Arquivo Fotográfico do Diário do Alentejo

sábado, 23 de julho de 2011

"Intercidades" Beja-Casa Branca (notas avulsas)

Amanhã são retomadas as ligações Beja-Lisboa, por comboio. A propósito da verdadeira marginalização a que vamos ser sujeitos pela CP, publiquei algumas notas no Facebook, que agora reproduzo.


1ª ) INTERCIDADES BEJA-CASA BRANCA
A CP já publicou no seu site os horários dos comboios Évora-Lisboa e Beja-Lisboa. Sintomaticamente, os preços ainda não foram divulgados, mas já lá está a indicação de que no dia 1 de Agosto vão ser alterados. Ou seja, vão apenas vigorar entre 24 e 31 de Julho.
Nos horários apresentados há situações que são ridículas. Alguns exemplos :
1) há um Intercidades que sai de Beja às 8h15 e chega a Lisboa-Oriente às 10h.35.
2) Só que esse Intercidades é, depois, “dividido” em dois “comboios”, o nº 582, Beja-Casa Branca e o nº 692, Casa Branca-Oriente.
3) Passamos a viajar, não em um, mas em dois Intercidades, um dos quais Beja-Casa Branca (a grande “novidade”: uma ligação regional em automotora é, assim, promovida).
4) Esta chico-esperteza da CP cai por terra logo a seguir. Embora não estejam indicados valores, já sabemos que vamos ter de comprar dois bilhetes, tal como acontecia anteriormente, um para a automotora (regional) e outro para o comboio (intercidades).
5) É por isso, natural, que isso nos vá penalizar. Em Maio de 2010, quando a linha foi encerrada, um bilhete directo no Intercidades custava 11,50€; se viajássemos pelo regional até Casa Branca e depois pelo Intercidades que vinha de Évora para Lisboa, pagávamos 4,50€+9,50€ = 14€. A má gestão da CP fazia com que, por um serviço pior, mais demorado e com transbordo, tínhamos de pagar mais.
6) Perante estes elementos, urge perguntar : SERÁ QUE A CP PENSA QUE SOMOS TODOS PARVOS ? PARA QUÊ DEITAR AREIA NOS NOSSOS OLHOS? PARA NOS CALAR E NOS CONFORMARMOS?
7) E o Governo, que tem a dizer sobre esta má gestão e sobre a electrificação da linha, no futuro. Aguardam-se respostas.


2ª ) Cá está a confirmação do que ontem escrevi : 7€ Beja-Casa Branca e 9,5€ Casa Branca-Lisboa. Além de má gestão (não conseguem vender um bilhete único Beja-Lisboa, tal como não conseguiam anteriormente), a diferença de preços entre a viagem a partir de Beja e a viagem a partir de Évora é um autêntico ROUBO!!! - 16,5€ - 10€. E a partir de 1 de Agosto, com mais 15% ainda o ROUBO será maior). Além disso são mais 2€ que o bilhete do Expresso, sem transbordos até Lisboa. Querem que as pessoas de Beja deixem de andar de comboio, para depois acabarem com ele, é isso?

3ª ) E mais uns preços : comboio(2ªclasse) - Beja-Casa Branca-Lisboa-Coimbra (2 transbordos) - 33€. Expresso - Beja-Lisboa-Coimbra (1 transbordo) - 19€. Sem mais comentários, tirem as vossas conclusões.

4ª ) O roubo e o escândalo continuam : Cuba-Beja em "Intercidades"- 6 comboios /dia - 15min de viagem - 6,50€; Cuba-Beja, em Regional - 1 comboio dia - 15 min de viagem - 1,55€.

sábado, 25 de junho de 2011

A reforma do Poder Local – uma imposição antidemocrática.

