para as calendas gregas), para além dos atrasos, avarias, interrupções na viagem Beja-Casa Branca. Não admira, por isso, a perda de 18 mil passageiros nesta ligação, noticiada na última edição do Diário do Alentejo.
Ao mesmo tempo, nos vários planos apresentados pelos governos, em 2014 e em 2016, bem como na reprogramação do Portugal 2020, efetuada em 2018, as justas pretensões por que os bejenses (e não só) lutavam, eram ignoradas e, só muito recentemente, se falou no concurso para a aquisição de comboios (que, como o DA também noticiou, só lá para 2023 chegarão) e a eletrificação da linha (bem como um conjunto de outras obras, entre as quais a A26) foi incluída num “pacote”, incluído no chamado PNI 2030, que o ex-ministro Pedro Marques veio apresentar aos autarcas da região poucos dias antes de deixar o governo (ele que, durante os mais de três anos de funções governativas, nunca tinha vindo a Beja).
Perante este cenário e, tendo em conta a mudança da equipa ministerial da área (ainda que com um limitado período temporal – até às eleições legislativas de setembro), coloca-se a questão: é ou não possível reverter a situação, de modo a voltar a haver, pelo menos três ligações diretas Beja-Lisboa-Beja? Em minha opinião, é. Basta, para isso, que haja a vontade política que tem faltado nos últimos anos, aliada à “discriminação positiva” para o interior, tão falada, mas tão pouco praticada.
É claro que o ideal seria numa linha eletrificada mas, à falta desta (e dos tais comboios híbridos, anunciados há um ano), porque não recorrer ao que existe e que fazia as citadas ligações diretas entre 2004 e 2010? Em artigo publicado no dia 19 de fevereiro no jornal Público, Carlos Cipriano escreveu : “Pedro Nuno Santos vai ter de decidir se quer aproveitar o material que a CP tem imobilizado e que pode ser colocado a transportar passageiros (…), 30 carruagens Sorefame (…) quatro locomotivas a diesel (…) além de outro material que está parado”.
Tem a palavra, pois, o novo ministro. Será ele capaz de corrigir esta injustiça, que já dura há quase oito anos? Será que continuará esta contínua degradação do transporte ferroviário (mais próximo de um país de Terceiro Mundo), condenando-o a uma morte lenta, que levará, no limite, ao encerramento de mais uma linha?
Ao contrário dos revolucionários do maio de 68, em Paris, não “exigimos o impossível”, somos “razoáveis”, apenas gostaríamos de sair de Beja, de comboio, às 8 da manhã e, pouco mais de duas horas depois, estarmos em Sete Rios ou no Oriente (como em 2004). São estes os “serviços mínimos” que se pedem a Pedro Nuno Santos.

1 março 2019


sábado, 5 de janeiro de 2019

Participação cidadã e redes sociais: uma contradição insanável?


