Arquivo Fotográfico do Diário do Alentejo

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Perceber a História


No passado dia 21 de fevereiro faleceu em Beja D. Manuel Falcão, que aqui chegou em Janeiro de 1975, num período da nossa História (nacional e regional) bastante atribulado, após a reconquista da liberdade e da democracia, com o 25 de Abril.
Com uma postura simples, uma grande humildade e um humanismo cristão próprios de um pastor que desempenhava as suas funções para servir o próximo, D. Manuel foi, muitas vezes, apelidado de “Bispo Vermelho”, tal como sucedeu com outro bispo, também ele Manuel (felizmente ainda vivo), que dirigiu a Diocese de Setúbal entre 1975 e 1998. Esta designação, se em alguns casos não tinha uma conotação negativa, reconhecendo antes o papel desses clérigos junto dos mais desprotegidos das populações em que estavam inseridos, foi igualmente utilizada em tom depreciativo, com uma conotação político-partidária que pretendia denegrir a sua importante actividade pastoral.
Ora, quer D. Manuel Martins, quer D. Manuel Falcão, mais não fizeram do que perceber a História dos territórios que administravam : o primeiro, ao denunciar a situação de milhares de operários do distrito de Setúbal, nos anos 80 do século passado, colocados em situações de miséria e de pobreza, por uma grave crise económica e social, para a qual não tinham contribuído; o segundo, ao verificar que o afastamento dos alentejanos em relação à Igreja Católica, tinha razões que vinham de tempos antigos, e que esse distanciamento não significava ausência de religiosidade, bem presente nas suas vidas.
D. Manuel Falcão encontrou um povo que, durante décadas, passou fome, foi explorado e humilhado, a coberto de uma aliança entre uma ditadura, apoiada numa força repressiva (a GNR) e os grandes proprietários fundiários, perante uma Igreja conformista, quando não mesmo colaboracionista (com excepções, é claro).
Por isso, mais do que uma luta política ou ideológica, o que o Bispo de Beja viu nesses camponeses que se entregaram a uma Reforma Agrária onde depositaram todas as suas esperanças numa vida melhor, foi um conjunto de homens e mulheres que, para além do material, aspiravam sobretudo à dignidade e à cidadania, que não lhes era reconhecida durante as décadas de opressão. E foi junto a estes homens e mulheres, com quem se identificou, que desenvolveu a sua acção evangelizadora, promoveu uma obra obra social assinalável, prestigiando assim a Igreja a quem dedicou a sua vida.
Curiosa é também a atitude de espanto daqueles que referem o seu diálogo com os presidentes de câmara comunistas (durante muitos anos, a maioria no território abrangido pela Diocese que D.Manuel dirigia). É que, mais uma vez, o Bispo de Beja percebeu que os autarcas alentejanos (e não apenas os comunistas) estavam a realizar um trabalho que visava, acima de tudo, tirar do atraso as aldeias e lugares da região, dando aos seus habitantes condições de vida dignas, em acções como a electrificação, o abastecimento de água ao domicílio ou o saneamento básico. Como não dialogar, então, com quem trabalhava em prol de todos, católicos ou não, que viam, finalmente, chegar às suas casas e às suas terras, o progresso e o bem-estar a que também tinham direito?
Duas notas finais. A primeira para destacar uma outra faceta de D.Manuel Falcão, ao perceber o importante e inigualável património religioso da Diocese, criando os meios para a sua preservação e promoção, aquém e além fronteiras, através de um departamento específico, dirigido pelo Arquitecto José António Falcão, com um trabalho único no País. As várias exposições realizadas, os museus de arte sacra criados e o Festival Terras sem Sombras são marcas de uma actividade que dignifica e prestigia a Igreja e o Alentejo.
A segunda nota, para sublinhar o facto de, passados quase 40 anos da chegada de D.Manuel Falcão ao Alentejo, a situação é, felizmente, bem diferente daquela que ele bem percebeu : hoje vive-se em democracia, a GNR é uma força militarizada ao serviço do regime democrático, enquadrada por leis aprovadas pela Assembleia da República, existe uma nova geração de agricultores, com uma mentalidade diferente das que a precederam e há uma nova atitude da própria Igreja, que desenvolve um importante papel pastoral, social e cultural, em que vários dos seus membros se destacam, a nível regional e até nacional.
Onde se integra, obviamente, o sucessor de D.Manuel, o bispo D.António Vitalino, homem do nosso tempo, adepto das novas tecnologias, que reconhece a importância da comunicação social, onde colabora com regularidade, e que não hesita em denunciar o absurdo consumismo da época natalícia ou  a “escravatura humana” de alguns emigrantes que trabalham nos campos do Alentejo (ele próprio é Presidente da Comissão Episcopal da Mobilidade Humana).
13 de Abril