Domus Municipalis - Bragança - um símbolo do poder municipal em Portugal

Pouco tempo depois de se ter conhecido o conteúdo do Memorando de Entendimento entre Portugal, o FMI, o BCE e a EU, li um comentário num jornal que dizia mais ou menos isto : os negociadores da troika já foram “contagiados” pelos portugueses, porque estão a apresentar propostas que não irão ser concretizadas. As propostas referidas tinham a ver com o ponto 3.44 desse memorando, que diz : “Até Julho 2012, o Governo desenvolverá um plano de consolidação para reorganizar e reduzir significativamente o número destas entidades [municípios e freguesias](…) Estas alterações, que deverão entrar em vigor no próximo ciclo eleitoral local [2013-2017], reforçarão a prestação do serviço público, aumentarão a eficiência e reduzirão custos.”
Penso que esse comentário se refere, não tanto ao conteúdo, mas sim à surpresa que foi o surgimento dessa mesma proposta e o prazo para a sua implementação.
Essa proposta, que aparece (como todo o Memorando) como uma imposição a um Estado soberano, representa, antes de mais, uma clara derrota (e capitulação) dos partidos do chamado “arco do poder” que, ao longo destes anos, não conseguiram alterar as leis eleitorais das autarquias, de modo a evitar situações aberrantes, como existem, por exemplo, em Évora ou Portalegre, onde apenas três dos sete eleitos das respectivas câmaras municipais estão a tempo inteiro, numa altura em que as competências dos Municípios são cada vez maiores e mais exigentes. Essa derrota foi, implicitamente, reconhecida, por António José Seguro, numa entrevista ao jornal Público (16 de Junho), ao afirmar: “Quando era líder parlamentar, em 2004, tive quase pronta uma proposta acordada com o PSD para se fazer uma alteração da legislação autárquica. (…) Já passaram sete anos”.
Fundir ou extinguir autarquias locais apenas por decreto, é estar a ignorar a importância que, ao longo da nossa História, estas entidades tiveram. Com a sua génese medieval, reformados no século XIX, os municípios  (e, mais tarde, as freguesias) atravessaram a República e o Estado Novo, tornando-se, com o advento da Democracia, numa das grandes conquistas do 25 de Abril. Não só pelo facto dos seus órgãos passarem a ser eleitos democraticamente mas, sobretudo, pelo importante contributo que deram para o desenvolvimento local e para a diminuição das assimetrias regionais que, há 37 anos, eram muito superiores às que ainda hoje se mantêm. Parece coisa muito distante, mas o abastecimento de água ou o saneamento básico, as bibliotecas ou as piscinas, entre outros, são progressos que contribuíram para a melhoria das condições de vida das populações das nossas aldeias, vilas e cidades.
Por outro lado, quando se fala em despesismo no Estado, decerto não serão as pequenas e médias autarquias do interior, as suas principais responsáveis, mas antes os mega investimentos mal planeados, como os Estádios do Euro 2004, as SCUT e outras PPP, já para não falar nos elevados deficits das grandes empresas públicas.
Para além disso, pelo seu melindre “…especialistas em poder local contactados pela Lusa concordam que esta reorganização exige um profundo debate e um consenso alargado, e que deve ter em conta não só o critério do número habitantes das autarquias, mas também o da territorialidade e o da distância das pessoas aos centros de decisão e às estruturas locais” (http://aeiou.expresso.pt,  12 de Junho).
Fernando Ruivo, do Observatório do Poder Local, vai mais longe, ao afirmar: “As pessoas no interior já não têm escola, não têm acesso à saúde, já não têm empregos(…) acesso à justiça e a uma data de serviços. Se lhes tiram a identidade institucional, em que eles se reconhecem, tiram-lhes tudo” (Público. 14 de Junho). Apetece perguntar: será que o governo do PS se lembrou destes “pormenores” quando assinou o Memorando? E o PSD e CDS que lhe deram o seu aval e que agora o vão aplicar? Também pensaram nisto? Parece-me bem que não.
Mas, como em tudo na vida, há quem pense apenas em números e se esqueça das pessoas. Por isso, não estranhei as palavras do Presidente da Câmara de Beja, ao afirmar que “…concorda  "em absoluto " com a redução de municípios e de freguesias...” e que “…não faz sentido o país ter freguesias e municípios demasiado pequenos, às vezes uns ao lado dos outros, ‘quando apenas um órgão de gestão poderia gerir as necessidades’ sem duplicar órgãos de gestão e eleitos”. (Correio Alentejo, 13 de Maio).
Assim, não será de estranhar se vermos, um dia destes, Pulido Valente a tentar convencer os autarcas e as populações das freguesias de Quintos (pequena), Salvada e Cabeça Gorda (próximas), e dos municípios de Alvito (pequeno), Cuba e Vidigueira (próximos), a iniciar o debate para a sua fusão numa só freguesia e num só município. A bem do cumprimento do Memorando.
24 de Junho

sábado, 28 de maio de 2011

As mãos são nossas : o voto é nosso.

