Arquivo Fotográfico do Diário do Alentejo

sexta-feira, 17 de julho de 2020

Estátuas (2) : O que fazer com estas estátuas?


                                                                        O Bandeirante - Praça António Tavares - Beja
                                                                                        Foto : blogue Beja Hoje
Voltando a Raposo Tavares, o Diário do Alentejo abordou, na sua última edição, a questão da destruição de estátuas em vários países, na sequência do brutal assassinato de George Floyd. Não adiantarei nada, quer ao artigo de Carlos Pereira, que narrou alguns dos acontecimentos que têm ocorrido em vários países, quer à análise de Santiago Macias, com a qual estou, globalmente, de acordo.
Ninguém pode negar as políticas colonialistas dos “vencedores”, às quais estão associadas violentas práticas esclavagistas e racistas. Mas não se pense que agora, em pleno século XXI, são os “ajustes de contas” com estátuas de confederados ou de bandeirantes que podem mudar mentalidades. Pelo contrário, no limite, alguns desses atos dão argumentos a personagens que cultivam o racismo, como Trump ou Bolsonaro.
Por exemplo, ainda que Raposo Tavares seja responsável por práticas de extrema violência sobre os índios brasileiros, seria difícil para muitas gerações de habitantes de Beja (e da região) assistir à retirada da sua estátua, não só pela sua imponência, mas porque se habituaram à sua presença naquele local há mais de 50 anos. Eu próprio, quando vim estudar para Beja aos 10 anos, habituei-me a conviver diariamente com aquela estátua, já que por aí passava quando ia para a gare rodoviária apanhar o autocarro para a aldeia.


António Raposo Tavares - 1922 - Regimento Raposo Tavares (Osasco - São Paulo)

                                                                António Raposo Tavares - 1922 
                                                        Museu do Ipiranga (Museu Paulista da Universidade de São Paulo).


Refira-se, por sinal, o aceso debate que tem ocorrido no Brasil, acerca de um abaixo-assinado que visa a remoção da estátua de outro bandeirante, Borba Gato, num bairro de São Paulo. De resto, já em 2016 essa estátua e um outro gigantesco conjunto escultórico dedicado aos bandeirantes, também nessa cidade, foram alvo de pichagens. 

                                                              Bandeirante Borba Gato - Santo Amaro (São Paulo) - 1963
Santiago Macias tem razão quando escreve que “… é preferível a contextualização à destruição, a pedagogia à negação. Porque a outra tentação, a do apagamento, é claramente perigosa “. Só que, para que essa pedagogia tenha lugar, não é possível continuar a desvalorizar-se o ensino da História, nomeadamente no 3º Ciclo do Ensino Básico, diminuindo as horas atribuídas a essa disciplina, num programa que vai da Pré-História à atualidade. Comparando com o que acontecia há cerca de 20 anos, são muitas horas a menos em cada um dos três anos desse ciclo, levando os professores a terem de optar por “sacrificar” algumas matérias ou chegar ao fim do 9º Ano na 2ª Guerra Mundial. Escolha sempre difícil, diga-se. Como explicar, assim, aos alunos, problemáticas como aquelas que rodeiam o bandeirante, em cuja estátua alguns vão festejar as vitórias dos seus clubes? Ou comparar a ditadura com a democracia trazida pelo 25 de Abril?
No Ensino Secundário, então, nem se fala. Apenas para os alunos de Humanidades e alguns (poucos) de Economia, onde a História é obrigatória ou opção, respetivamente. Há três anos, num debate onde estava o secretário de estado João Costa, coloquei-lhe a questão do conhecimento histórico para todos os alunos do Secundário (tema de que se falou algum tempo depois, mas que rapidamente se esqueceu). A resposta do governante foi que essa questão fora colocada por razões corporativas, que visava a atribuição de mais horas à disciplina, criando mais lugares para os respetivos docentes. Sem comentários.
Por coincidência, na véspera da saída do Diário do Alentejo que abordou o tema, a revista Sábado trazia um interessante artigo intitulado “O museu que guarda estátuas incómodas”. Nela, Urte Evert, a diretora desse museu afirma: “Os problemas da História que moldaram o presente não desaparecem com a remoção dos símbolos. Por vezes retiram-se os símbolos para não se lidar com os problemas reais, racismo, misoginia, antissemitismo (…) fazer do terrível passado objeto de discussão e criarmos um presente e futuro melhores”.

17 junho 2020 (2ª parte)









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