Os cravos vermelhos regressam à rua, em Beja.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Histórias de Abril (1)

Memórias dos dias de sonhos e esperança  
O regresso do herói

Ervidel, Maio de 1974. Dia de festa. Pela liberdade recente, pela homenagem a um ilustre filho da terra, o Coronel Alexandre Mourão, republicano dos sete costados, mentor de uma escola “primária e elementar agrícola”, com frases nas paredes das salas de aula que “exaltavam o valor do estudo, do trabalho e da democracia”. Algo que a ditadura não permitiria, pintando essas paredes, apeando o obelisco que homenageava a Criança e arrancando o painel de azulejos com o nome do patrono da escola.
Ervidel estava feliz e orgulhosa. Nesse dia de Maio, outro filho da terra, que se vira forçado ao exílio na Bélgica, o Heduíno Gomes, militante do PCP desde os anos 60 (ainda jovem), também estava de regresso. Um verdadeiro “regresso do herói”.
É então que, durante a festa, que rebaptizava a escola com o nome do Coronel Mourão, começam a ser distribuídos uns folhetos, com um título que deixa a maioria dos presentes espantados e indignados: “Soares e Cunhal, lacaios da burguesia”. Assinava essa “provocação”, um tal PCP- ml (marxista-leninista), cujo líder era, nem mais, nem menos, que o Heduíno ( ou Vilar, nome da clandestinidade).
Como era possível, perguntava-se, que, nesse dia de unidade, em que se festejava a democracia e a liberdade, alguém lançar sobre esses dois símbolos da resistência ao fascismo, também eles recém chegados do exílio, palavras tão insultuosas?
Heduíno começa, então, um trabalho de doutrinação política, promovendo nas casas do povo da sua terra e de outras vizinhas cursos de marxismo-leninismo, aliciando os futuros militantes com viagens à República Popular da China. Sim, porque, numa época em que proliferavam os movimentos e partidos maoistas, o PCP-ml era o único reconhecido oficialmente pelo governo chinês, o que deixava roídos de inveja os inimigos do “renegado Vilar”.
Heduíno visita a China, em Maio de 1975, sendo recebido com honras de estado. No verão de 1978, quando ainda não há relações diplomáticas entre Portugal e esse país, uma associação de amizade ligada ao PCP-ml, organiza uma digressão da equipa de futebol do Sporting, que defronta a selecção nacional, em Pequim, perante 80 mil espectadores.
Para concorrer às “eleições burguesas”, Heduíno funda a AOC-Aliança Operário-Camponesa e, um ano depois do seu regresso, em Maio de 1975, organiza um comício em Ervidel.  Famosa é a expressão “Um voto na AOC é uma espinha cravada na garganta do Cunhal” mas, pelos resultados obtidos nas eleições de 1976 (557 votos no distrito de Beja), é mesmo caso para dizer que “santos de casa não fazem milagres”. Ou, por outras palavras, um herói… com pés de barro.
Nos anos 80 opera-se uma reviravolta na vida de Heduíno Gomes : converte-se ao cristianismo e adere ao PSD (assumindo-se como o “militante nº 7210”), onde desempenha funções importantes, com Mota Pinto.
Hoje em dia luta para “defender a Civilização Ocidental dos bárbaros contemporâneos”. Acusa Pedro Passos Coelho de ser “integralmente inimigo dos valores da Civilização e da coesão nacional”. E não perdoa a Cavaco que “promulga sem tossir as leis abjectas contra os valores da família natural e da vida – aborto e chamados ‘casamentos’ entre invertidos”.
Distante está o dia em que regressou a Ervidel como um herói. No tempo e nas ideias. Para ele, esse dia ocorreu “no ano da desgraça de 1974”.
Como cantou o Poeta, “Mudam-se os tempos, Mudam-se as vontades”.
5 de Abril


