Arquivo Fotográfico do Diário do Alentejo

Domingo, 5 de Maio de 2013

O João


Cláudio Torres, em entrevista a Alexandra Lucas Coelho, na revista 2, do Público de hoje : "O João Honrado não podia andar de transportes públicos porque era apanhado, então vinha a pé de Coimbra até Aveiro para a gente falar. Eu vivia num quartito alugado e ele ficava lá. Vinha com os pés em sangue. A gente chamava-lhe o Patolas porque era um homem alto, com pés enormes. Chegava com as meias desfeitas e as minhas meias ficavam-lhe a meio do pé. Não é imaginável hoje o que era isto (...) Dormia no chão, numas almofadas(...) O João Honrado era um homem fantástico". Isto passava-se em 1958/1959, o Cláudio tinha aderido ao PCP com 19 anos, quando começou a trabalhar na fábrica de azulejos Aleluia e o João era funcionário do partido e vivia na clandestinidade. Um pequeno excerto de uma interessante entrevista, que nos mostra a fibra de que era feito o João (que nos deixou há pouco) e o próprio Cláudio, que passou por momentos dignos de livros de aventuras.

No dia seguinte à sua morte, escrevi este texto, para uma eventual publicação, que não chegou a acontecer. Já que estamos a falar desse grande homem, que admirei desde a minha juventude, aqui fica esse texto :

O João

Estava quente, esse fim de tarde de um dia de Junho de 1976. Era um verão quente, mas não tanto como o do ano anterior. Novembro arrefecera sonhos e esfriara as paixões que inundavam as ruas e as praças do nosso país desde “aquela madrugada” que a Sophia e todos nós esperávamos, desde aquele “dia inicial inteiro e limpo, onde emergimos da noite e do silêncio”
Aproximavam-se as terceiras eleições da nossa jovem democracia. Depois das constituintes, em 1975 e das legislativas, em 1976 (simbolicamente no dia 25 de Abril), seriam as presidenciais, onde eram quatro os candidatos.
Nessa tarde, em que a política (ainda) era tema de conversa entre as pessoas, no grupo que se encontrava reunido o grande dilema era em quem votar para derrotar aquele general que, naquele dia de novembro, com os seus óculos escuros, prenunciara o princípio do fim da revolução em que tão ardentemente acreditáramos: no candidato do Partido que, marcando o seu território, procurava manter o fiel eleitorado, ou naquele que simbolizava a esperança do regresso desses sonhos interrompidos? Para muitos (e não só para os mais jovens, como nós), era uma opção difícil, uma luta entre a razão (e a lealdade partidária) e o coração.
Estávamos nós nesta difícil encruzilhada, quando ele cruzou a porta do Centro de Trabalho. A sua figura imponente, a sua voz firme e decidida, fez-nos voltar a uma realidade que parecia estar tanto mais afastada, quanto maiores eram as dúvidas que as conversas nos traziam.
“O que é que aqueles cartazes, fazem ali no chão, em fez de estarem colados nas paredes?”, foi a pergunta que nos fez, para logo de seguida acrescentar “Toca a pegar nos baldes, nos pincéis e na cola e todos para rua”.
E lá fomos, os que estávamos juntos nessa tarde e ele, trinta ou mais anos mais velho do que a maioria de nós, rendidos à força das suas convicções e ao exemplo da sua vida de resistente e de lutador pela liberdade e por uma sociedade mais justa, afinal, a grande e elevada causa nos unia.
No outro dia de manhã, Santa Vitória acordou repleta de cartazes de Octávio Pato, o dobro ou o triplo dos que os apoiantes de Otelo (o Capitão de Abril que para muitos ainda era o Fidel que a nossa revolução precisava) tinham afixado.
Ele era o João, que tínhamos conhecido após o 25 de Abril e que, não obstante as diferenças de idade e do respeito e admiração que a sua biografia impunham (nomeadamente os anos passados na prisão e na clandestinidade), nos contagiava com o entusiasmo juvenil com que abraçava os ideais e as causas por que lutava. Entre muitas a que se dedicou, destacam-se a que evitou o fim do Diário do Alentejo ou, mais recentemente, a construção do monumento à Mulher Alentejana, concebido por Rogério Ribeiro e que se encontra no Parque da Cidade, em Beja.
Não foi por acaso que, no momento da sua morte, o jornal Público o designou como “… o mais carismático dos comunistas alentejanos”, tal como uns anos antes, Miguel Urbano Rodrigues, no prefácio ao seu livro “Textos Alentejanos” escrevera: “Duas palavras sobem-me logo na memória quando penso em João Honrado: revolucionário e alentejano. Não se pode compreender o homem, a sua vida e o seu combate sem tomar consciência de que nesse filho de Ferreira o alentejano e o revolucionário se fundem tempestuosamente, mas com harmonia”.
Em jeito de homenagem, deixamos aqui um excerto das palavras, escritas em março de 1963, aquando do seu julgamento político (reproduzidas em 1988 num artigo de Paulo Barriga, na revista Imenso Sul , que o blogue A Cinco Tons recordou poucos dias após a sua morte): “A cultura é contra os interesses do regime na medida em que esclarece as vastas camadas do nosso povo(…) O ódio do governo à cultura é o ódio do mentor do nazi-fascismo, Goebbels, quando afirmava: “Quando ouço falar em cultura, rapo da pistola”
Em memória do João, um Homem de Cultura.
Um abraço solidário e amigo à Alice, sua companheira.
(Foto : Alentejo Popular)