No início deste ano foi divulgado um estudo da revista The Economist, sobre o índice de democracia no mundo, relativo a 2017, que colocava Portugal no 26º lugar, entre os 167 países analisados. Fora do grupo de dezanove países considerados “totalmente democráticos” (liderado por três países nórdicos), encontramo-nos no segundo, o dos países onde existirá uma “democracia com falhas”. Para esta posição contribuem dois dos cinco itens que integram esse estudo: participação política e cultura política, com 6,11 e 6,88 (em 10,00), respetivamente.
Acontece que, em minha opinião, a pontuação obtida no primeiro dos itens não está de acordo com o que tem acontecido nas duas últimas eleições autárquicas (2013 e 2017) no concelho de Beja (que é aquele que conheço melhor), em que se tem registado uma significativa participação nas listas, em particular para as das assembleias de freguesia, onde concorreram inúmeros cidadãos jovens e muitos outros nascidos já depois do 25 de abril. Ou seja, numa época em que muitos destes candidatos criticam e desconfiam (e, em alguns casos, com razão) da chamada “classe política” (sobretudo deputados e governantes), esses mesmos cidadãos não se excluem de participar na luta por melhores condições para as freguesias onde residem ou onde nasceram, num ato de cidadania de louvar.
Uma maior participação cidadã, em Beja ou em outra qualquer parte do país é sempre de enaltecer, o que poderia ser reforçado com a “democratização da opinião” proporcionada pela internet, nomeadamente pela blogosfera e depois pelo facebook, pelo facto de o acesso a estes novos meios de comunicação ter trazido novas possibilidades para a difusão e para o debate de ideias, em liberdade e quase sem limites.
Só que, infelizmente, não é isso que se passa, gerando-se uma improvável e insanável contradição entre o que parecia ser um importante contributo para a participação cidadã e os resultados obtidos nas redes sociais. Isso mesmo foi abordado, de forma bem clara e assertiva, num artigo de opinião do Doutor Hugo Lança, no passado dia 20 de novembro, neste mesmo jornal, sintomaticamente intitulado “Liberdade de expressão – RIP”.
Ao ler este artigo, lembrei-me de duas coisas. A primeira, uma publicação que fiz na minha página do Facebook há mais de dois anos, criticando Putin e Assad aquando da destruição de Allepo, na Síria. Pois bem, alguém com quem tinha cordiais relações pessoais e profissionais, baseadas no respeito mútuo, reagiu de uma forma de tal modo agressiva que, se me tivesse acusado de agente da CIA essa seria a menor das diatribes com que me brindou. Como escreveu Hugo Lança, “… qualquer pensamento diferente do meu é cobardemente atacado pelas hordas, com uma trivialidade e uma superficialidade inebriante, sem um milésimo de esforço para compreender a raiz dos argumentos”.
A leitura do artigo de HL remeteu-me para um outro, que lera há alguns anos, na publicação digital cartamaior.com.br , intitulado “A semente do ódio” (Luiz Claudio Tonchis, 4 de agosto de 2015). Ainda que reportado à realidade brasileira (e premonitório do que viria a acontecer na última eleição presidencial nesse país), descobre-se aí algo que viria a ser abordado mais tarde por outros: o fascismo das redes sociais, “não necessariamente político”, mas que “emerge do comportamento social”. Um comportamento marcado pelo “… racismo, xenofobia, dificuldade em aceitar as diferenças, desejo de exclusão ou descarte daquilo que não lhe agrada, intolerância e o fundamentalismo religioso, preconceito, etc”.
Não admira, pois, que, em Portugal (como no Brasil) existam tantos comportamentos intolerantes nas redes sociais, em especial quando se trata de política (nacional ou local), dando razão ao estudo da Economist atrás citado, em que, no item “Cultura Política”, atribui ao nosso país o nível 6,88, longe do 10 (o máximo) dos três países lideres (mas também da Irlanda). Voltando ao artigo da Carta Maior, LCT vai mais longe ao escrever que “O analfabeto político é aquele que não entende de história política, que não sabe interpretar os acontecimentos históricos e contextualizá-los”.
Por isso, nesta época de intolerância, nada melhor que recuar 255 anos e, como fez Hugo Lança no seu artigo, terminar com Voltaire (e, desta vez, com palavras do próprio) : “Seria o cúmulo da loucura pretender pôr todos os homens a pensar de maneira uniforme (…). Mais facilmente se conseguiria subjugar o universo inteiro pela força das armas do que subjugar todos os espíritos de uma só cidade” Tratado Sobre a Tolerância, 1763.
Ilustração de Paulo Monteiro


4 janeiro 2019



sexta-feira, 7 de setembro de 2018

Doutor Joaquim Mestre! Olhe que me prometeu uma entrevista… (1)


