Arquivo Fotográfico do Diário do Alentejo

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Uma PPP para o Museu Regional de Beja?

Não, não estamos a falar naquelas PPPs de tão má memória, de Scuts e quejandas, em que os lucros vão para o privados e os prejuízos ( que nós e as gerações futuras teremos de pagar) caem sobre o público. Até porque, infelizmente, no sector cultural não é muito habitual o investimento ou o apoio mecenático das empresas privadas.
Quando falo de uma PPP para o Museu Regional de Beja, refiro-me a uma “parceria público-pública” que, enquanto proposta, visa apenas a resolução dos problemas que têm assolado este equipamento cultural ao longo dos anos. E que, na minha opinião, corrigirá uma situação de injustiça que se tem mantido e que poucas vezes tem sido aflorada.
Antes de mais, importa esclarecer que esta proposta assenta em duas premissas : a primeira é que, ao contrário do que por vezes alguns responsáveis políticos regionais afirmavam (embora esta tese hoje esteja praticamente posta de lado), o Museu Regional, não deverá ser transformado em museu nacional ; a segunda é que, ainda que a regionalização esteja (por agora) na gaveta, penso que este museu, bem como outros equipamentos culturais deverão integrar uma futura entidade política regional, a exemplo do que acontece bem aqui ao lado, na Extremadura ou na Andaluzia.
Até porque, tal como está previsto na Constituição, o fim dos distritos (e das assembleias distritais), que está a decorrer, deveria acontecer na sequência da criação das Regiões Administrativas. Ora, além desta criação estar nas calendas gregas, não são as NUTs nem as CIMs que vão substituir esta importante reforma na organização política do nosso País.
Voltando atrás, a situação de injustiça a que me referia tem a ver com o facto de, contrariamente aos museus nacionais (onde se incluem os da maioria das capitais de distrito), financiados pelo orçamento do estado, o Museu de Beja, tem sido suportdo exclusivamente pelos orçamentos dos municípios do distrito (nomeadamente por Beja, o que é compreensível, mas que o anterior executivo municipal parece não ter compreendido, agravando os problemas existentes, quer ao nível do pagamento de salários, quer na manutenção do próprio edifício, o que está bem à vista de todos).
Esse financiamento nacional, para além do normal funcionamento, também se verifica nas grandes obras de recuperação (financiadas por fundos comunitários com alguns milhões de euros) que foram levadas a cabo, nomeadamente no Grão Vasco, em Viseu, no Machado de Castro, em Coimbra, ou no de Évora, todos eles intervencionados com projectos  de grandes arquitectos nacionais (Souto de Moura, Gonçalo Byrne e Raul Hestnes Ferreira, respectivamente). Para não falarmos, é claro, na faraónica e dispensável construção do novo edifício para o Museu dos Coches, em Lisboa (cerca de 31 milhões de euros).  Ora, todos sabemos que a contrapartida nacional de um projecto desse tipo no Museu de Beja teria, mais uma vez de ser suportada pelos parcos cofres municipais, o que, à partida, inviabiliza qualquer grande investimento que aí se pense realizar (e que bem necessário seria).
É por tudo isto que, na minha opinião, de modo a reparar a injustiça atrás referida, se justifica uma parceria entre entidades públicas que, com base num contrato-programa, viabilize o futuro do Museu Regional de Beja. Um contrato a médio-longo prazo (10/20 anos), que contemple o financiamento tripartido deste equipamento, pelo Estado, pelo Município de Beja e pelos restantes municípios que constituem a Assembleia Distrital, estes, obviamente, em valores percentualmente mais reduzidos que os dos outros dois parceiros. Esta solução implicaria a gestão pela autarquia bejense, através de um contrato de comodato estabelecido com os restantes municípios e, naturalmente, a passagem para os seus quadros do pessoal do museu, por meio de um mecanismo legal que ultrapasse os condicionalismos legais actualmente em vigor e que vão em sentido contrário, ou seja, a redução de pessoal.
Esta PPP deverá contemplar, igualmente, outros dois pontos: por um lado, a inclusão no contrato-programa da realização regular de obras de manutenção e de melhoria das condições expositivas das coleções do museu (em eventuais candidaturas a fundos comunitários, também) e, por outro, a garantia de que, no momento de uma eventual regionalização, este equipamento e respectivo pessoal passam para a gestão da futura entidade política a criar.
Este é apenas um contributo de um cidadão interessado em ver solucionado os problemas que têm afectado sistematicamente um importante monumento do nosso património regional e nacional, as suas magníficas coleções de pintura, o espólio dos trabalhos de Abel Viana ou de Fernando Nunes Ribeiro, o raro núcleo visigótico, bem como a estabilidade profissional dos seus funcionários. Em nome, também, da memória viva de Mariana Alcoforado, a Freira de Beja, que tantas páginas tem inspirado, divulgando a cidade e a região.
Têm a palavra, então, a Assembleia Distrital, a Câmara Municipal de Beja, a Direção Regional da Cultura do Alentejo, a Direção Geral do Património Cultural, a Secretaria de Estado da Cultura. Que se sentem à mesa e discutam esta ou outras propostas, em nome da Cultura, em nome da justiça, da não discriminação de cidades ou regiões, e da solidariedade nacional.
Duas notas finais. A primeira é a de que se elabore uma parceria idêntica para “salvar” Pisões, incluindo, por motivos óbvios, a EDIA no lugar da Assembleia Distrital. Para que, também nas estações arqueológicas, essa importante villa romana não continue a ser o parente pobre, ao lado de São Cucufate ou de Miróbriga, já para não falar de Conímbriga, todas elas sob a tutela do poder central.