Nota prévia : porque há quem continue a achar que os Portugueses têm memória curta, esta crónica recorre, propositadamente, a várias citações.

No dia 17 de Março de 2007, dois anos após a vitória do PS nas eleições de 2005, São José Almeida escrevia no Público : “Ao tomar posse em condições de poder inéditas à esquerda, José Sócrates inicia a concretização de um programa político de influência ideológica neoliberal que tem como objectivo desestruturar o papel social do Estado tal como foi construído no pós-guerra (em Portugal, após o 25 de Abril), (…)e a criação de um novo modelo social em que os ricos são cada vez mais ricos e os pobres aumentam, em relação aos níveis de vida de há algumas décadas.”
Uma das principais medidas desta política foi a aprovação, pelo PS, em 19 de Setembro de 2008, do Código do Trabalho, que levou Manuel Alegre (que votou contra) a afirmar à TSF, que esse código ia “ desequilibrar as relações laborais em desfavor dos trabalhadores.”
No dia 6 de Março de 2009, foram reprovados pelo Parlamento os projectos de lei que pretendiam revogar as taxas moderadoras na saúde. Desta vez foi António Arnaut, o “pai” do Serviço Nacional de Saúde, que criticou o PS, dizendo à TSF que este partido “…está a remar contra as correntes da História…” e “…não prestou atenção devida …” aos portugueses que maioritariamente recorrem ao SNS.
Contra estas decisões (e também a favor da suspensão do absurdo modelo de avaliação dos professores, de Maria de Lurdes Rodrigues, em Janeiro de 2009), votaram, além de Alegre, três deputadas do PS, entre as quais Eugénia Alho, eleita pelo nosso distrito.  Coincidência ou não, foram as três afastadas das listas para as eleições de 2009. Era a exclusão da ala esquerda, ou da chamada corrente alegrista, da qual restou apenas o próprio.
Tudo isto levou o líder do PS na Madeira, Jacinto Serrão, já este ano, a demarcar-se do “modelo neoliberal que está a contaminar a governação [de José Sócrates] e que está a criar desigualdade social e a colocar em causa as liberdades políticas” (Público, 21 Fevereiro).
É  neste contexto que, face à queda do Governo e à marcação de eleições antecipadas, o mesmo José Sócrates aparece com o discurso do “voto útil” da Esquerda, em defesa do Estado Social, esquecendo as notícias que dão conta dos cortes no benefícios sociais (quase 900 mil, entre abonos de família, subsídios de desemprego e rendimento social de inserção) e do brutal aumento dos desempregados, no último ano.
Aparecendo como o “homem providencial”, num exagerado culto da personalidade, assente numa máquina de propaganda que é uma das imagens de marca dos seus governos (onde se destacavam as tendas e os vídeos), Sócrates é, como dizia um conhecido comentador, um homem sem ideologia, que tenta, por todos os meios, manter o poder, apelando umas vezes à direita, outras à esquerda.
Ao pedir o voto útil de uma esquerda que durante seis anos ignorou, tenta reduzir a política portuguesa a um rotativismo partidário, próprio da monarquia do final do século XIX, que todos deveríamos aceitar, conformando-nos perante os acordos com o FMI e com a União Europeia, fruto da desastrosa gestão das finanças públicas.
É contra esse conformismo que nos querem impor, que fazem sentido as palavras do poeta Eduardo Galeano, num magnífico vídeo utilizado pela Esquerda Unida nas recentes eleições em Espanha : “Não estamos condenados e eleger entre o mesmo e o mesmo /Temos as mãos vazias /Mas as mãos são nossas”.*
São os princípios e os valores contidos neste vídeo (a dignidade, a cidadania, a esperança) que, no próximo dia 5 de Junho, me levam, como cidadão independente e de esquerda, a votar “útil” no distrito de Beja : em deputados da CDU que, na Assembleia, da República, possam fazer ouvir vozes que defendam os mais desprotegidos, os que têm sido esquecidos neste mundo dominado pelos mercados financeiros, pelas agências de rating e pelos políticos malabaristas.
27 Maio

domingo, 15 de maio de 2011

AMARAMÁLIA : a emoção do Belo.