Caro leitor.
Imagine que se apresta para ler um romance. Que, como qualquer obra literária do género, terá um ou mais locais onde se desenrola, personagens principais e secundários, e um enredo, com princípio meio e fim.
Imagine que essa obra tem como palco principal o Baixo Alentejo, em particular “… caminhos de Serpa ou Moura, as Pias ficam no meio, Beja já lá para trás…”,  mas onde surgem igualmente Aldeia Nova de São Bento “que depois foi promovida a vila”, a  “gloriosa vila acastelada de Portel”, as “águas do Sado, perto de Alvalade [terra natal do autor do livro], onde lhe chamam Ribeira”, a Lisboa da Pastelaria Suiça, da Casa das Meias e dos bailes da Casa do Alentejo, mas também Pangim, Nova Goa, “nas suaves margens do Mandovi” ou o Cuando-Cubango.
É ainda na margem esquerda que se situa a “aldeia de São Jorge do Alardo, concelho de Moura (…), um lugarejo perdido”, junto à qual vai ser recuperado o monte onde se desenrola a maior parte do romance e  de onde se observa “uma nesga do Guadiana”. O monte situa-se no meio de “trevos, estevas e escalrachos (…), de alfazemas, giestas e alecrins”, onde se levantam “lebres e perdizes e codornizes, abelharucos ditos melharucos, toutinegras e melros” e onde existem “brancuras estreitas de muros, casas corridas, baixinhas, sob o tremelicar comprido de telha moura”.
Quem recuperou este monte foi o Coronel Bernardes e sua esposa Maria das Dores, a “baronesa” (a cuja família pertencia a propriedade). Ele, que depois de participar numa guerra entre “um amontoado de brancos de barba por fazer, de armas na mão” e “uma amálgama de negros com Kalashs e morteiros às costas”, “veio desabar no meio de uma revolução festiva, estouvada, alegre e algo confusa”. Depois da reforma tornou-se administrador do “condomínio da Rua de Santo Estevão à Lapa” e foi precisamente no dia em que os condóminos o humilharam, demitindo-o de tão nobres funções, que tomou a decisão: “Ala para o Alentejo”.
Maria das Dores, formada em História da Arte e a fazer um mestrado na Universidade de Évora, carateriza-se pela sua linguagem direta, “Ó filho, falas bem mas não me aquentas… para mim vens de carrinho”.
Outros personagens principais do romance são o Coronel Lencastre, camarada de armas de Bernardes e sua esposa Maria José, que vão também recuperar um monte, perto do outro, deixando para trás o Bairro Azul, em Lisboa, e Emanuel, um jovem vedor, mestre de xadrez e conquistador, que percorre estes campos numa “carrinha Renault 4 de cor beje, muito empoeirada”.
É junto ao monte que, por conselho médico, Bernardes e a baronesa vão construir uma piscina, lugar central da trama. Ainda que a tenham utilizado apenas uma vez, é aqui que os dois coronéis passam o seu tempo, a beber o “uísque novo” e a ler os dois jornais diários que Maria das Dores vai buscar a Serpa, “de jipe, de dois em dois dias”. E foi também na Vila Branca que ela abriu “uma conta à ordem, na Caixa Agrícola Mútua” e que o coronel descobriu a empresa “Tubos e Jardins, que representava uma marca alemã de piscinas que dava todas as garantias”.
São desta firma os dois trabalhadores “polivalentes” que vão preparar o trabalho para o pedreiro, após a abertura do “grande abismo da piscina”, por uma retroescavadora “com a pá descomunal, munida de garras”.