Quinta-feira, 4 de Abril de 2013

Um país e uma região estilhaçados

A revolução liberal de 1820 e os vários códigos administrativos que se lhe seguiram moldaram a estrutura político-administrativa que atravessou os sucessivos regimes políticos – Monarquia Constitucional, 1ª República, Estado Novo – até chegar à democracia, implantada no 25 de Abril.
Distritos, concelhos e freguesias, é esta a organização que, com maiores ou menores alterações vigora em Portugal desde a primeira metade do século XIX e que foi consagrada pelo primeiro código administrativo, o de 1836. Data deste ano a primeira grande mudança no “poder local”, efectuada por Passos Manuel, com a eliminação de mais de metade dos concelhos até então existentes, passando de 806 (em 1827) para 351. A outra grande mudança verificada (apenas em 2013, com Passos Coelho), é a eliminação de mais de mil freguesias, processo polémico e contestado pelas populações locais.
Paradoxalmente, ao mesmo tempo que se mantêm os distritos (extintos pela Constituição de 1976, que institui uma nova autarquia local, a região administrativa, ainda não implementada), mesmo sem governadores civis, actualmente, tem-se assistido, no que à organização político-administrativa do território continental diz respeito (os Açores e a Madeira, para o melhor ou para o pior têm a sua autonomia já implementada) a um verdadeiro regabofe, que os sucessivos governos e parlamentos não têm conseguido pôr termo.
Pior do que isso, assiste-se ao estilhaçar do país (e, no caso concreto, do Alentejo), sem qualquer critério que se afigure lógico, seja político, administrativo, económico ou social. E sem uma avaliação rigorosa do que havia antes, que justifique as alterações sucessivas nas estruturas regionais.
Existe, assim, uma CCDR para todo o Alentejo (seguindo o modelo das regiões/plano definido, ainda no Estado Novo, pelo III Plano de Fomento – 1968/1973), o que se afigura lógico, ainda que, em certas alturas, essa lógica seja pervertida. Isso aconteceu, por exemplo, com a integração de alguns concelhos da região de Lisboa e Vale do Tejo no INALENTEJO (para efeitos de financiamentos do QREN) ou, mais recentemente, com a proposta de integração de alguns desses concelhos na nova entidade regional de turismo do Alentejo (o que já levou Ceia da Silva a ironizar, dizendo que não vai promover a sopa da pedra de Almeirim).
As contradições são diversas: se, no turismo se procedeu à unificação, com a extinção dos pólos existentes, de modo a concentrar esse sector em apenas cinco entidades, a organização das comunidades intermunicipais (contestada por juristas e pela própria ANMP), divide os municípios por 23 novas estruturas, enfraquecendo o seu poder de intervenção. Na nossa região, por exemplo, o que justifica a existência de duas dessas comunidades – Baixo Alentejo e Alentejo Litoral – uma com treze e outra com apenas cinco municípios, quando poderiam continuar os dezoito integrados numa única comunidade, como acontecia, até aqui, com a AMBAAL?
Situações como esta repetem-se : extinguem-se as direções regionais de educação (transformadas numa direção de serviços de uma direção geral do respetivo ministério, numa atitude centralista), ao mesmo tempo que se mantêm outras – Desporto e Juventude ou Cultura – que mal se dá pela sua existência. Há serviços, como o emprego e formação profissional ou a saúde que se organizam em estruturas regionais, enquanto que outros, como a segurança social, as finanças ou as estradas, são geridas por entidades distritais.
Basta atentarmos no exemplo concreto de um concelho, para verificarmos até onde vão estas contradições e incongruências. Sines, por exemplo: no turismo, pertencia ao pólo do Alentejo Litoral, agora passa para a entidade regional do Alentejo; para acesso aos fundos comunitários integra o INALENTEJO, na saúde a ARS Alentejo, mas para tratar das estradas ou dos impostos tem de “dialogar” com Setúbal; foi fundador da primeira associação de municípios do país, a AMBAAL, que agora vai deixar, para passar a integrar a CIMAL, com apenas mais quatro concelhos; um destes é Odemira que, para todos os efeitos (incluindo até o futebol), ainda integra o distrito de Beja e, nomeadamente, pertence à Assembleia Distrital, que gere o Museu Regional de Beja.
E é perante este estado de coisas, que perpetua a confusão e a tradicional troca de lugares e de cadeiras quando há mudanças de governo (num carrossel protagonizado por membros dos partidos do chamado “arco do poder”), que se atira para as calendas gregas a regionalização e se vai falando em medidas perigosas como o aumento da “municipalização” da educação (sobre estes dois temas escreveremos um dia destes).
Podemos concluir, com uma afirmação (sobre um outro assunto) de Nuno Ramos de Almeida, no jornal I, do passado dia 16 de Março : “Verifica-se a transformação do país numa abstracção que pode ser sujeita a um experimentalismo político nem sequer muito elaborado, mostrando um imenso desconhecimento da realidade e um enorme desprezo pelas pessoas concretas.
É facto, uma pena, que a nossa democracia, em quase quarenta anos, não tenha conseguido organizar o país e as regiões, de modo a promover a descentralização, o planeamento de infraestruturas e de atividades e, principalmente, a participação dos cidadãos.
5 Abril 2013