A segunda nota é a de que, sem quaisquer fundamentalismos provincianos anti-Évora (que não tenho, antes pelo contrário), registo a recente notícia de se estar a preparar um novo projecto cultural para o Convento de São Bento de Cástris, onde esteve prevista a instalação do Museu da Música, projecto esse que resultará da parceria entre a CM Évora, a DR Cultura, a SEC e a CCDR Alentejo. Positivo, sem dúvida, e que reforça ainda mais o sentido da proposta desta parceria para “salvar” o Museu de Beja. Vamos a isto?
18 Abril    





Foto : http://www.museuregionaldebeja.pt/

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Confesso que vivi (3) - os primeiros comícios e sessões de esclarecimento

PCP - 1 de junho de 1974 :


"AO POVO DA REGIÃO DE BEJA... na Praça de Touros... o primeiro comício do Partido na cidade... que seja uma afirmação de força e da unidade combativa da classe operária e de todos os trabalhadores, na luta pela consolidação das liberdades democráticas, pelo reforço da aliança do movimento popular de massas com o Movimento das Forças Armadas, pelo fim da guerra e independência dos Povos das Colónias, pelo aprofundamento das conquistas populares."

PSP - 13 de junho de 1974 :


"Tendo em vista a necessidade de politização da população do Baixo-Alentejo... realiza-se... no Estádio Municipal, uma sessão de esclarecimento, para a qual se deslocam expressamente a Beja os socialistas... e outros valiosos elementos do Partido Socialista Português... POR UM PORTUGAL MELHOR... POR UM PORTUGAL SOCIALISTA"

PCP - 2 de agosto de 1974


"Aproveitar-se-á também esta sessão para vitoriar o fim da guerra colonial, e para discutir os problemas dos trabalhadores agrícolas e dos pequenos agricultores"



quarta-feira, 9 de abril de 2014

Confesso que vivi (2) - O 1º de Maio do nosso contentamento

O Diário de Notícias está a publicar, em papel e online, depoimentos de pessoas de várias áreas, inspirando-se nas entrevistas que Baptista-Bastos fez há uns anos, sob o tema "Onde é que você estava no 25 de Abril?
"Moço do meu tempo" (nascemos ambos em 1958), o cineasta e professor universitário João Mário Grilo também respondeu às questões do jornal ( http://25abril40anos.dn.pt/2014/03/29/viver-uma-revolucao-na-adolescencia-foi-um-luxo/#more-257 ) onde afirmou, nomeadamente, que "viver uma revolução foi um luxo".
Pode ser apenas uma questão semântica mas, para mim, que também vivi essa mesma revolução na adolescência, acho que, mais do que um luxo foi acima de tudo, um privilégio, ter assistido, vivido, participado nesses dias, meses e anos que mudaram a vida do nosso País, "orgulhosamente só", por acção de uma ditadura que já durara tempo demais.
E, se o dia 25 de Abril e os seguintes foram apenas o início, o primeiro 1º de Maio em democracia foi a explosão, a festa, a luta, o grito até então preso nas gargantas, mas não nas vontades.