A beleza das coisas existe no espírito de quem as contempla, David Hume (1711-1776) - Ensaios

1. Ao longo dos cinco anos e meio em que exerci as funções de programador do Pax Julia, assisti a excelentes espectáculos - de música, de teatro, de dança - e a excelentes filmes. Em muitos me ri, em outros quase chorei, em bastantes me emocionei.
É claro que estava numa situação ingrata, enquanto espectador e, ao mesmo tempo, responsável pela apresentação do espectáculo ou do filme, perante as dezenas ou centenas de pessoas que tinham comprado o seu bilhete e esperavam assistir a algo que as satisfizesse.
E não era só pelo maior ou menor agrado manifestado pelos espectadores no final, era também pelo telemóvel que alguém não desligara, pela garrafa de água que caíra ao chão (como ontem aconteceu), pelo senhor que saíra a meio, pelo cochicho irritante das senhoras ao lado ou pelo problema técnico inesperado.
Ou seja, o desejo de apreender o que de mais belo estava a assistir era, em parte, cerceado pela responsabilidade de ter programado e apresentado o espectáculo. Havia, no entanto, uma garantia, que me deixava mais descansado : é que estava a trabalhar como uma fantástica equipa, de profissionais dedicados e competentes, cujo trabalho é reconhecido, a nível nacional, por todos os artistas, encenadores, coreógrafos e maestros que têm passado pelo Pax Julia.
Por isso, quando o espectáculo terminava e o público se levantava a aplaudir (o que nem sempre acontecia, é óbvio), por mim perpassava um misto de várias sensações : de alívio, por tudo ter corrido bem, de satisfação pessoal, pela escolha que fizera, de alegria por ter assistido a algo que me tinha enriquecido, visual e espiritualmente. Mas, acima de tudo, o que sentia era uma emoção por ter trazido aos espectadores uma noite de beleza, reflectida nos seus olhares e nas suas palavras, que eu avidamente via e ouvia, quando passavam por mim no foyer do Teatro.


2. Voltei a sentir essa emoção ontem, no AMARAMÁLIA, não só no final, mas, sobretudo, durante todo o espectáculo. E começou, mal o pano se abriu e se ouviram as primeiras notas do Povo que lavas no rio : um arrepio que nos percorre, ao ouvirmos a voz esmagadora da Amália, que enche todo o Pax, e ao vermos a beleza dos jovens corpos das bailarinas e dos bailarinos, que voam pelo palco, que transbordam de energia e de magia, que se fundem como se de apenas um corpo se tratasse.
Mas o espectáculo é, ainda, a força da coreografia do Vasco Wellenkamp, a luz do Orlando Worm, os figurinos da Liliana Mendonça e, principalmente, a magistral simbiose entre o fado e a música tradicional de Amália, com a música contemporânea de Carlos Zíngaro, numa fusão que atingiu momentos de perfeição e de grande intensidade estética
O espectáculo vale, assim, como um todo, ao conseguir transmitir-nos toda a emoção a que Liliana se refere, aquando da sua apresentação em Nova Iorque, em 2004 : "...mais do que entender a palavra, é entender a emoção e ali foi a prova de que possamos ou não entender as palavras, conseguimos, de qualquer forma, entender a emoção, que se transmite na cena..."

 
3. Desde o início das minhas funções no Pax Julia que tentei trazer o AMARAMÁLIA a Beja. Dificuldades várias (nomeadamente financeiras - trata-se de um espectáculo com 13 bailarinos, técnicos e restante pessoal da companhia) sempre impediram que esse desejo se concretizasse.
Curiosamente, a CPBC já tinha estado no Pax Julia, em Abril de 2009, com um espectáculo constituído por três coreografias, "Veneno, Eurídice e o Instante, Finale", que nos mostrou a qualidade da companhia.
Foi a programação em rede, a que o Município de Beja aderiu em 2009, juntamente com outros municípios da região e de outras regiões, e o financiamento pelo QREN, que permitiram, finalmente, que essa apresentação se concretizasse. E, deste modo, conseguimos que o AMARAMÁLIA pudesse ser apreciado, primeiro em Serpa, depois em Castro e, ontem, em Beja. Tal como conseguimos programar, também em 2011, espectáculos como Nortada, de Olga Roriz, ou o Bernardo Sassetti Trio. O público de Beja merece.