Quinta-feira, 3 de Janeiro de 2013

INATEL e associações de futebol: concorrência desleal ou complementaridade?


No passado dia 12 de Dezembro foi inaugurada a nova sede da Associação de Futebol de Beja. Para além do protocolo inerente a este evento, assistiu-se a uma justa e merecida homenagem ao Dr João Covas Lima (“Dr.Nana”), ao ser atribuído o seu nome ao auditório desse espaço.
De toda a cerimónia, ressaltam, entretanto, as críticas dos presidentes da Associação de Futebol anfitriã e da Federação Portuguesa de Futebol à “concorrência desleal” da Fundação INATEL, que retira clubes às competições associativas para disputarem os campeonatos desta entidade. As declarações do presidente federativo foram até “amplificadas” pela notícia da LUSA e foi assim que, pelo menos através do rodapé da RTP, todo o país delas teve conhecimento (um pequeno aparte, para realçar a importância da componente regional da agência noticiosa, neste e em outras situações, como a forma de chegar a todo o lado o que se vai passando pelo chamado “país real”).
Essas declarações, além de injustas, enfermam até de algum desconhecimento do que na realidade se passa. É que, na verdade, não existe nenhuma concorrência, mas sim uma complementaridade, que não é de agora, mas de há muitas décadas, quando a INATEL ainda era a FNAT do Estado Novo.
Este é um falso problema, que só agora se coloca e que tem na sua génese uma questão que, no desporto, não é exclusiva do futebol e, nesta modalidade, atravessa todas as associações e a própria federação. Falamos da quebra de receitas da maioria dos clubes, provocada, em grande medida, pela redução dos apoios das câmaras municipais e dos patrocinadores, que levou a que esses clubes tivessem de rever a sua participação nas diversas competições. Não é só na AFB que não há 2ª Divisão, o mesmo acontece, por exemplo, no Algarve e, mesmo em Setúbal, uma das maiores do País, o número de clubes neste escalão é bastante reduzido.
O presidente Fernando Gomes também não deve ignorar que, na sua própria “casa”, houve clubes que abdicaram de participar em campeonatos nacionais, preferindo mantar-se nos distritais. Em Setúbal aconteceu isso com o Vasco da Gama de Sines, em Beja com o Praia de Milfontes, tal como sucedeu em outros distritos com outras agremiações. Isto para não falar nos clubes que, pura e simplesmente, abandonaram o futebol sénior, mantendo apenas as camadas jovens.
Mais estranho ainda foi ouvir esse responsável afirmar que a própria “saúde pública” dos atletas da INATEL “estava em causa”, porque não é obrigatório um seguro de acidentes pessoais, ao contrário do que acontece com os atletas federados. Esta afirmação revela, antes do mais, um desconhecimento da realidade. Basta consultar o site da fundação, para ver que a apólice 10001968 de uma seguradora cobre todos os atletas inscritos na época de 2012/13.
E, ao afirmar que a solução para os problemas do futebol passa pela diminuição de custos (de que a não obrigatoriedade do policiamento é já um bom exemplo), fica no ar a interrogação: que irá propor o presidente da FPF ao Secretário de Estado da Segurança Social(que tutela a INATEL) em reunião que diz já ter solicitado, para fazer face a essa “concorrência desleal”? Aumentar as taxas de inscrição? Obrigar os clubes a pagar as arbitragens? É que, se assim acontecer, ao invés de fazer voltar os clubes às provas associativas, arriscamo-nos a que, no futuro, nem nas associações, nem na INATEL.
Isto, sim, seria grave. É que, não obstante as dificuldades e contratempos próprios da competição (por vezes levadas a situações extremas, na INATEL como nos campeonatos mais profissionalizados), o desporto e a cultura fazem parte da matriz dessa fundação, cumprindo um desiderato muito importante, que é assegurar o acesso de milhares de cidadãos às mais variadas atividades socioculturais, com recurso a fundos públicos.
No caso do distrito de Beja, há muitos anos que, sem “concorrer” com as provas da AFB, os campeonatos da INATEL são dos que têm mais equipas a participar, com particularidades que interessa realçar. Por exemplo, a flexibilidade que permite que clubes dos distritos de Setúbal (Cercalense e Soneguense) e de Faro (Serrano) possam participar neste distrital, jogando com os seus “vizinhos” de Odemira ou de Almodôvar. Ou ainda o aparecimento de clubes  (o Luso Serpense, a AC Cuba, o Vale d’Oca, a Casa do Povo de Milfontes), em localidades onde existem  alguns dos históricos do futebol do distrito de Beja, sem que isso ponha em causa estes últimos, já que apenas se dedicam a proporcionar a prática desportiva regular a um conjunto de cidadãos, o que é sempre de louvar.
Por outro lado, basta olhar para os clubes dos concelhos de Beja e de Odemira (os que têm mais inscritos no distrital da INATEL), para concluir que a maior parte deles nunca participou e dificilmente participará em campeonatos da AFB. No caso de Beja, é paradigmático o caso do Louredense, clube campeão várias vezes na INATEL, participante nas fases nacionais, com boas equipas, organização e condições para a prática da modalidade e que, por opção própria, nunca se inscreveu nas provas associativas (onde, decerto, iria fazer “boa figura”).
Ou seja, mais do que procurar bodes expiatórios na INATEL ou em qualquer outra entidade, o que a Federação e as associações terão de analisar é a forma de estancar a saída dos clubes, mantendo assim o serviço público que prestam à comunidade, em particular aos mais jovens. É que, nessa cerimónia, também fiquei atónito, ao ouvir dizer que não é justo que os clubes da INATEL participem nas provas associativas com escalões de formação, já que com estes não têm despesas. Afirmação tão estranha, quanto o facto de há vários anos isso acontecer com alguns clubes, como o Beringelense ou o Figueirense, sem que tal tenha sido alguma vez contestado. Para além disso, convém não esquecer que a Federação (e as associações, por via desta) recebe verbas do Orçamento de Estado, parte das quais, precisamente para promover a formação de jovens atletas.
Nota final : desde 1996 que faço parte da Mesa da Associação de Futebol de Beja, sendo, no presente mandato, vice presidente desse órgão. Ao longo dos diversos mandatos em que participei, sempre mantive (como actualmente acontece) a solidariedade institucional com os restantes membros dos diferentes órgãos sociais ( Direção, Conselhos de Arbitragem, Técnico, de Disciplina, etc). O que não significa que, em situações concretas e pontuais, discorde de determinadas posições e decisões.
Como é, no caso vertente, designar-se como “concorrência desleal” aquilo que não é mais que a complementaridade entre o futebol organizado pela federação e pelas associações, com o que é promovido pela INATEL.  
4 Janeiro




