Arquivo Fotográfico do Diário do Alentejo

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

A escola da Estação, o barranco da Vinha e o "banho do 29".

 Chegada a Primavera, quando a temperatura amainava (e não chovia), um pequeno grupo, formado por quatro ou cinco crianças, liderado por uma pequena mulher, fazia-se à estrada para percorrer três quilómetros a pé, até a aldeia onde viviam. De manhã iam para a escola no “70”, o mítico autocarro da EVA, conduzido pelo não menos mítico “mestre Inácio”. No final das aulas, porque o 70 só passava uma hora depois, era vê-los na EN 18, a “estrada nova” (então já sexagenária), numa caminhada transformada em festa pela criançada, ao longo de extensas e verdejantes searas.

Esses alunos frequentavam a escola primária de Santa Vitória-Gare (a escola da Estação, inaugurada em 1961) e quem os acompanhava era a sua professora, a regente escolar Maria Amélia (a minha tia Bia, figura franzina, mas rija como o aço). Embora não tivesse a idade legal para ser matriculado (na altura tinha 6 anos e a entrada na escola primária era aos 7), esse primeiro ano não oficial (1964-65) fez com que tivesse frequentado apenas três anos do agora primeiro ciclo e, graças a isso, ter “inaugurado” o novo ciclo preparatório (em 1968-69), na escola Mário Beirão, quando se deu a unificação parcial dos ensinos liceal e técnico (o terceiro ciclo só seria unificado a partir de 1975, já após o 25 de Abril).


Nessa altura, a escola, de uma só sala, acolhia alunos (mais de 20) oriundos de vários locais. Desde logo, os filhos dos ferroviários (a estação ficava mesmo em frente da escola e era uma alegria ver passar os comboios, quando brincavam no recreio). Havia, ainda, os filhos dos trabalhadores do Monte do Outeiro e dos moradores de outros montes à volta - Lagoa, Chancuda, Cardal, Moncorvo, Coelheira, entre outros – os quais, no inverno, tinham de percorrer caminhos rurais repletos de poças de água e de lama. A antiga fábrica de cerâmica já estava desactivada, mas o bairro anexo ainda era habitado. Mesmo ao lado da escola, entre esta e a estação, havia a única mercearia, a do senhor Costa.

Entre os alunos destacava-se o “Zé da Alagoa”, quer pela idade (era o mais velho), quer pela fama (e proveito) das suas certeiras e temidas “barqueiradas”, quer pela proteção aos mais novos (a quem, por vezes, também comia os bolos que as suas mães faziam).

O monte do Outeiro era famoso pelas caçadas reservadas apenas a convidados do proprietário, José Gomes Palma, na sua maioria pertencentes à elite económica, financeira e política do Estado Novo (entre os quais Américo Tomás, o último presidente da ditadura), cujos carros, estacionados junto ao monte deixavam miúdos e graúdos de olhos arregalados. Era um dia de festa na herdade porque, devido à caçada, não se trabalhava e alguns deles ainda ganhavam dinheiro (não muito): os mais novos (alguns com 8 anos), como batedores, que encaminhavam as perdizes para as portas onde estavam os caçadores, com o barulho de matracas de madeira; os mais velhos, que carregavam as espingardas e recolhiam as perdizes abatidas que, no final da caçada chegavam a ser 500 ou 600.

Regressados os caçadores às suas terras de origem (muitos a Lisboa), os locais, um pouco clandestinamente, como é óbvio (ai de quem se atrevesse a caçar na coutada) dedicavam-se ao “rabisco”, a arte de achar perdizes mortas e não encontradas, feridas ou apenas cansadas, que lhes rendia, por vezes, mais um importante pecúlio.

Voltando ao grupo atrás mencionado, na sua viagem pedestre para a aldeia deixava, à sua direita, o Monte da Vinha, na altura ainda habitado, tal como quase todos os montes em volta. Situado numa pequena elevação, bem visível da estrada, dele se diria, anos mais tarde: “Vinha que já não era / Monte que já não é”

Um pouco mais à frente, a estrada passava sobre o barranco que tem o nome desse monte e que vai desaguar na ribeira do Outeiro, assim chamada por todos por afinidade com o monte que a domina lá em cima. Acontece, porém,  que se trata de um troço da ribeira do Roxo, nascida junto a Beja, que vai desaguar no rio Sado, bem perto de Ermidas-Aldeia e que, nesse seu caminho, deu origem à barragem com o mesmo nome.