Escola Coronel Mourão



sexta-feira, 16 de março de 2012

Branquear a ditadura


No passado dia 22 de Fevereiro, os vereadores do PS na Câmara Municipal de Beja aprovaram uma proposta que abre a possibilidade de uma futura atribuição de nomes dos anteriores presidentes de câmara às ruas da cidade, onde se integram, nomeadamente, os que exerceram essas funções antes do 25 de Abril (presumo que sejam todos - os da Monarquia Constitucional, da 1ª República e do Estado Novo).
Tal proposta, tão inédita quão controversa e polémica, motivou, desde logo alguma discussão, entre aqueles que estão a favor e os que estão contra, centrando-se sobretudo nos homens que dirigiram o concelho entre 1926 e 1974.
Os argumentos utilizados pelos que a defendem, têm a ver com o facto de, por um lado, alguns dos presidentes de câmara durante o Estado Novo não terem assumido uma vinculação política ao regime e, por outro, as actividades desenvolvidas por outros, fora dessas funções, terem contribuído para a promoção cultural, económica ou social do município.
Ainda que discutíveis, estas opiniões são respeitáveis e pressupõem (acho eu) a ideia de que a eventual atribuição do nome de um desses ex-presidentes terá de ser sempre analisada individualmente e nunca inserida num qualquer pacote que junte o mais fervoroso republicano ao mais entusiasta salazarista.
Ora, não bastava já a originalidade e inoportunidade desta proposta que, sem qualquer justificação plausível, lança a divisão entre os bejenses (ainda que, até à sua concretização, “muita água vai correr debaixo das pontes”), eis que, num artigo publicado no passado dia 9, no jornal Público, surgem algumas afirmações, atribuídas ao actual presidente da câmara, que vêm clarificar melhor o absurdo do seu teor.
Em primeiro lugar, JPV rejeita um “cariz político” a esta proposta, atribuindo-lhe apenas o “factor histórico”. Como se as duas coisas pudessem estar desligadas, o autarca (formado em História) manifesta desconhecer algo que qualquer estudante dessa área conhece e que, na página 277, do volume 7, da História de Portugal dirigida por José Mattoso está bem explícito : “…o salazarismo introduziria o saneamento preventivo da função pública, isto é, a selecção política dos seus quadros : quer pela obrigatoriedade imposta, sob juramento, a todos os candidatos a funcionários públicos ou administrativos do repúdio formal do comunismo e da aceitação da ‘ordem social estabelecida pela Constituição Política de 1933’(…) quer pelo procedimento, bem mais eficaz, de sujeitar qualquer nova admissão nos serviços públicos à prévia informação da polícia política”. Será que poderemos dissociar a política da história, nesta medida do Estado Novo?
Fazer essa distinção significa também aceitar que os presidentes de câmara nomeados (e não eleitos) no Estado Novo não tinham conhecimento das prisões, das torturas, dos exílios e das mortes dos oposicionistas políticos ao regime. Ou que, para eles,  era irrelevante exercer o poder com base numa constituição que, entre outras medidas, ilegalizou os partidos políticos em 1933 (entre os quais o Partido Socialista Português, fundado em 1875).
Outro argumento utilizado por JPV é que essa proposta tem como objectivo “…assinalar para a história do concelho uma personagem que, para o bem e para o mal…” foi presidente da câmara de Beja. No limite, ao explicar desta forma o porquê da proposta, o que se faz é legitimar alguém que “para o bem e para o mal” dirigiu o País durante quase quatro décadas : Oliveira Salazar, presidente do conselho de ministros.
Teoria tão absurda como aquela originária do Brasil (“rouba, mas faz”), a ser levada à prática, apenas valoriza a “obra”, não tendo em conta o contexto político em que a mesma é realizada.
Por outras palavras, sem esquecermos a importância de alguns equipamentos colectivos edificados no concelho de Beja (em especial na cidade) durante o Estado Novo (o “bem”), será que os presidentes de câmara desse período desconheciam, por exemplo, a existência de uma guerra colonial (o “mal”) que durante treze anos levou para África muitos dos jovens que aqui viviam (e de onde alguns não voltaram vivos)? Ou que, numa certa  vivenda da Avenida Vasco da Gama, existia um serviço público chamado PVDE/PIDE/DGS (o “mal”) que, qual “big brother” vigiava todos os passos dos bejenses?
Ou seja, ao lançar e defender esta proposta, com estes argumentos, o actual presidente da câmara mais não faz do que branquear o salazarismo, uma ditadura que, agindo à imagem das suas congéneres (o nazismo, o fascismo e o franquismo), não deixou boas memórias aos portugueses, em geral, e aos bejenses, em particular.