Beja :


"O regime salazarista morreu ... Somos Livres ... A PIDE-DGS está presa ...  Acabou-se o MEDO...
Vamos para a rua UNIDOS, festejar o 1º de Maio (Dia Mundial do Trabalhador)

Este documento era assinado por Os jovens do Movimento Democrático (CDE) de Beja


Lisboa : 

     

" Unidade dos trabalhadores. Unidade do povo. Unidade de comunistas, socialistas, católicos, liberais ( a frente unitária que vem do tempo da ditadura ), unidade de todos sem excepção que, nesta hora decisiva para o futuro de Portugal, querem lutar para consolidar os resultados históricos alcançados com o movimento do 25 de Abril e nos seis dias então decorridos. "

Confesso que vivi (1) - O dia inicial, inteiro e limpo

PCP - 25 de Abril de 1974 ( este documento ainda foi impresso no suave papel que dava vida ao Avante clandestino) :

"Às massas populares, ao Povo Português, cabe tomar bem nas suas mãos o seu destino e libertando-se para sempre dos seus inimigos - o fascismo, o colonialismo, o imperialismo - abrir caminho para uma vida diferente"

PRP  - 25 de Abril de 1974 : 

  

"Mas [o povo] terá de compreender que a exploração continua, que a burguesia se mantêm no poder e que os trabalhadores nada têm a ver com a revolta nem com o novo regime"

Movimento CDE de Lisboa - 26 de Abril de 1974 


" Manifestemos e exprimamos por todas as formas nas ruas a nossa alegria por esta primeira grande vitória. O caminho da liberdade é hoje o caminho da rua"




Confesso que vivi


Não, não vou falar do livro autobiográfico de Neruda, o poeta-mártir, morto pela doença e pelo desgosto, que partiu pouco depois de Allende, o presidente-mártir, que caíu no seu posto em La Moneda, ambos acompanhados por Jara, o cantor-mártir, torturado e assassinado no estádio. Por todos eles, heróis da minha juventude, me emocionei ao ver poucos anos após o golpe traidor, o filme Chove em Santiago ( http://www.imdb.com/title/tt0073149/ ) .
Falarei sim, dos dias, dos meses e dos anos que vivi e que abalaram o meu mundo de tal forma, que os seus sons ainda hoje ecoam na minha vida. Confesso, sim, que vivi uma revolução que me apanhou pouco depois de fazer dezasseis anos e cuja memória não quero, não devo, não ouso apagar e, muito menos, renegar.
Foram dias em que a velocidade dos acontecimentos superou a vontade dos homens, em que a vertigem da mudança ultrapassava qualquer razão. Eram os dias do PREC (processo revolucionário em curso), expressão tão amada e tão odiada, e  mais tarde deturpada, sobretudo por aqueles que a renegaram, trocando os slogans e impulsos revolucionários pelas "zonas de conforto" dos gabinetes do poder.
Ficaram os episódios, desde a primeira hora, como a prisão dos pides ( http://da.ambaal.pt/noticias/?id=1658 ) ou "o regresso do herói" ( http://da.ambaal.pt/noticias/?id=1631 ), até ao encontro com pessoas que me marcaram, como o João ( http://da.ambaal.pt/noticias/?id=5220 ) . Ficou o sonho da vitória próxima ( http://expresso.sapo.pt/16-de-novembro-de-1975-o-terreiro-do-paco-ao-rubro=f615564 ) rapidamente transformado no pesadelo de uma triste madrugada ( http://da.ambaal.pt/noticias/?id=1746 ).
Mas acima de tudo, ficou a vontade de transformar uma realidade que nos rodeava e que a nossa consciência começara a interiorizar : uma guerra injusta que nos devolvia amigos amputados, uma emigração que nos levava os companheiros da rua, uma sociedade desigual que não deixava colegas da escola prosseguir os seus estudos , um regime político castrador da liberdade e da criatividade.
Não éramos ambiciosos como os protagonistas do maio de 68 que exigiam o "impossível", queríamos apenas um outro amanhã, porventura aquele que era cantado em outras latitudes e que nos chegava em livros, em filmes, em canções ( https://www.youtube.com/watch?v=-Nldfb43_Q0 ). E que esteve perto, trazendo consigo a promessa da mudança para novos dias ( http://www.25deabril.lusa.sapo.pt/santa-vitoria-na-vanguarda-da-reforma-agraria-2/ ).
De todos esses sonhos, de todos esses dias, guardo a memória, mas também as palavras, deixadas no papel que inundava as nossas ruas e praças. O "bichinho" da História fez nascer um pequeno arquivo documental, que guardo desde esses dias e que, a partir de hoje irei partilhar aqui diariamente, como forma também de comemorar estes quarenta anos de Liberdade. 
Um dia destes entregarei esse arquivo a quem dele melhor cuide e até para ser utilizado como ferramenta para o estudo e divulgação destas quatro décadas: ao Centro de Documentação 25 de Abril, da Universidade de Coimbra.