O barranco da Vinha teve, na primeira metade do século XX, uma caraterística muito particular que, certamente, só os mais velhos recordarão: o “banho do 29”. A exemplo de muitas praias, que ainda hoje mantêm essa tradição, como a Manta Rota,Praia da Luz, Sines ou Monte Clérigo, em Aljezur (neste caso sendo até o dia feriado municipal), o dia 29 de Agosto era de autêntica romaria e festa, evocadas pelo senhor António Dias, um poeta de Santa Vitória:  “Com seus vestidos de chita/As moças muito bonitas/Para o 29 elas iam/À festa para passear/E no 29 a pensar/Elas quase não dormiam.”

Mais à frente era explicada a razão que atraía tanta gente, do Alentejo e até de fora da região a este local, não só neste dia, mas também ao longo de vários meses: “A água do Monte da Vinha/ A virtude que ela tinha/Era a de curar as dores/Tratava bicos de papagaio e rins/ Tratava de doença sem fim/ E tratava as dores aos amores/Era água abençoada/ Toda a doença tratava/Dores de cabeça e tontura/Mesmo que não tivesse cura.”

De facto, num estudo do ICS/UL e do CEAS/ISCTE, com o apoio da FCT, que deu origem a “… um site que disponibiliza um extenso inventário de nascentes portuguesas com reportados usos terapêuticos.” 

 ( http://www.aguas.ics.ul.pt/index.htm , 2002), são referidas as termas de Santa Vitória, situadas na herdade do Monte da Vinha:  de “natureza cloretada sódica”, tratavam, sobretudo de reumatismo (…) tiveram “Alvará de concessão de 8 de Agosto de 1914”, sendo “consideradas abandonadas a 4 de Agosto de 1937.”  Deve, no entanto referir-se que, não obstante essa informação oficial, relatos que ouvi em criança apontam para mais tarde o abandono desses hábitos terapêuticos.

Ainda de acordo com essse estudo, existia um poço “no sopé da colina do Monte da Vinha (…) do qual era retirada água para banhos (…) os aquistas acampavam em redor do poço e no montado anexo, trazendo as banheiras e tinas de casa, e aqueciam a água em caldeiras”, tal como escreveu o senhor António Dias no seu poema: “Já com a água quente/Lá ia toda a gente/No bidão banho tomar”.

Mas o banho do 29 era mais que um tratamento do corpo: “Era um divertimento/E grande contentamento/Dormirmos ao luar/Podíamos contar as estrelas/Era um eencanto vê-las/Com pompa e alegria/Quando nos íamos deitar”  (…) “Era uma alegria/Quer fosse de noite ou dia/Faziam-se os bailaricos/Quando o baile começava/O moço com moça bailava/Começavam os namoricos” – Os Banhos do 29, in Recordações, de António Dias, edição do autor, s/d.

Como é evidente, muitas décadas depois, a realidade é completamente diferente. Não nos referimos, sequer às grandes transformações verificadas, nomeadamente do ponto de vista político, com o fim da ditadura e a implantação da democracia, nem às alterações demográficas, sócio-económicas, culturais ou educacionais, por exemplo.

Falemos, apenas, da paisagem. Com o fim de  grandes searas nas vastas planícies, substituídas por imensas manchas de olivais ou de amendoais, agora dominantes na viagem entre Beja e Santa Vitória, os viajantes deixaram de ver, a partir da “estrada nova”, quer o comboio (quando ainda existia), quer a “estação nova”, (que substituíu a “velha” aquando da alteração do traçado da linha, entre esse local e Beja, em 1971, eliminando a passagem de nível, o apeadeiro das Represas e dando origem à nova estação do Penedo Gordo), as ruínas do Monte da Vinha e até a igreja da aldeia. 

 

Algo que umas “mentes brilhantes” deviam ignorar quando, há uns anos, no âmbito de um ambicioso programa de nome REVIVE, destinado aassegurar a sua preservação, a sua valorização e divulgação, bem como um acesso alargado à sua fruição [do património imobiliário público]…” integraram a “estação nova” e Represas, obviamente retiradas por falta de interessados em recuperá-las para fins turísticos.

O montado, junto ao barranco, onde acampavam os frequentadores do banho do 29, foi “invadido” pelas amendoeiras, criando uma paisagem visual pouco convidativa. Todavia, o barranco, alvo de uma assética intervenção, na altura da preparação dos terrenos para a plantação do amendoal, reviveu com toda a força, recuperando o verde que sempre o caraterizou, como que numa prova de resistência a quem o queria “domesticar”, o que, por uma vez, não conseguiu.





11 Setembro 2026