Durante esse trabalho, as picaretas vão descobrindo ânforas, tijolos e “umas pedrinhas coloridas que formavam a figura de um bicho do jardim zoológico (…) um carro puxado por ele (…) uns cachos de uvas”. Descobertos pela velha empregada do coronel, que quando era “moça pequena, e o lavrador do Monte dos Chocalhos encontrou um pote dos mouros que havia de baixo de uma oliveira e aquilo eram só libras de ouro a correr”, viram-se obrigados a repartir pelos três o tesouro que encontrassem. Tal não veio a acontecer, porque os “sacanas dos mouros (…) não deixaram foi nada prá gente” e, por isso, “foi o mosaico que pagou as favas”, entrando os homens “numa fúria destruidora, selvagem e arrebatada, de modo a que não ficasse caco sobre caco”. Assim se foi a villa romana, antepassada do monte.
Este enredo transforma-se com frequência em fábula, com a entrada em cena de um melro “bem falante e trocista” e de um mocho, que habitam numa “oliveira velha”, cujos “possantes ramos”  serviram “para forca de doze liberais capturados por um bando de frades assassinos a mando do Senhor Rei D. Miguel”. Essas duas aves vigiam de forma permanente o que se passa no monte e junto à piscina, relatando com todos os pormenores, de noite ou de dia, quando uma ou outra quer dormir, “amanhã a gente fala”.
Um dia o melro conta a história que se passou “no Monte dos Matamouros, ao pé de Viana do Alentejo”. Nesse monte viviam um lavrador e a sua mulher, “que eram doidos por modas alentejanas”. Como não tinham filhos, “o dinheiro da cortiça, do azeite e do vinho” servia para “manter três ranchos de cantadores, que passavam os dias nas modas, e os lavradores com eles”. Farta de ser acordada e à “sua desvelada criação” todas as manhãs “pelo fortíssimo do cantochão sempre em crescendo”, “falou a sete das suas comadres”, que todas as noites “estridulavam gritos de arrepiar e sopravam bafos medonhos (…) a partir da moda Lá Vai Serpa, lá Vai Moura e as Pias Ficam no Meio”. “Era a maldição. A casa foi dada como assombrada (…) Os lavradores desandaram para a sua casa na vila (…) e o monte ficou entregue a um rendeiro mouco”.
A cidade de Beja está presente em vários momentos deste romance. Desde logo, na piscina, onde foi edificado um “monumento”, que era “uma justaposição de livros de mármore, todos do escritor José Saramago, que se empilhavam, sabiamente desalinhados, quase à altura de um homem”; depois, com a “arrebatada Soraia Marina, acompanhada pelo conjunto Os Rabejadores do Cachimbo”, que “acenava dum Uno amarelo descapotável” e que fazia sucesso em todas as festas (como na da “vilória” de Grudemil, onde manda um tipo “armado em cacique”) e que “um símile fonético logo faz convocar uma certa Soror Mariana”; e é ainda a Beja que a baronesa se desloca para um funeral que durou “até á noite”, o que deixa o coronel desconfiado, até porque ela “tinha sempre o telemóvel desligado”, ao que ela responde : “Coitada daquela família. Choravam… Senti uma dificuldade do camandro em deixá-los. Até me sinto repesa (…) acha próprio um telemóvel num velório, quer dizer, num enterro… Acha”?
Certo dia, o mestre de xadrez desloca-se a Beja para uma simultânea. Neste momento, a ficção toca a realidade, quer pela “sopa de cação nos Infantes”, quer pela “conferência no Politécnico”. Mas é sobretudo, quando ele se dirige à biblioteca “que, na cidade, é aonde todos os caminhos vão dar”, para entrevistas “para os dois jornais locais”, que somos confrontados com este excerto, quase no final do romance:
“ Um homem, ainda novo, de cabelo à escovinha e barba de três dias, ia a entrar, com dois pacotes de papel pardo que pareciam pesados.
- Doutor Joaquim Mestre! – gritou ela [a jovem jornalista entrevistadora] com uma risadinha.
- Olhe que me prometeu uma entrevista…
O homem voltou-se e sorriu, sem parar de subir os degraus.
- Amanhã logo se vê. Amanhã.
E desapareceu, portas vidradas adentro “