Foi por rejeitar teorias como as defendidas agora por JPV que um Homem íntegro e vertical – Jorge Vieira – recusou que um monumento por si esculpido fosse colocado junto à Ponte 25 de Abril, quando esta foi inaugurada, em 1966. A razão desta recusa: saber que essa ponte iria ser baptizada como Ponte Salazar.
Hoje, esse monumento dignifica a cidade de Beja. Graças ao Poder Local e à Democracia, que o escultor quis homenagear com essa e com as restantes doações que fez ao concelho.
16 Março




"...para o bem e para o mal..."





















sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Ainda ( e sempre ) o Museu Regional de Beja


“Se todos os municípios pagassem atempadamente os seus contributos, a situação do Museu Regional não seria tão delicada.” Estas palavras bem poderiam ter sido proferidas por António Sebastião, o actual presidente da Assembleia Distrital de Beja, entidade que gere esse equipamento cultural, que passa pelas dificuldades que todos conhecem, e que impedem, nomeadamente, o pagamento atempado dos salários aos seus trabalhadores.
Trata-se, no entanto, de uma frase de Luís Pita Ameixa, que exercia essas funções quando foi publicado um artigo de Carlos Dias, no jornal Público, no dia 19 de Agosto de 2002, cujo tema era precisamente a delicada situação financeira que, também nessa altura, a assembleia atravessava. O que levava Carreira Marques, citado igualmente nesse artigo, a afirmar que uma parte do espólio do museu permanecia “encaixotado” e sem o “tratamento adequado”.
Voltando à actualidade, citemos agora Manuel Narra, ouvido pela Rádio Pax, após a última assembleia, que aprovou o orçamento para 2012. Sem papas na língua, classifica de uma “insensibilidade atroz” a ausência dos seus colegas presidentes de câmara nessa reunião, fazendo-se representar por elementos dos respectivos executivos.
Esta situação faz-nos regressar, de novo, à época em que Pita Ameixa presidiu à Assembleia Distrital. Face à instabilidade e às incertezas por que passava, foi marcada uma reunião extraordinária dessa entidade, aberta a todos os que se interessavam pelo seu futuro e, em particular, pelo Museu Regional.
Para além da participação de várias pessoas a título individual, ou em representação de associações, registou-se a (louvável) presença de representantes do Poder Central, como os directores regionais da Cultura e do Património, bem como do subdirector da Direcção Geral dos Monumentos e Edifícios Nacionais, na altura responsável pela realização das obras de manutenção e conservação do Convento da Conceição.
Pois bem, tal como na última reunião da assembleia, foi lamentável a ausência da quase totalidade dos presidentes de câmara do distrito, traduzindo alheamento perante a importância do assunto. Apenas três estavam presentes (Pita Ameixa, Carreira Marques e António Mendonça). Dos outros onze municípios, cerca de metade fizeram-se representar por vereadores, enquanto que os restantes primaram, pura e simplesmente, pela ausência.
Para além dos salários em atraso, verifica-se, hoje em dia uma quase total paralisia das actividades do museu (em particular do seu sector educativo, que vinha fazendo um trabalho meritório), para além da degradação do interior e do exterior do edifício. Em contradição, afinal, com a recentíssima adesão, ainda não há um ano, à Rede Portuguesa de Museus, como reconhecimento da sua actividade.
Foi esta grave situação do Museu Regional que levou dois dos participantes do colóquio “Beja – Imagens da Cidade Antiga”, que teve lugar na semana passada, a apelarem publicamente à mobilização cívica dos bejenses.
Santiago Macias, no seu blogue – avenidasaluquia34.blogspot.com – coloca, entre outras, a seguinte questão : “Vai Beja deixar que se encerre o seu museu?”
Cláudio Torres, em declarações à Rádio Voz de Planície, vai mais longe, ao afirmar que, sendo “… um dos mais importantes do País, em termos arquitectónicos e pelo espólio que apresenta (…) os bejenses têm de decidir se querem continuar, ou não, com as portas abertas de um dos museus mais importantes do País.”
São, sem dúvida, questões importantes, colocadas por duas pessoas cujo currículo e intervenção na área são sobejamente conhecidos, e que não devem deixar os cidadãos do concelho e da região indiferentes.
Pessoalmente, sempre achei que a solução deve ser encontrada na região, ao contrário de quem defendia a “entrega” do museu ao IPM (Instituto Português dos Museus). Para além de, ultimamente, se colocar em cima da mesa a solução contrária (entregar museus nacionais às autarquias) essa hipótese demonstraria a incapacidade (fossem quais fossem as razões) de gerirmos o que é nosso.
Ao mesmo tempo, deveríamos olhar para o que se passou mesmo ao nosso lado, aquando das autonomias regionais. O estado espanhol transferiu para as regiões museus, teatros, bibliotecas, criando uma importante rede de equipamentos culturais regionais, que podemos conhecer na Andaluzia ou na Estremadura. É claro que, sendo a desejável, não será, a curto prazo, a solução, dado que, mais uma vez, a regionalização foi “engavetada”.
Resta-nos, pois, a todos os que desejam preservar nas melhores condições o convento de Mariana Alcoforado ( e a Igreja de Santo Amaro ), com os legados únicos que albergam ( pré-históricos, romanos, visigóticos, muçulmanos, ou dos séculos XV e XVI, entre outros), participar civicamente e lutar pelo nosso museu, de modo a recuperar a dignidade e a importância perdidas.
Porque Beja, a Região e o País merecem.
17 Fevereiro