sexta-feira, 5 de julho de 2013

FRUTA DA ÉPOCA (1) : AGENDA DA CIDADE OU AGENDA DO CONCELHO?

A Agenda Cultural de Beja começou a ser publicada em 1999, tendo saído ininterruptamente, em edição bimestral, até 2005, sendo depois substituída pela Agenda Municipal, como o nome indica, mais abrangente nas temáticas abordadas.
Apenas em versão impressa, ao longo destes seis anos de existência, a Agenda Cultural foi um importante instrumento para a divulgação de tudo o que passava em Beja, na cidade e nas freguesias, na música, no teatro, na dança, nas artes plásticas, nos livros ou nas festas populares. Para além das autarquias - município e freguesias -, as escolas, as associações culturais e recreativas, os grupos de teatro, todos tinham oportunidade de divulgar as suas iniciativas.
O "núcleo duro" era, como não podia deixar de ser, formado por técnicos da autarquia: o autor destas linhas, a Sónia Ferreira, a Carmen Santos e a Telma Martelo. Muitos outros técnicos, ligados aos equipamentos e serviços municipais (Biblioteca, Museu Jorge Vieira, Casa da Cultura, Casa do Lago, Arquivo Histórico) participavam igualmente na feitura desta publicação. Para além destes, colaboraram ainda, entre outros, o Leonel Borrela (sobre o património), o Palminha da Silva (sobre a publicações e figuras da história local) ou o Marco Taylor (o autor da concepção gráfica e da paginação dos primeiros números).
A Agenda Cultural era, pois, uma publicação que tinha duas funções: a informativa (para divulgar as iniciativas que tinham lugar no Concelho) e a formativa (onde se divulgava a nossa história, o nosso património material e imaterial, as associações culturais, os grupos corais, as freguesias rurais)
Nº 10, Novembro/Dezembro 2000
Nº 26, Maio/Junho 2003
Nos dois exemplares escolhidos propositadamente pelo simbolismo que encerram, destacam-se o José Saramago, patrono da Biblioteca Municipal, que aqui se deslocou para o lançamento do seu livro A Caverna, no dia 20 de Novembro, e o "nosso" António Zambujo que, ainda longe da fama (merecida) que hoje tem, actuou no Jardim Público, no dia 29 de Maio, no âmbito do programa das Festas da Cidade, onde apresentou os temas que compunham o seu primeiro cd, "O mesmo fado".
Mas não só de Saramago e de Zambujo eram feitas estas duas edições da Agenda Cultural. Referindo apenas alguns dos principais conteúdos, destacamos no número 10, as III Jornadas/Congresso da revista Arquivo de Beja, um artigo de Borrela sobre a Praça da República, "um texto esquecido de Brito Camacho", recuperado por Palminha da Silva na revista Ilustração Alentejana de Julho de 1927, um artigo sobre o actor bejense Alfredo Brissos, a exposição colectiva de vinte jovens artistas plásticos locais, na Galeria dos Escudeiros, o lançamento do catálogo da Colecção de Desenho do Museu Jorge Vieira, os espectáculos "O Principezinho", pelo Teatro do Mar, "Fou-Naná",  pela companhia de dança Vo'Arte, "A Índia e o Índio", pela cantora brasileira Sílvia Nazário, o Grupo de Batuques de Mulheres de Cabo Verde, o cantor Carlos Mendes, o "Ensemble Barroco do Chiado" ou a Semana de Música para o Natal (estes dois últimos em parceria ou apoio do município com o Centro Cultural de Beja e o Coro de Câmara). E ainda, o S.Martinho em Quintos, a Noite de Fados na Cabeça Gorda, a segunda edição da CultuNeves. Tudo isto, em 42 páginas de uma pequena publicação cultural.
O número 26, ainda em formato pequeno, tinha mais páginas (62) e, além do Zambujo tinha muitos outros temas: o Borrela escrevia sobre o Mercado Público do Largo dos Duques, construído no final do século XIX, destacava-se a revista Rodapé e as Mil e uma Noites, Mil e uma Histórias, na Biblioteca Municipal, e nos pólos de Albernoa e da Salvada, a exposição A Mulher e o Sagrado, de Noémia Cruz, a Móveldecor, as actividades das escolas dos vários graus de ensino (nomeadamente as semanas culturais do IPB e do ISSS), a VI Bejalternativa, o XV Encontro de Coros, a Semana da Dança na Casa da Cultura, o espectáculo Nós Todos 3, pela Arte Pública, o seminário "Identidades - entre o Local e o Global", o evento "Beja na rota do azulejo". Além do espectáculo de António Zambujo, tinha ainda lugar a "Semana da Bach" e o Concerto pelo Coro da Sé do Porto, na Igreja da Sé de Beja. Tal como no número 10, as iniciativas realizadas nas freguesias rurais tinham também o seu devido destaque : as Jornadas Culturais e Desportivas de Baleizão, as Festas do Padrão, a V CultuNeves, as Semanas Culturais de Santiago Maior e de Santa Vitória, a VII Feira Anual do Idoso, em Albernoa. 