Este texto foi escrito no último dia de mais uma edição das Palavras Andarilhas. Dedico-o à sua alma e grande obreira, a Cristina Taquelim, ao autarca que deu corpo a essa e a outras iniciativas que colocaram Beja no mapa cultural do país, Carreira Marques e, principalmente a quem dirigiu a “biblioteca sem sono” que, com as Andarilhas e demais atividades, transformou Beja numa “cidade sem sono”, Joaquim Figueira Mestre.

1)   Mário de Carvalho, Fantasia para Dois Coronéis e Uma Piscina, Coleção Essencial – Livros RTP/Leya, nº 14, 2016, pág. 179 (1ª edição 2003)


7.9.2019







sexta-feira, 29 de junho de 2018

O comboio em Beja : tragicomédia em cinco atos e um epílogo anunciado (??)


Antes
Depois (foto : CEC Vítor Cruz)
 












Prólogo :
1864 – chegada do comboio a Beja ; 1889 – ligação ferroviária Faro-Beja-Barreiro (entre 1864 e 2004, era efetuado um transbordo no Barreiro, para a ligação fluvial a Lisboa).
2004 – início da ligação direta Beja-Lisboa, através da Ponte 25 de Abril , em comboios intercidades, rápidos e confortáveis. 2010 – suspensão desta ligação, devido aos trabalhos de eletrificação do troço Bombel-Évora. 1990 – encerramento do ramal de Moura (em funcionamento desde 1902); 2011 – fim da ligação Beja-Funcheira.
1º Ato : Janeiro 2011.
Dia 7 – A CP anuncia, em comunicado para a Agência Lusa, o fim da ligação direta Beja-Lisboa, substituída por uma viagem em automotora até Casa Branca, seguida de transbordo para o comboio intercidades vindo de Évora. Dia 18 – Reunião pública na biblioteca de Beja, para discussão do tema e formação de um grupo de cidadãos, com vista ao regresso da ligação direta e à eletrificação da linha até Casa Branca. Dia 26 – Concentração da população junto à estação da CP de Beja (repetida no dia 14 de Fevereiro).
2º Ato : Fevereiro/Março 2011.
16 Fev – Entrega da petição com 15071 assinaturas (mais 3561 online) ao Presidente da Assembleia da República, Jaime Gama; reuniões com os grupos parlamentares e com o Conselho de Administração da CP.
3 Mar – Reunião com a Comissão Parlamentar de Obras Públicas, Transportes e Comunicações.
25 Mar – Reunião com o Secretário de Estado dos Transportes (Governo de José Sócrates), Correia da Fonseca. Proposta do grupo de cidadãos : que, dos anunciados cinco comboios Évora-Lisboa (acabaram por ser quatro), dois partissem de Beja, ainda que em locomotivas diesel, ou mistas; que a linha Beja-Casa Branca fosse eletrificada.
Resposta do SE: veria com Conselho de Administração da CP se era possível retomar as duas ligações diretas propostas; quanto à eletrificação não podia comprometer-se, porque ia haver eleições e um novo governo.
3º Ato : Julho 2011.
Dia 24 – Reinício das ligações ferroviárias a Lisboa. Confirmava-se que Beja perdia a ligação direta à capital.
Dia 26 – Reuniões com os grupos parlamentares e com a Comissão Parlamentar de Economia e Obras Públicas.
Dia 29 – Reunião com o Secretário de Estado das Obras Públicas e Transportes (Governo de Passos Coelho),
Sérgio Monteiro.