Anunciação da Virgem
Pintura Portuguesa, séc. XVI
Óleo sobre madeira








sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Cultura nos tempos de Crise.


No passado dia 17 de Dezembro, na sua crónica diária no Diário de Notícias, o crítico de televisão Nuno Azinheira referiu-se ao conteúdo de um programa matinal de uma das três televisões generalistas, dedicado a duas localidades cuja “originalidade” reside no nome : Picha e Coina. Escusado será dizer que, a pretexto desse nome, o apresentador, nome graúdo na praça televisiva, terá feito o seu próprio espectáculo, com as perguntas mais “ousadas” (e disparatadas) aos habitantes locais.
Tamalho lixo televisivo terá sido produzido que, no final, o cronista rematou o texto com uma palavra bem elucidativa, para classificar o programa : deprimente.
Tão deprimente como outros produtos similares que diariamente são oferecidos ao público, principalmente a quem apenas usufrui dos quatro canais abertos (e continuará, mesmo em tempos de TDT). Dir-se-á que é o que o povo gosta ou ainda que é o que vende publicidade, factores determinantes na época do “vale tudo” ou da “livre concorrência” (e não apenas na televisão).
No momento que estamos a passar, em que a palavra depressão facilmente se associa a outras como crise, austeridade ou desemprego, mal vai a sociedade que se deleita com o “grau zero” da condição humana, em que pessoas são usadas (e abusadas) como nos circos da Roma Antiga. Deprimente, é a  palavra apropriada para bem definir essa sociedade.
É neste contexto que a Cultura deveria assumir um papel central, na promoção e valorização do ser humano, como Bento de Jesus Caraça preconizava, há oitenta anos: “A aquisição de cultura significa uma elevação constante(...) do ponto de vista físico, intelectual, moral e artístico; significa, numa palavra, a conquista da liberdade” (Conferência realizada em 25 de Maio de 1933).
Deveria assumir, mas não assume. Ao invés, em nome da crise (que é bem real, não vale a pena escamotear), temos assistido nos últimos tempos a uma completa desvalorização da actividade cultural, que não se resume apenas a uma questão de mais ou menos verbas.
Desde logo, simbolicamente, ao perder o estatuto de ministério, factor agravado por um secretário de estado que, tanto pode afirmar que “não há políticas culturais”, como logo a seguir dizer que o Património devia ir para a pasta da economia (por cá, também há responsáveis regionais que não se coibem de produzir disparates semelhantes, ao afirmarem publicamente que essa área devia ser entregue a privados).
Essa desvalorização não é, no entanto, exclusiva do governo. Sinais como a eliminação da editoria de Cultura da Agência Lusa são preocupantes, como se o País não precise de conhecer o que se vai fazendo neste sector, a resistência de artistas, grupos, associações, que no Teatro, na Música, na Dança, no Cinema e nas outras áreas, não baixam os braços e continuam estoicamente a trabalhar.
Por outro lado, não se pode cair na tentação de, também no campo cultural, nos rendermos ao facilitismo e ao populismo de programações que apenas têm em vista as “casas cheias”, quer sejam salas ou espaços ao ar livre. É que, se nuns casos essa opção até resulta em espectáculos interessantes e que procuram a tal “elevação” de que Caraça falava, noutros assiste-se ao telelixo transposto para os palcos.
É por isso que fico desconfiado quando, por exemplo, leio, a propósito de uma peça de teatro que passou pela nossa cidade na passada semana (com uma campanha de marketing pouco habitual),  tratar-se de “uma experiência teatral nunca antes vista nos palcos portugueses”, que prometia “muitas gargalhadas”. E lembro-me, imediatamente, de um dos mais marcantes momentos de teatro, entre outros, a que assisti em Beja, em 1998, ainda na Casa da Cultura. Perante uma plateia cheia de um público dominado pela força das palavras de Eurípedes (traduzidas pela nossa maior especialista em estudos clássicos, Maria Helena Rocha Pereira), um grupo de excelentes actores da Escola da Noite, de Coimbra, levou à cena uma peça, forte no seu conteúdo e difícil, para quem actuava e para quem assistia, “As Troianas”.
Tal como olho com algumas reservas para alguns produtos de duvidosa qualidade artística, protagonizados por jovens actores que usam sem hesitar o playback que os produtores dos “carteiros paulos” ou dos “rucas” lhes oferecem e que as crianças e progenitores avidamente consomem. Perante isto, recordo-me de espectáculos produzidos e apresentados em Beja, com uma qualidade que poderia ombrear com o que de melhor de faz no País : “Nós Todos Três”, estreado em 1999 pela companhia Arte Pública no Centro Cultural de Belém, ou “Debaixo do Céu”, estreado em 2004, na Casa da Cultura. Duas excelentes produções de teatro musical, são bons exemplos de como é possível a qualidade na “Cultura nos tempos da Crise” (título inspirado na obra de Gabriel G. Marquez, “Amor nos tempos de Cólera”).
20 de Janeiro