Sobre a importância desta prática desportiva para as nossas comunidades, muitas vezes abandonadas e esquecidas, tive oportunidade de escrever há um ano, uma crónica na edição de 23 de Dezembro, do Correio Alentejo. Face a esta polémica, penso que está ainda mais atual.









Sexta-feira, 30 de Novembro de 2012

Extinção e fusão de freguesias : uma tragicomédia em seis actos e um epílogo.

Foto Diário do Alentejo
Presumimos que por opção editorial, o Diário do Alentejo dedicou duas das suas últimas edições, às freguesias de Gomes Aires e Pereiras-Gare, cuja extinção/fusão foi aprovada, entre outras, pelas assembleias municipais em que se integram, Almodovar e Odemira, respectivamente. De resto, foram estas as únicas assembleias do distrito de Beja que tomaram tal decisão, já que todas as outras se pronunciaram contra esta medida, na linha do que a maior parte fez, a nível nacional.
Nessas duas reportagens podemos sentir diversas reações, quer entre a população, quer entre os autarcas das duas freguesias : a desilusão, a resignação, a injustiça, a revolta. “Têm levado tudo daqui para fora. A única coisa que não conseguem levar é a nossa igreja e a nossa fé”, alguém dizia em Gomes Aires ou  “É mais um prejuízo para as pessoas que cá moram”, desabafava um morador de Pereiras-Gare.
Curiosamente, nesta interessante rúbrica do DA dedicada às localidades da nossa região, já tinham sido abordadas (premonitoriamente, dizemos nós), as quatro freguesias do concelho de Beja vítimas deste processo, neste caso através da proposta da UTRAT, o organismo que o governo encarregou de levar à prática esta alteração político-administrativa : São Brissos, Trindade, Quintos e Mombeja. E foi nesta última que um poeta popular local afirmou, referindo-se ao encerramento da escola :  “Uma aldeia sem escola/É como uma casa sem pão”. Que dirá ele, agora que, depois da escola fechada, é a própria freguesia que se extingue?
Este tem sido um processo muito atribulado, com situações que quase fazem lembrar uma tragicomédia, com vários actos, que começa em Maio de 2011.
Acto 1.
Do Memorando assinado entre a troika e o governo de José Sócrates, no dia 3 de Maio : “3.44. Reorganizar a estrutura da administração local. Existem actualmente 308 municípios e 4259 freguesias. Até Julho de 2012, o Governo desenvolverá um plano de consolidação para reorganizar e reduzir significativamente o número dessas entidades”. Sobre este ponto, escrevia, poucos dias depois, um comentador num jornal nacional, que esta era uma das medidas que não iria ser concretizada na totalidade. Referia-se, é claro à redução de municípios, que, como se vê ficou para as calendas gregas, já que apenas o “elo mais fraco”, as freguesias, foi objecto dessa “reorganização”. O que revela que há, entre os nossos políticos, muitos “Cabrais” que temeram novas “Marias da Fonte”, caso a extinção de municípios fosse para a frente.
Acto 2.
Uma semana depois, no dia 10 de Maio, o Conselho Directivo da Associação Nacional de Municípios aprova, por unanimidade, uma resolução em que, nomeadamente se dizia : ““No caso das freguesias, a diminuição do seu número poderá também não implicar reduções significativas de custos e não deverá ser feita com base em regras cegas e universais (…) Deve ainda ter-se em conta que, em freguesias mais longe das sedes de concelho, onde já fecharam serviços como escola, correios, centro de saúde, entre outros, o único ponto de contacto das populações com quaisquer serviços públicos é a Junta de Freguesia que, por um lado, as representa e, por outro lado, funciona como elo de ligação. Nestas situações, a redução do número de freguesias pode contribuir para acentuar o isolamento e abandono das populações.”
Acto 3.
A contrariar esta resolução, numa posição mais “troikista” que o próprio memorando, como que a justificar a posição do seu partido, o presidente da Câmara Municipal de Beja apressou-se a dizer que “"…concorda ‘em absoluto’ com a redução de municípios e de freguesias" e que "não faz sentido o país ter freguesias e municípios demasiado pequenos, às vezes uns ao lado dos outros, ‘quando apenas um órgão de gestão poderia gerir as necessidades’ sem duplicar órgãos de gestão e eleitos (…)  O autarca considerou ainda que em Beja existem condições para a supressão de algumas freguesias, dando outra dimensão às freguesias que se mantiverem.". (Correio Alentejo, 13 de Maio).
É claro que, mudada a conjuntura política, com a vitória do PSD, Pulido Valente vai mudar de opinião (tal como já tinha feito, aliás, com a questão das ligações ferroviárias directas a Lisboa e da extinção dos Intercidades).
Acto 4.
Entretanto, vão sendo conhecidas algumas situações que, para além de caricatas, pressupõem oportunismos políticos conjunturais, fruto da “ditadura das maiorias” em algumas assembleias municipais, que aprovaram propostas de extinção/fusão de freguesias.