Propostas do grupo de cidadãos: as mesmas feitas ao anterior SE. Resposta : governo iria elaborar plano de transportes, para ser incluindo no Portugal 2020, onde a eletrificação da linha Casa Branca-Beja poderia ser incluída. De imadiato, comboios diretos fora de questão.
3º Ato : Abril 2014.
Apresentação do PETI (Plano Estratégicos dos Transportes e Infraestruturas) - seis mil milhões de investimentos em vários campos, ferroviário, rodoviário, portuário e aeroportuário. Entre Évora e o Algarve, ficava um imenso deserto, onde apenas constavam o IP8 (15 milhões) e o Aeroporto de Beja (3 milhões).
4º Ato : Fevereiro 2016.
Após as eleições de 2015, o governo de António Costa apresentava um plano ferroviário para o período 2016-2020 que, em linhas gerais, recuperava o PETI de 2014 : um investimento de 2700 mil euros, dos quais 1600 mil de fundos comunitários, em várias linhas – Minho, Norte, Algarve e Beira, que previa a eletrificação de 741 quilómetros, num total de 1193 intervencionados. Uma vez mais, nem um euro para os 60 quilómetros da ligação Beja-Casa Branca e para o retomar das ligações ferroviárias diretas a Lisboa.
5º Ato : Abril 2018.
Anunciado o plano de reprogramação do Portugal 2020 : na ferrovia previa-se um reforço de quase 300 milhões de euros. Destino : metros de Lisboa e Porto, linha de Cascais e “sistema de mobilidade do Mondego”. Mais uma vez, o “ramal” (que já foi núcleo central da Linha do Alentejo) Beja-Casa Branca a ficar de fora.
Epílogo anunciado (??) : Junho de 2018.
Governo deixa Douro e Alentejo de fora dos investimentos para 2030”, foi este o título de um jornal diário sobre um assunto já antes abordado pelo Diário do Alentejo. Muito embora essa notícia tenha sido “corrigida” mais tarde, no sentido de que, no passado dia 19 apenas se procedeu ao “…lançamento do debate público sobre os investimentos estratégicos para a próxima década…” (o chamado PNI – Programa Nacional de Investimentos 2030), não deixa de ser preocupante ler-se que, nesse programa, dos vinte projetos de investimento previstos no setor ferroviário mais uma vez não consta Beja-Casa Branca, uma linha “… que se arrisca a ficar uma “ilha” não electrificada a sul do Tejo, comprometendo a sua viabilidade e arriscando o encerramento “ (Carlos Cipriano, Público).
Chegados aqui, e face à progressiva degradação a que se tem assistido nos últimos tempos (bem documentada nas redes sociais), com constantes atrasos e avarias, que culminaram há poucos dias com a eliminação (temporária ?) do comboio Évora-Lisboa, substituído por automotoras, deteriorando ainda mais a viagem de e para Beja, a pergunta que se coloca é se há ou não, neste tema, aquilo que tem faltado desde há sete anos. A vontade política de quem decide (três parlamentos e três governos), para que torne realidade, de uma vez por todas, algo que, de tão anunciado, já pouco crédito vai merecendo entre os bejenses: a “paixão” pelo interior, tão evocado quanto esquecido e a diminuição das desigualdades entre territórios.
29 maio 2018