4. Um agradecimento final : obrigado Tatiana, obrigado Liliana (foi pena não teres podido deslocar-te a Beja, desta vez). Continuem o excelente trabalho da Companhia Portuguesa de Bailado Contemporâneo.

AMARAMÁLIA

sábado, 30 de abril de 2011

Comemorar Abril. Sempre!

Esta aí a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo
                                                      (Sophia)
Há dois meses, quando os egípcios derrubaram Mubarak, Barack Obama afirmou que “…existem poucos momentos nas nossas vidas em que temos o privilégio de assistir a um acontecimento histórico…”.
No dia 25 de Abril de 1974 tinha 16 anos (feitos no mês anterior) e frequentava o Liceu de Beja. Não seria um jovem “politizado” mas, juntamente com um grupo de colegas e com a complacência (e cumplicidade) da jovem professora de Filosofia, dava os primeiros passos na oposição ao regime.
Sabíamos que alguns dos livros que circulavam entre nós eram proibidos, discutíamos a independência da Guiné-Bissau, ocorrida uns meses antes, contestávamos uma guerra injusta, que nos ameaçava a médio prazo, rejeitávamos uma sociedade onde as desigualdades e o medo imperavam.
Por isso, também nós esperávamos a tal madrugada que Sophia cantaria. O que não sabíamos é que viver os dias, os meses e os anos que se lhe seguiram seria, como Obama diz, um privilégio que nem todas as gerações terão.
Foram momentos vividos a uma velocidade vertiginosa. Não exigíamos o “impossível”, como os jovens franceses, seis anos antes em Paris, mas sim um País que deixasse de estar orgulhosamente só, em que existisse a Liberdade “a sério”, que Sérgio Godinho nos cantava : com “a paz, o pão, habitação, saúde, educação”.
Havia a política, claro, “pura e dura”, onde todos estávamos a aprender cada dia que passava, com a entrega e a paixão próprias da juventude e das utopias que sonhávamos, mas havia também o desejo de cumprir o legado de Bento de Jesus Caraça : “A Cultura Integral do Indivíduo”. Daí que esses anos fossem também de intensa “militância” na actividade cultural e desportiva, no surgimento de associações e na organização de eventos, no que constituiu uma verdadeira escola cívica para todos nós.
Foi, de facto, um privilégio, termos vivido, de corpo e alma, esses anos intensos, termos assistido e participado em transformações tão significativas, termos visto nascer e crescer um País novo, livre e integrado de corpo inteiro no seio dos restantes países democráticos.
Hoje, passados trinta e sete anos, é muito fácil dizer-se, como muitos fazem, que houve erros na revolução, que isto ou aquilo poderia ter sido feito desta ou daquela maneira. Há até pessoas, com importantes responsabilidades na altura, que gostariam de ter a sua imagem apagada de fotos da época, como aconteceu em outros momentos da História.
Só que, os dias de uma revolução são vividos de uma forma diferente, ultrapassando, por vezes, os próprios protagonistas. De tal modo que John Reed chegou mesmo a referir-se a “Dez dias que abalaram o mundo”, numa referência a Outubro de 1917. Nessas alturas, muitas vezes age-se primeiro e pensa-se depois, tal a velocidade em que os acontecimentos de desenrolam. Como costumo dizer aos meus alunos, uma revolução é um carro a cem à hora, enquanto que, na evolução “normal” de uma sociedade, esse mesmo carro viaja a dez à hora.
Por isso, não obstante esses “erros”, os avanços e recuos, as alegrias e as desilusões, não podemos deixar de comemorar Abril e o que de bom nos trouxe.
Porque essa é a melhor forma de “agradecer” o privilégio que foi termos vivido acontecimento histórico e de transmitirmos às novas gerações, sobretudo aquelas que nasceram depois de 1974, como é importante vivermos em democracia, longe das ameaças das pides, das censuras e de uma guerra que, não esqueçamos, levou consigo alguns milhares de jovens na força da vida e deixou para sempre marcas físicas e psicológicas bastante dolorosas em outros milhares.

Um pouco por todo o Alentejo e pelo País, festejou-se mais um aniversário do 25 de Abril. A cidade de Beja  não festejou. Ficou só, tristemente só.
Triste “Beja Capital”
29 de Abril