Por exemplo, na Assembleia Municipal de Santarém que visava a revogação da pronúncia desse órgão, aprovada na sessão de 20 de Julho deste ano, os presidentes de duas juntas de freguesia que irão ser agregadas quase chegaram a vias de facto, tendo mesmo sido chamada a PSP, para serenar os ânimos (Diário de Notícias, 11 de Outubro). Nesta reorganização, que elimina nove freguesias, o PSD (que tem a maioria na AM) foi acusado de “cozinhar” o mapa com base em expectativas eleitorais.
Talvez não tenha sido por acaso que, já em Dezembro de 2011, o jornal regional O Mirante tenha escrito que “Autarcas [de Tomar] receiam que extinção de freguesias leve a motins”.
Acto 5.
Bem mais perto de nós, ainda que não seja conhecido qualquer acto de violência, a pronúncia da Assembleia Municipal de Odemira (de maioria PS), uma das únicas quatro do Alentejo a tomar esta decisão, tem sido igualmente acusada desse oportunismo político, ao aprovar um novo mapa, em que todas as quatro freguesias rurais extintas são, neste momento, geridas pela CDU. Curiosamente, como se pode ver na excelente infografia publicada no Diário do Alentejo de 26 de Outubro, a proposta da UTRAT apenas propunha a extinção de uma freguesia rural – Luzianes-Gare – para além da junção das três consideradas urbanas. Para adensar mais as desconfianças, a proposta da AM agrega apenas duas destas, ficando a terceira – Boavista dos Pinheiros – de fora (por sinal, esta autarquia é dirigida pelo PS).  
E, se uma das justificações apontadas nessa pronúncia é a de que as quatro freguesias a extinguir são recentes (criadas entre 1985 e 1989) e vão voltar a integrar as freguesias de onde tinham saído, “por razões de natureza histórica e cultural”, o que dizer, então, da última freguesia criada em Odemira, precisamente Boavista dos Pinheiros, desanexada (com toda a razão) das freguesias urbanas de Salvador e de Santa Maria apenas em 2001? Neste caso, os critérios temporais, histórico e cultural já não se aplicam?
Razão tinham os que, na concentração em Beja, no passado dia 27 de Outubro, empunhavam uma faixa preta onde se podia ler “A Freguesia de Zambujeira do Mar está de luto”.
Acto 6.
E agora? Passado que foi o prazo para a pronúncia das assembleias municipais, a UTRAT apresentou a proposta de reorganização, que prevê a extinção de mais de mil freguesias, levantando desde logo um coro de críticas por todo o País e por todo o espectro político, da maioria ou da oposição, e de ameaças de tomadas de posição mais duras por partes de várias autarquias e populações atingidas. Também já se escreveu que este processo poderá, inclusivamente, pôr em causa as eleições autárquicas do próximo ano. A ANAFRE, por seu lado, diz que esta reorganização originará uma poupança de apenas 6,5 milhões de euros e apoia as freguesias que queiram apresentar providências cautelares a suspender a proposta de extinção, enquanto aguarda a decisão do Tribunal Constitucional sobre o assunto.
Epílogo.
Como se pode ler na última edição do Diário do Alentejo, também no nosso distrito são várias as vozes a levantar-se contra esta proposta, desde partidos políticos, a juntas de freguesia e a câmaras municipais. Autarquias como Aljustrel, Ourique, Mértola, Serpa ou Santiago do Cacém, já se manifestaram publicamente contra as alterações nos seus municípios e preparam acções concretas para as contestar.
Enquanto isso, ainda segundo este trabalho do DA, o presidente da Câmara de Beja, com a sua habitual ambiguidade, limita-se a dizer que se mostra “…contrário a qualquer proposta sem que haja um estudo aprofundado sobre a realidade do território do concelho, não compreendendo as razões para que a freguesia de Mombeja seja integrada em Santa Vitória e Quintos na freguesia da Salvada. “. Ou seja, sem se manifestar frontalmente contra, limita-se a questionar porque vai Mombeja juntar-se a Santa Vitória (e não a Beringel?) e Quintos à Salvada (e não a Baleizão?), sem se pronunciar sobre as restantes freguesias que vão ser agregadas (São Brissos, Trindade e as urbanasa) ou sobre iniciativas que contrariem estas medidas.
Tal como escrevíamos em 24 de Junho de 2011, no Correio Alentejo, acerca da sua posição sobre esta imposição antidemocrática do memorando no Poder Local Democrático, apetece terminar com a mesma frase (com as devidas alterações, entretanto verificadas) : “Assim, não será de estranhar se vermos, um dia destes, Pulido Valente a tentar convencer os autarcas e as populações das freguesias de Quintos (pequena), Salvada e Cabeça Gorda (próximas), e dos municípios de Alvito (pequeno), Cuba e Vidigueira (próximos), a iniciar o debate para a sua fusão numa só freguesia e num só município.
A bem do cumprimento do Memorando.”
30 Novembro                                               