As Troianas


Nós Todos Três :  http://www.youtube.com/watch?v=G2XLlmGdOZE



sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Futebol, Poder Local e Desenvolvimento

Quando, há uns anos, numa conversa que tive com um responsável do INATEL, que tinha iniciado funções havia pouco tempo, este me disse que, em sua opinião, havia um predomínio da actividade desportiva no distrito, em desfavor da cultural, tive oportunidade de, concordando com ele, não deixar de referir que, um reforço das actividades culturais, não poderia nunca pôr em causa a prática desportiva (em particular do futebol) que essa entidade proporciona, desde ainda antes do 25 de Abril, quando então se designava por FNAT.

Hoje, passados alguns anos, basta reflectir no que representa para as nossas aldeias e vilas, de Ficalho a Nave Redonda, ou de Sete a Mombeja, uma prova desportiva que movimenta mais de mil pessoas em cada fim de semana (entre jogadores, treinadores, dirigentes e árbitros), para se perceber a sua importância. Não só para os intervenientes mais directos (os jogadores) que, quer nesse jogos, quer nos treinos realizados desenvolvem um saudável exercício físico, aliado ao convivência e à amizade que esses momentos proporcionam, mas também para as populações dessas localidades onde, quinzenalmente, ao longo de alguns meses do ano, se disputam as partidas.
Não sendo, obviamente, uma verdade absoluta, não deixa de ser significativo que, frequentes vezes se apontem esses jogos como “a única coisa que faz mexer a aldeia”, pelo que, anualmente, um grupo de carolas faz com que seja possível que, com todas as dificuldades e, por vezes incompreensões, essa actividade “não morra”. É claro que, como em qualquer outra competição desportiva, da mais profissional à mais amadora (como é esta), não deixa de haver as rivalidades, as disputas acesas e os “casos”, nomeadamente em torno das arbitragens.
Mas, descontando esses excessos (afinal, à imagem e semelhança dos dirigentes dos “grandes” do nosso futebol), não deixa de ser importante valorizar todos os que empenham, semana após semana, em proporcionar as melhores condições para a prática desportiva no nosso distrito. Sem esquecer que há também outros bons exemplos, quer no futebol a nível associativo e federado, quer nas mais variadas modalidades desportivas, a expansão e a consolidação desta prática, a nível do INATEL tem, a meu ver, duas explicações.
 A primeira prende-se com o aumento e melhoria dos espaços desportivos, um pouco por todo o lado, que possibilitou, desse modo, que muitas crianças e jovens tivessem acesso, desde muito cedo ao desporto, de forma organizada e enquadrados tecnicamente (a segunda razão). São muitos desses jovens, já com uns anos de prática desportiva, os jogadores que compõem, anos mais tarde, as equipas das nossas aldeias. Sem ignorar, é claro que, em muitos casos, algumas das equipas recorrem a atletas de outras localidades e até de outras regiões geográficas, para poderem constituir o grupo. Em alguns casos, o número de habitantes de algumas dessas terras é de tal modo diminuto que seria praticamente impossível fazer uma equipa só com jogadores “da terra”.