sexta-feira, 23 de março de 2018

A propósito da descentralização : concursos regionais para apoio à Cultura.


 "Defilló", pela Compañía Nacional de Danza Contemporánea del Ministerio de Cultura
FITA 2018 - Pax Julia Teatro Municipal, 13 março 2018 

Agora que a o tema descentralização está na ordem do dia (e não regionalização, como a Constituição indica), recordo uma experiência que, embora efémera, considero ter sido muito positiva e que, no quadro do que agora se anuncia, bem podia ser recuperada.
Falo da única vez em que os concursos para a atribuição de subsídios às estruturas profissionais na área da Cultura, nomeadamente do Teatro e da Dança, tiveram júris regionais e não nacionais, como até aí acontecia e voltou a acontecer, até ao presente. Foi no ano de 2004 e esses concursos visavam os apoios anuais, bianuais e quadrianuais, para 2005 e anos seguintes.
A propósito, e antes de mais, considero que os apoios financeiros à criação, formação e/ou programação por parte dessas estruturas deve fazer parte dos orçamentos, quer dos governos nacionais, quer dos locais, já que é com o seu trabalho que a diversidade cultural existe para além do entretenimento que monopoliza grande parte das programações, não só das televisões e, porque não dizê-lo, também de muitas autarquias. É pois, é minha opinião, abusiva, a designação de “subsidiodependentes” com que, muitas vezes se deprecia o trabalho dessas estruturas, esquecendo-se o seu trabalho no desenvolvimento cultural do País.
Voltando ao tema, em 2004 foram constituídos júris no âmbito das direções regionais da cultura que integravam, além do titular destas, representantes do IPAE (Instituto Português das Artes do Espectáculo), das universidades e das autarquias (caso o entendessem) em que as estruturas trabalhavam. O governo definia o número de companhias a apoiar, por setor, e a respetiva verba a atribuir.
O Município de Beja foi indicado para participar nesses júris por indicação de uma companhia de teatro local e de uma companhia de dança de Évora que mantinha no concelho uma atividade regular. Por delegação de Carreira Marques, então Presidente da Câmara, participei, assim, nos respetivos júris de apreciação.
No dia marcado para o efeito, presidentes de câmara ou vereadores de vários concelhos (Sines, Portalegre, Serpa, entre outros – Évora, estranhamente, não esteve presente), participaram nesse processo, integrando júris em participavam a Diretora Regional da Cultura, dois professores da Universidade de Évora e os indicados pelo IPAE (Gil Mendo, Luísa Taveira e João Ludovice, para as áreas do Teatro, da Dança e da Música, respetivamente).
Na maior parte dos casos, os representantes autárquicos estiveram pouco tempo (dez, quinze minutos) reunidos com os restantes membros do júri, aprovando as propostas apresentadas para as companhias sedeadas nos seus concelhos. No caso de Beja, a reunião demorou cerca de duas horas (para desespero do vereador de Serpa, que foi o último a participar). Se, em relação à CDC de Évora, a decisão foi rápida (até porque era a única estrutura da dança a candidatar-se a apoios), já no caso da Arte Pública a decisão foi demorada, tendo mesmo sido alterada a proposta inicial do relator.
Essa demora teve a ver sobretudo com os esclarecimentos prestados pelo representante da CM de Beja (baseados num dossier que coligia o trabalho dessa estrutura ao longo dos anos) aos restantes membros do júri, cujo conhecimento se baseava sobretudo da candidatura apresentada (que, por sinal, tinha algumas lacunas e debilidades).
No final dessa longa reunião, a proposta inicial foi alterada e, para além do apoio passar a ser bianual e não anual (o plano da candidatura era apenas para um ano), foi reforçado em dez mil euros, passando de noventa para cem mil/ano (2005 e 2006).
Para além desta situação, que revela a importância da participação das autarquias nos júris, enquanto parceiros das estruturas, cujo trabalho conhecem melhor do que um qualquer júri nacional que aprecia propostas no papel, a “regionalização” deste processo teve ainda outras virtudes. Por um lado, a possibilidade de reforçar o número de estruturas do Teatro a apoiar, passando de seis para sete, num montante de quase um milhão de euros e, por outro, a rapidez com que o mesmo decorreu (sendo mesmo a primeira região a concluí-lo), o fez com que as companhias apoiadas mais depressa conhecessem as verbas que iriam receber, para que pudessem iniciar ou continuar o seu trabalho sem sobressaltos.
Parecendo pouco, contrasta com o que ainda hoje acontece, com os júris nacionais, as indefinições e os atrasos que persistem, como há poucos dias se lamentava Jorge Silva Melo, dos Artistas Unidos, em declarações ao jornal Público.
Infelizmente, como escrevia no início, esta experiência dos júris regionais foi efémera, já que em 2006 voltaram os júris nacionais (em 2005 não houve concursos). Curiosa foi a justificação do então Secretário de Estado da Cultura para essa alteração : "Celeridade e menos burocracia" e "… a garantia acrescida de que as avaliações serão devidamente fundamentadas”. Para além de não ter sido devidamente avaliada a experiência, os resultados mostram que, como acontecia antes de 2004 e voltou a acontecer depois de 2006, tais premissas não se confirmaram.
Razões mais que suficientes para que, no quadro da descentralização agora tão apregoada, se equacione a possibilidade de que sejam retomados os júris regionais, no formato de 2004 ou noutro qualquer que se entenda melhor, caso, obviamente, os municípios entendam pertinente a sua participação e o governo assim o entenda.
           23 março 2018