Foto de José Baguinho


Quinta-feira, 2 de Agosto de 2012

Andarilhar.


Esta é uma crónica diferente.
Uma crónica que começa com uma reflexão sobre o seu próprio título.
Um título que é apenas um verbo, um simples verbo da nossa língua.
Andarilhar, eis o verbo que não parece verbo, tão inconsequente parece a sua conjugação : eu andarilho, tu andarilhas, ele(a) andarilha…
Melhor dizendo, um verbo que mais parece aqueles que o Mia Couto “inventa” e que nós, só por vergonha, não usamos na língua que é a nossa, que é a dele, a que Pessoa chamou um dia de nossa pátria.
Cervejar, estrelinhar, praiar, que lindos verbos moçambicanos, os que definem uma cerveja fresca, um céu estrelado no verão, ou uma praia de areias finas e águas transparentes.
No dicionário, andarilhar pode ser “andar de um lado para o outro”, mas também “vaguear”. Ou ainda, diremos nós, participar, viver, sentir, as “Palavras Andarilhas”.
Lindo, este título, para um encontro de afectos e de partilhas, que transforma Beja na “Cidade dos Contos”.
Não em mais uma “capital”, palavra já gasta de tão usada e abusada ( a última conhecida é a do “frango do campo” ), mas na cidade que acolhe andarilhos do país e do mundo, contadores, educadores ou apenas extasiados ouvintes de todas as idades.
Um encontro que nos deixa orgulhosos, como naquele dia em que, na Fundação de Serralves, num seminário sobre temas culturais, alguém que soube que éramos de Beja, deixou públicos elogios às Andarilhas, à biblioteca que as acolhe, às pessoas que as realizam e à cidade que as acarinha.
Porque as Andarilhas nasceram no único local onde tal magia podia ter acontecido, numa “biblioteca sem sono”, e porque a memória dos homens é curta e muitas vezes injusta, não podemos nunca esquecer os seus três principais artífices:  Cristina Taquelim, a alma mater das dez edições já realizadas e da que vai ter lugar este ano; Figueira Mestre, o sonhador e desassossegado arquitecto da casa mãe, inovadora e revolucionária; Carreira Marques, o autarca poeta que via a Cultura, não como adorno ou como emblema para a lapela, mas como algo importante para a formação dos cidadãos do concelho que dirigia.
Mas, tal como Brecht escreveu nas “Perguntas do operário que lê”, quem constrói esta Tebas dos nossos tempos, esta cidade do Serafim, do Fontinha, do Quiko, da Marina, do Maurício, do Bakk, do Portillo, do Torrado, e de tantos outros, são também os muitos outros operários das palavras, desde logo os incansáveis trabalhadores da biblioteca e dos outros sectores da câmara municipal, aos voluntários que dão o seu tempo a esta causa cultural.
Como aqueles, artistas e público, que no passado dia 13 de julho se encontraram no Pax Julia, para dar um fraterno Abraço às Andarilhas, mostrando, com esse acto o quanto são necessárias à autoestima dos bejenses. Porque o seu prestígio não se confina apenas às fronteiras deste nosso pequeno rectângulo, estendendo-se a várias partes do mundo ( talvez não seja por acaso que a edição deste ano é apoiada pela organização do Ano do Brasil em Portugal ), numa prova da sua qualidade.
E é por tudo isto que, no final deste mês, num novo espaço central – o Jardim Público – mais uma vez todos os caminhos vão dar a Beja. Vamos, pois, andarilhar e, quem sabe, estrelinhar numa noite quente, embalados pelos contos que, como os seus mentores dizem, acontecem “…  Porque acreditamos no contributo da palavra, da literatura, da arte em geral para a formação do Homem Novo….”.
3 Agosto