Hoje, se as condições técnicas e humanas são significativamente melhores do que há dez anos (para além da versão impressa e online da Agenda Cultural e de uma newsletter semanal enviada por email, a câmara municipal tem ainda ao seu dispôr a nova e revolucionária "arma" que é o facebook), os conteúdos divulgados padecem de uma lacuna significativa (que não é alheia à política centralista desenvolvida pelo actual executivo municipal nos últimos quatro anos). Trata-se da omissão de todas as iniciativas desenvolvidas nas freguesias rurais, como se a actividade cultural apenas tenha lugar na cidade. Aliás, talvez não seja por acaso que, nas primeiras edições da "nova" agenda (de que se reproduz a capa de uma delas), esteja referido tratar-se de uma publicação da "Cidade de Beja".
Julho/Agosto 2012
Basta uma leitura rápida, para verificarmos que, dois dos mais importantes eventos realizados no Concelho de Beja, não têm qualquer referência nesta agenda :

Semana Cultural da Salvada
Semana Cultural Carpe Diem
Cabeça Gorda
Um ano depois, um novo grafismo, uma nova imagem (retirada que foi a menção à Cidade de Beja), mas a filosofia da Agenda Cultural continua: referências apenas e só ao que tem lugar na cidade, como se o resto do concelho fosse um "deserto cultural" (e todos sabemos que não é). Veja-se o exemplo das duas últimas (Junho e Julho):
 

Iniciativas como as que em baixo se indicam têm uma história e uma riqueza que não podem ser pura e simplesmente ignoradas em todos os meios de divulgação da câmara municipal (já para não falar na falta de apoio à sua realização). Os seus promotores, participantes e as populações dessas localidades não merecem esse esquecimento. Por isso, mais do que nunca, importa repetir a questão : AGENDA DA CIDADE OU AGENDA DO CONCELHO?



 



       

domingo, 5 de maio de 2013

O João


Cláudio Torres, em entrevista a Alexandra Lucas Coelho, na revista 2, do Público de hoje : "O João Honrado não podia andar de transportes públicos porque era apanhado, então vinha a pé de Coimbra até Aveiro para a gente falar. Eu vivia num quartito alugado e ele ficava lá. Vinha com os pés em sangue. A gente chamava-lhe o Patolas porque era um homem alto, com pés enormes. Chegava com as meias desfeitas e as minhas meias ficavam-lhe a meio do pé. Não é imaginável hoje o que era isto (...) Dormia no chão, numas almofadas(...) O João Honrado era um homem fantástico". Isto passava-se em 1958/1959, o Cláudio tinha aderido ao PCP com 19 anos, quando começou a trabalhar na fábrica de azulejos Aleluia e o João era funcionário do partido e vivia na clandestinidade. Um pequeno excerto de uma interessante entrevista, que nos mostra a fibra de que era feito o João (que nos deixou há pouco) e o próprio Cláudio, que passou por momentos dignos de livros de aventuras.