Esta realidade, no campo desportivo é, na minha opinião, fruto também do desenvolvimento sociocultural que a democracia trouxe ao nosso País e, em particular à nossa região. Numa altura em que, a pretexto da crise, se procura pôr em causa uma componente significativa da mudança verificada após o 25 de Abril – o Poder Local democrático ( ver o Correio Alentejo de 24 de Junho) - não é demais relembrar que, em 38 anos de democracia e de governos locais (nos Municípios e nas Freguesias), o muito que se fez para melhorar as condições de vida das populações.
No concelho de Beja, por exemplo, contavam-se pelos dedos das mãos as aldeias que tinham um campo de futebol com as condições mínimas para a prática dessa modalidade. Hoje em dia, praticamente todas as nossas freguesias dispõem de campos e, mais do que isso, de balneários e, em muitos casos, de electrificação. Não é, por isso, de estranhar que, na actual época desportiva, apenas em três das dezoito freguesias, não exista desporto organizado, o que não deixa de ser relevante.
Esse é, afinal, um pequeno exemplo da importância do Poder Local e da obra que foi realizada, um pouco por todo o Alentejo e por todo o País e que alguns governantes “iluminados” querem pôr em causa com a extinção, fusão, ou seja qual for o nome que lhe queiram dar, de algumas das nossas freguesias (o elo mais fraco, já que nos municípios não se atrevem a tocar).
Concluo, com um exercício de memória (talvez seja importante para alguns). Diz respeito à freguesia onde nasci, Santa Vitória, como poderia ser em relação a outra, de um qualquer concelho do nosso distrito Só alguém mal intencionado (ou míope) é capaz de ignorar a profunda mudança verificada, fruto do trabalho de autarcas da freguesia e do município, bem como dos habitantes locais.
A todos os níveis, essa mudança é visível, quer na sede da freguesia, quer na outra localidade, a Mina da Juliana. Desde logo, com o mais básico, o abastecimento domiciliário de água, o saneamento básico, a recolha do lixo (e, no caso da Mina, a luz eléctrica, que só aí chegou em 1976); as ruas e travessas completamente remodeladas; uma escola antiga, praticamente nova, com todas as condições de conforto e pedagógicas, para alunos e professores,  e que inclui um dos três parques infantis da freguesia; um posto médico, uma sede da junta de freguesia, um centro cultural e de convívio;  um centro de dia para os mais idosos, que dispõem igualmente de apoio domiciliário; o campo de futebol, balneários e luz artificial, com um polidesportivo também iluminado mesmo ao lado (junto á escola); a Casa do Povo beneficiada e que hoje acolhe os mais variados eventos, para toda a população; as viaturas que transportam doentes, os atletas, o grupo coral feminino, as crianças da Mina que se deslocam desde que a sua escola fechou.
Foi todo este esforço, humano e financeiro, feito ao longo destas quase quatro décadas que permitiu que casais jovens tenham optado por ali continuarem a viver, ainda que trabalhem, muitos deles, em Beja.
Por isso, quando uma escola encerra, quando o médico deixa de vir, quando os correios fecham, quando se ignora a componente social, cultural ou desportiva na vida das populações, ou como agora, se procuram extinguir freguesias, é todo este trabalho que é posto em causa, com as consequências nefastas que se observaram no último censo : o despovoamento, o envelhecimento, a desertificação.
É isso que devemos denunciar e que devemos recusar.

23 Dezembro


Campo do Cavaleiro (com uma vista magnífica ao fundo, o Atlântico).
Foto de inatelbeja.blogspot.com
ver aqui