Memória 1

Memória 2



Domingo, 29 de Julho de 2012

A família Victoria – raízes alentejanas no sul do Brasil.


Nos países com uma história mais recente, fruto da colonização de povos oriundos de várias partes do mundo ( como é o caso, por exemplo, dos Estados Unidos e do Brasil ), existe, por parte dos seus habitantes, uma grande vontade em conhecer as suas raízes. Este fenómeno é menos comum nos países como Portugal, com uma história mais longa, e em cujo território se estabeleceram povos tão diversos como os romanos, os visigodos ou os muçulmanos.
A não ser alguns descendentes de famílias nobres, dificilmente qualquer português conseguirá ir muito longe na sua genealogia, isto se conseguir encontrar os registos paroquiais dos seus antepassados mais remotos.
Há algum tempo, numa pesquisa efectuada na internet, tive conhecimento da existência de um blogue intitulado “Família Victoria” ( http://familiavictoria.blogspot.pt/ ), da autoria de um cidadão brasileiro, Arthur Victoria da Silva, natural e residente no Rio Grande do Sul, o estado mais meridional do Brasil.
Neste blogue, como o nome indica, procura-se reconstituir a família Victoria, desde a sua origem, até à actualidade, reconstituição essa acompanhada por vários episódios marcantes ao longo dos quase 230 anos da sua existência.
De facto, segundo informações recolhidas por Arthur Victoria, a família teve origem no casamento, em 1783, na localidade do Estreito, nesse estado, de Francisco José de Santa Victoria com Ana Joaquina de Jesus.
A noiva era descendente de açorianos, o que não é de estranhar, visto serem originários dessas ilhas atlânticas muitos dos povoadores dessa parte do Brasil, sobretudo na segunda metade do século XVIII. Há quem até considere os açorianos como o povo mais importante na colonização do Rio Grande do Sul, e talvez não seja por acaso que um dos mais importantes prémios culturais desse estado, atribuído pela prefeitura da capital, Porto Alegre, tenha precisamente o nome de “Açorianos”.
Quanto ao noivo, de acordo com o que Arthur Victoria escreveu no seu blogue “… deve ter sido militar que lutou contra os espanhóis [guerras pelo controle de territórios nas actuais fronteiras do Brasil e do Uruguai] e resolveu estabelecer-se no Estreito”. O mais curioso, no entanto, é a sua origem. Citando de novo o blogue, “Francisco José de Santa Victoria, conforme registros de nascimentos de seus herdeiros, era nascido na Freguesia de Santa Victoria, em Beja, Portugal”, vindo daí o apelido que iria dar origem à família.
Família que, diga-se em abono da verdade, foi bastante numerosa, começando neste casal, que teve 10 filhos que, por sua vez, vieram igualmente a reproduzir-se também em quantidades apreciáveis. Ainda que hoje haja descendentes dessa família espalhados em várias partes do Brasil, a grande maioria radicou-se em localidades gaúchas, nomeadamente em Capão do Leão, município com cerca de vinte e cinco mil habitantes, “emancipado” há apenas trinta anos da cidade vizinha de Pelotas. Um dos membros da família – Getúlio Victoria – exerceu por duas vezes as funções de prefeito desse município, em 1985 e em 1993.
Para completar o puzzle, faltava apenas a confirmação da data (que se presume ser 1756) e o local do nascimento do alentejano que deu origem a esta família, o que me foi solicitado por Arthur Victoria.
Só que, infelizmente, nem no Arquivo Distrital de Beja, nem no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, se encontram os livros dos registos paroquiais de 1731 a 1771. Existe um hiato, não se podendo comprovar os registos de nascimentos, casamentos e óbitos da freguesia de Santa Vitória nesse período.
Ficou, assim, por provar, a verdadeira origem de Francisco José, o que não invalida a hipótese da existência de raízes alentejanas na família Victoria, fundada no século XVIII, no estado brasileiro do Rio Grande do Sul e que, periodicamente, se reúne para confraternizar.
27 Julho





Encontro dos Victoria, em 15 de Abril de 2010 / fotos de Idylio Roberto :




Sexta-feira, 6 de Julho de 2012

Triste espectáculo.