No dia seguinte à sua morte, escrevi este texto, para uma eventual publicação, que não chegou a acontecer. Já que estamos a falar desse grande homem, que admirei desde a minha juventude, aqui fica esse texto :

O João

Estava quente, esse fim de tarde de um dia de Junho de 1976. Era um verão quente, mas não tanto como o do ano anterior. Novembro arrefecera sonhos e esfriara as paixões que inundavam as ruas e as praças do nosso país desde “aquela madrugada” que a Sophia e todos nós esperávamos, desde aquele “dia inicial inteiro e limpo, onde emergimos da noite e do silêncio”
Aproximavam-se as terceiras eleições da nossa jovem democracia. Depois das constituintes, em 1975 e das legislativas, em 1976 (simbolicamente no dia 25 de Abril), seriam as presidenciais, onde eram quatro os candidatos.
Nessa tarde, em que a política (ainda) era tema de conversa entre as pessoas, no grupo que se encontrava reunido o grande dilema era em quem votar para derrotar aquele general que, naquele dia de novembro, com os seus óculos escuros, prenunciara o princípio do fim da revolução em que tão ardentemente acreditáramos: no candidato do Partido que, marcando o seu território, procurava manter o fiel eleitorado, ou naquele que simbolizava a esperança do regresso desses sonhos interrompidos? Para muitos (e não só para os mais jovens, como nós), era uma opção difícil, uma luta entre a razão (e a lealdade partidária) e o coração.
Estávamos nós nesta difícil encruzilhada, quando ele cruzou a porta do Centro de Trabalho. A sua figura imponente, a sua voz firme e decidida, fez-nos voltar a uma realidade que parecia estar tanto mais afastada, quanto maiores eram as dúvidas que as conversas nos traziam.
“O que é que aqueles cartazes, fazem ali no chão, em fez de estarem colados nas paredes?”, foi a pergunta que nos fez, para logo de seguida acrescentar “Toca a pegar nos baldes, nos pincéis e na cola e todos para rua”.
E lá fomos, os que estávamos juntos nessa tarde e ele, trinta ou mais anos mais velho do que a maioria de nós, rendidos à força das suas convicções e ao exemplo da sua vida de resistente e de lutador pela liberdade e por uma sociedade mais justa, afinal, a grande e elevada causa nos unia.
No outro dia de manhã, Santa Vitória acordou repleta de cartazes de Octávio Pato, o dobro ou o triplo dos que os apoiantes de Otelo (o Capitão de Abril que para muitos ainda era o Fidel que a nossa revolução precisava) tinham afixado.
Ele era o João, que tínhamos conhecido após o 25 de Abril e que, não obstante as diferenças de idade e do respeito e admiração que a sua biografia impunham (nomeadamente os anos passados na prisão e na clandestinidade), nos contagiava com o entusiasmo juvenil com que abraçava os ideais e as causas por que lutava. Entre muitas a que se dedicou, destacam-se a que evitou o fim do Diário do Alentejo ou, mais recentemente, a construção do monumento à Mulher Alentejana, concebido por Rogério Ribeiro e que se encontra no Parque da Cidade, em Beja.
Não foi por acaso que, no momento da sua morte, o jornal Público o designou como “… o mais carismático dos comunistas alentejanos”, tal como uns anos antes, Miguel Urbano Rodrigues, no prefácio ao seu livro “Textos Alentejanos” escrevera: “Duas palavras sobem-me logo na memória quando penso em João Honrado: revolucionário e alentejano. Não se pode compreender o homem, a sua vida e o seu combate sem tomar consciência de que nesse filho de Ferreira o alentejano e o revolucionário se fundem tempestuosamente, mas com harmonia”.
Em jeito de homenagem, deixamos aqui um excerto das palavras, escritas em março de 1963, aquando do seu julgamento político (reproduzidas em 1988 num artigo de Paulo Barriga, na revista Imenso Sul , que o blogue A Cinco Tons recordou poucos dias após a sua morte): “A cultura é contra os interesses do regime na medida em que esclarece as vastas camadas do nosso povo(…) O ódio do governo à cultura é o ódio do mentor do nazi-fascismo, Goebbels, quando afirmava: “Quando ouço falar em cultura, rapo da pistola”
Em memória do João, um Homem de Cultura.
Um abraço solidário e amigo à Alice, sua companheira.
(Foto : Alentejo Popular)