No programa de História do 7º Ano de Escolaridade, os alunos estudam a democracia em Atenas, no século V aC. Democracia imperfeita, é certo (assente numa sociedade esclavagista e com as mulheres com um papel secundário – que Chico Buarque tão bem retratou na canção “Mulheres de Atenas”), mas que leva os jovens estudantes a descobrir, não só o seu significado (poder do povo), mas também o da palavra política – governo da polis/cidade estado).
E é na transposição desses conceitos para a história contemporânea do nosso país que, invariavelmente, este último conceito surge associado, nas palavras dos alunos, a um conjunto de práticas nada abonatórias para os políticos – aqueles que se dedicam a essa tão nobre quanto desacreditada função. E vêm à baila frases como “são todos iguais”, “só querem é encher-se”, “criam tachos para familiares e amigos”, etc.
Não é fácil desmontar tais preconceitos, reproduzidos pela opinião pública, alimentados por uma certa comunicação social e, pior do que isso, fomentada por práticas de políticos que, escudados pelo exercício de cargos públicos, dão esses maus exemplos que, injustamente, acabam por atingir aqueles que têm uma conduta séria e irrepreensível, enquanto eleitos pelo povo que representam.
Associada a essas práticas menos sérias (e até, em alguns casos, ilegais), existe ainda a ideia de uma certa impunidade, quer pela inexistência de uma débil opinião pública, que se mostra incapaz de uma censura que leve ao afastamento de quem as executa, quer pela sensação de que a própria justiça se mostra impotente para condenar as ilegalidades cometidas.
É claro que o surgimento de casos e nomes na comunicação social, não significa, necessariamente, crime e castigo, mas não podemos ignorar que situações como BPN, Freeport, submarinos, Face Oculta, associados a políticos como Dias Loureiro, Sócrates, Duarte Lima, Armando Vara, Isaltino Morais, entre outros, deixam no ar a suspeita de uma certa promiscuidade entre negócios e política, alicerçada no facto de alguns desses nomes, sendo originários de famílias modestas, em poucos anos atingiram patamares de riqueza incompatíveis com os vencimentos auferidos nos cargos políticos exercidos.
Perante essas situações, a resposta dos órgãos judiciais tem revelado uma incapacidade confrangedora, o que leva as pessoas a concluírem que há dois pesos e duas medidas, quando se trata de aplicar a justiça. Pior do que isso, fica a sensação de que os que exercem esses órgãos, nomeadamente os mais elevados – Procurador Geral da República e Presidente do Supremo Tribunal de Justiça  - tomaram partido, deixando de lado a imparcialidade exigida. Já para não falar das famosas prescrições, que acabam por ilibar “na secretaria” aqueles que já tinham sido condenados por crimes comprovados.
Não bastavam estas desconfianças, eis que surgem também notícias sobre ligações perigosas entre os serviços secretos (que deveriam estar acima de quaisquer suspeitas), política, negócios e sociedades secretas, que não abonam nada a favor da credibilidade dessas entidades.
Perante este rosário de situações nada democráticas, casos como o das habilitações académicas aparentemente forjadas – ontem Sócrates, hoje Relvas, amanhã logo se verá – surgem quase como “normais”, justificadas por uma certa ideia muito divulgada de que os “espertos” são os que triunfam, elevando ao topo a teoria do mérito do “chico-espertismo”, tão do agrado de certas mentes ultra liberais.
Enquanto isso, alguns persistem em atirar-nos areia para os olhos, pensando que engoliremos sem reagir todas as suas mistificações. Só assim se percebem as afirmações de Carlos Zorrinho, ao elogiar o “sentido de responsabilidade” do deputado Ricardo Rodrigues, que se demitiu da direcção do grupo parlamentar do PS, na sequência da condenação pelo furto dos gravadores dos jornalistas da revista Sábado.
Como se esse “sentido de responsabilidade” não fosse inerente a quem é eleito, quer para deputado, para presidente de junta de freguesia ou para presidente da república e fosse preciso esperar por uma decisão judicial para se tomar uma posição que, perante tão degradante episódio, há muito deveria ter sido tomada.
São todos estes (maus) exemplos que levam os jovens alunos de 12/13 anos a achar a política como um espectáculo, abrilhantado em períodos eleitorais por festas, com a participação especial de emigrantes africanos e orientais, para encher plateias e com a participação de actores cuja principal função é debitar promessas, por vezes com novidades como a referência a “pilares”, não de betão mas de esferovite, que caem mal o vento sopra um pouco mais forte.
Felizmente que a política não é apenas feita deste (triste) espectáculo e que muitos homens e mulheres continuam a servir a democracia recuperada com o 25 de Abril, em defesa dos seus ideais e dos seus princípios, independentemente das cores partidárias que vestem, em nome do povo que os elegeu.
Afinal, não foi isso que nos ensinou Péricles há 2500 anos?
6 Julho




É só mudar o escudo e a legenda e temos uma boa imagem a ilustrar o texto